“Abandonado! … A estranha ‘vida nova’ do Mosteiro de Odivelas”

Abandonado!

A estranha ‘vida nova’ do Mosteiro de Odivelas”

A história da humanidade lê-se nos testemunhos vivos do passado e eles devem ser preservados”, esta é a premissa que José Maria Pignatelli, entende devia nortear a Câmara Municipal de Odivelas nas opções para o futuro a dar ao Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo. “Hoje, a razão assiste-me: Foi uma iniciativa megalómana; a Câmara comprou uma gigantesca dor-de-cabeça, uma espécie de poço sem fundo, ao querer ficar com a gestão daquele património e não faz ideia do que lhe fazer”, desabafou o antigo autarca de Odivelas, hoje a viver a cerca de 1.500 quilómetros.

Haja coragem política – precisou – copiem o que se acaba de fazer no Convento de São Paulo, em Elvas, ofereçam espaço ao Centro de Formação para o Sector Alimentar, instalado numa encruzilhada de três edifícios, na Pontinha, construam uma creche digna que a cidade bem precisa e ainda sobra espaço para edificar o parque urbano tão reivindicado pela CDU”. Para o antigo autarca, “O que se passa com o Mosteiro de Odivelas é uma vergonha – desculpem-me os leitores, pois acabam de me recordar que a palavra vergonha é proibida utilizar em Portugal -, antes um enorme incómodo para o Executivo da Câmara Municipal que se bateu por ficar com a gestão daquele património, como bandeira maior da campanha das últimas eleições autárquicas em 2017, sem saber se tinha capacidade para isso, ou seja dinheiro para investir e ideias para a sua reconversão”.

Não tinha então, como eu me cansei de dizer no final do mandato anterior 2013-2017, nas sessões da Assembleia Municipal; nem tem presentemente e pergunto qual é afinal a nova vida do Mosteiro prometida pelo presidente Hugo Martins (?)”, adianta José Maria Pignatelli, acrescentando: “Não será um planeamento de manutenção que salvará o edificado, pois não deixa de estar vazio, mesmo abandonado e isso jamais evitará a sua degradação. Alguns técnicos dos serviços municipais sabem disso”.

O antigo deputado municipal vai mais longe; “Os cerca de 18 milhões de euros orçamentados para uma eventual recuperação cujo projecto ninguém conhece, não chegam para recuperar e transformar um enorme espaço que ocupa 60 mil metros quadrados. E digo isto com a maior franqueza, por estar entre um grupo restrito que conhece bem as actuais condições do antigo Instituto de Odivelas”.

É uma fatalidade em Portugal: Os técnicos fazem quase sempre os projectos à medida das vontades dos políticos… Infelizmente, há que garantir o sustento, a sopa e o pão à mesa”

Noticias LXMas a promessa de investimento de 18 milhões de euros a 4 anos como uma das contrapartidas da cedência da gestão daquele património à Câmara Municipal de Odivelas foi certamente considerado após um estudo de avaliação, com base numa ou mais ocupações destinadas para o local?

José Maria PignatelliTudo em Odivelas como em Portugal é de uma enorme complexidade e natureza problemática. Nestas matérias as decisões políticas assentam em trabalho técnico realizado pelos Serviços Municipais ou por serviços exteriores contratados, mas acontece que os técnicos fazem, na maioria das vezes, projectos à medida e vontade dos executivos políticos. É uma fatalidade em Portugal. É um registo de falta de cultura e ética. Primeiro, há que garantir a sopa e o pão na mesa todos os dias; depois se verá se há ou não espaço ao debate e explicações técnicas.

A construção do novo aeroporto comercial de Lisboa sobre o aeródromo militar do Montijo é o melhor exemplo do que faz as pessoas terem medo dos poderes instituídos e o suposto plano de investimento no Mosteiro de Odivelas também o é. Não tenho dúvida que não se fazia nenhuma ideia do que se pretendia fazer no Instituto de Odivelas quando a Câmara se candidatou à gestão do espaço, corria então o anterior governo de António Costa. Era impreterível garantir a posse temporária do Mosteiro de Odivelas como uma das bandeiras eleitorais. Hoje, a razão assiste-me: Foi uma iniciativa megalómana; a Câmara comprou uma gigantesca dor-de-cabeça e não faz ideia do que lhe fazer. Notícias LXLanço-lhe um desafio no imediato: Uma sugestão sua?

JMP – Haja coragem para admitir a inaptidão e corrigir o erro em querer ficar com a gestão do Mosteiro de Odivelas. Copiem o que se fez no Convento de São Paulo, em Elvas, que foi reconvertido quase da ruina a hotel de charme, curiosamente o primeiro a abrir em Portugal no âmbito do programa Revive…

E como não falta espaço, conjuntamente concebam espaço apropriado para instalar definitivamente o CFPSA (Centro de Formação Profissional para o Sector Alimentar), precisamente um estabelecimento de ensino da área hoteleira que funciona incompreensivelmente, num autêntico labirinto dentro de três edifícios distintos ligados entre si, no centro da Vila da Pontinha. O Executivo camarário e os eleitos políticos do concelho, em geral, têm a obrigação em bater-se pela defesa das melhores instituições públicas de Odivelas. O CFPSA é ímpar e reconhecido internacionalmente como uma escola de formação de superioridade com resultados surpreendentes na empregabilidade.

E depois – acrescentou José Maria Pignatelli – ainda sobra campo para construir uma creche com berçário de que a cidade carece e o tal parque urbano proposto pela CDU. Impõe-se olhar do céu para os 6 hectares da quinta e toda a área envolvente; sentarem-se num gabinete de janelas abertas para arejar as mentes e convidar meia dúzia de talentos que percebem e se dedicam à matéria. E há filhos da terra nestas circunstâncias… Liguem-lhes!

É redutor e inaceitável utilizar parte do Mosteiro

para fazer residências universitárias”

Noticias LX – Faz um ano que foi publicado o Decreto-Lei – nº 30/2019 (26 de Fevereiro) que determina que parte do Mosteiro de S. Dinis e S. Bernardo deverá ser afectado a alojamento de estudantes, concretamente uma residência universitária com 80 camas. Fica-se com a noção que a ausência de ideias por parte de quem dirige a Câmara Municipal, abriu portas a uma decisão governamental para aproveitar pelo menos parte daquele património. Será assim?

JMPÉ redutor utilizar parte daquele património para residências universitárias que mais não serão do que ‘casernas’ para estudantes em virtude do estado em que se encontravam as instalações há dois anos, completamente degradadas. Jamais me passou pela cabeça que esta decisão faz parte da nova vida para o Mosteiro prometida publicamente pelo presidente Hugo Martins. As residências universitárias devem ser feitas de raíz e com exigências construtivas e equipamentos que apenas se podem ajustar no mosteiro se ali se pensar fazer ressurgir um estabelecimento de ensino.

Mas o mais espantoso é o silêncio do inquilino, a Câmara Municipal, sobre uma resolução unilateral do senhorio, o Estado representado pelo governo, que receberá cerca de 32 milhões de euros por um arrendamento de 50 anos. Ou seja, para que todos percebam: o senhorio impõe ao inquilino, com um contrato de arrendamento de longa duração, a cedência de parte do espaço ao seu Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. E tudo, para o ministro responder às reivindicações dos estudantes do ensino superior que não conseguem pagar os exagerados valores pedidos pelos arrendamentos de quartos em casas particulares em Lisboa e arredores.

Fica bem a Câmara Municipal socialista fazer um favor ao governo socialista.

Notícias LXO debate público que foi prometido pelo Executivo municipal acabou por ser aberto pelos eleitos da CDU e que até apresentaram uma proposta concreta, pelo menos para o futuro da quinta propriamente dita. Depois, ouviram-se sugestões, por exemplo, de João Pedro Galhofo, presidente do CDS de Odivelas. Que considerações lhe merecem?

JMPQue me perdoem os autores e proponentes dessas iniciativas, mas assiste-se a propostas casuísticas, relativamente incompletas que nem sequer são produzidas observando o todo, o Mosteiro, o gigantesco edifício onde funcionou o Instituto de Odivelas, e a quinta onde também existem algumas construções. Impõe-se coragem política para se pedir um projecto global, propondo um caderno de encargos racional, exequível e capaz de servir os interesses sociais e económicos do concelho. E se dentro dos Serviços Municipais não houver essa capacidade que se abra um concurso público, transparente, sem nenhuns favorecimentos.

Em Odivelas não há massa critica e os munícipes não são chamados verdadeiramente a empenharem-se para a mudança e modernização do concelho, fazendo dele uma referência na Área Metropolitana de Lisboa”

Noticias LXFala de coragem política? O que falta?

JMPQue o poder político diga abertamente que não tem ideias precisas sobre o que fazer àquele património imenso, nem dinheiro para investir. Que explique aos munícipes que também foram incapazes de decidir, em definitivo, sobre a reabilitação global do centro histórico da cidade, que custará milhões, uma promessa feita nas campanhas eleitorais de 2009, de 2013 e mais recentemente em 2017.

Pelo que leio e oiço à distância, em Odivelas não há massa critica nem os munícipes são chamados verdadeiramente a empenharem-se na mudança, na reabilitação e modernização do concelho, fazendo dele uma referência na Área Metropolitana de Lisboa.

Notícias LX – Refere-se a que iniciativas?

JMP – À maioria. Consubstanciam-se em associações que nascem, morrem ou desaparecem pouco tempo depois. Fico com a péssima ideia que acontecem para que se vejam meia dúzia de vaidosos… Mas voltemos ao início, ao Mosteiro de Odivelas e da sua importância na reconversão urbanística de Odivelas e na qualidade de ter sido o primeiro autarca a propor a luta contra o encerramento do Instituto de Odivelas.

Notícias LX Essa luta terminou de forma inglória. O Instituto de Odivelas foi encerrado e o Mosteiro esvaziado da sua última vida que tinha já 113 anos (1902-2015)?

JMP – Não diria que terminou de forma inglória. Seria aceitar que foram um conjunto de batalhas ignoradas e isso não é verdade. Participei em vários fóruns e estive, acompanhado por gente gira e culta, por mais de três vezes na Assembleia da República. A última, acompanhei a delegação oficial das alunas do Instituto de Odivelas. Odivelas fez-se ouvir, foi a debate… Mas assumo um sentimento de tristeza e derrota…

Noticias LX Derrotado?

JMP – Não quis acreditar que a vida política não fosse limpa, transparente, num caso destes de vital importância para todos, mesmo para os mais indiferentes para as coisas da cultura. Primeiro, acreditei que o então ministro da Defesa Nacional, o social-democrata Aguiar Branco, acabaria por aceitar conhecer o Instituto de Odivelas e a vê-lo em duas perspectivas, pela importância enquanto património e como estabelecimento de ensino diferenciado. Afinal, encolher as despesas às cegas, fazendo o frete à Troika foi a sua maior prioridade. Nunca esteve em Odivelas, nunca nos ouviu, nunca nos quis receber, mas em boa verdade nunca fui conhecedor que tivesse sido formalmente convidado pela governação municipal de então, a coligação pós-eleitoral entre PS e PSD.

Segundo, a inabilidade e falta de coragem da maioria dos deputados do CDS, na Assembleia da República, para fazer ouvir as nossas reivindicações e influenciar positivamente um governo de que faziam parte. Venceu o politicamente correcto, a vontade maioritária de não incomodar o parceiro de coligação.

Terceiro, a desunião entre os eleitos políticos de Odivelas, os ‘jogos de bastidores’, as desmedidas ansiedades de protagonismo dos autarcas, principalmente dos socialistas liderados por Susana Amador. Recordo que apenas em duas circunstâncias aconteceu unanimidade: a primeira, em 24 de Setembro de 2012, quando todos votaram favoravelmente a minha moção contra o encerramento do instituto e a sua anexação ao Colégio Militar em Carnide que já se adivinhava e foi uma espécie de advertência que fiz por ter informação privilegiada; a segunda, em vésperas do irreversível encerramento do Instituto de Odivelas e já depois do ‘afastamento’ do seu director, o coronel José Serra.

Tenho para mim que este foi o pior acontecimento na minha carreira política, curta e por empréstimo, de quase 9 anos!

Ganhei liberdade para disfrutar da vida que é realmente curta…

E como dizem os espanhóis: ‘enhorabuena’”

Noticias LXEntão como entende o facto de não ter sido escolhido para a candidatura da coligação CDS-PSD? E faço-lhe esta pergunta pelas considerações, tantas vezes surpreendentemente positivas e quase generalizadas da pertinência da sua intervenção política

JMPSeguramente, faço parte do grupo restrito que entende que a política obriga a empenho, dedicação absoluta, concepção da coisa pública, mas ao mesmo tempo desprendimento total do fenómeno muito português, do exercício da política como carreira profissional para a vida. Nem sequer a educação que recebi, a carreira profissional que tive e de que me orgulho, perdoem-me a imodéstia, e a idade me permitiam outra posição. Entendi o facto com absoluta naturalidade. Assim é em democracia. De qualquer modo, digo para mim próprio como os espanhóis ‘enhorabuena’ (felicito-me a mim mesmo). Ganhei qualidade de vida, posso dedicar-me à família a quase 100% e tenho liberdade para disfrutar da existência que é realmente curta.

Notícias LXJulga que o CDS está bem representado na Assembleia Municipal?

JMPPerdoe-me a franqueza, esta pergunta deverá fazê-la ao Sr. João Pedro Gonçalves Pereira que foi o responsável pela escolha, enquanto presidente da Distrital de Lisboa. Fez a sua avaliação dos possíveis candidatos em concertação com o seu próprio perfil, de político carreirista, indiferente e qui çá receoso daqueles que defendem a coisa pública, os cidadãos, que trabalham no terreno, sem horário, em detrimento da vida familiar e que obviamente exigem participação às cúpulas do partido.

Sendo mais directo: O partido não tem qualquer representante na Assembleia Municipal de Odivelas! Pelo que oiço e vejo nas notícias, existe um deputado que o CDS indicou, é certo, mas que toma decisões extemporâneas, a maioria delas descontextualizadas de qualquer doutrina política ou avaliação técnica, algumas até reveladoras de ignorância… Talvez porque não vive, nem conhece Odivelas. O Eleito faz imensas intervenções que tenho realmente muita dificuldade em interpretar.

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