COVID-19 – Epidemia vs Pandemia, um Padrão ?

A história da humanidade, e porque não dizê-lo, do planeta terra, está eivada de referências a surtos infecciosos, nas populações, que facilmente ganham a proporção de epidemias, face ao alastramento, mais ou menos confinado desses surtos, e portanto com algum nível de controlo quanto à transmissão, de infectados, para pessoais saudáveis, mas se a evolução, do processo de transmissão, sai do controlo das autoridades, e esta se dissemina de forma incontrolável, de uma área local e definida, para uma área regional ou continental, afectando vários países ou continentes, então passa-se ao estado de pandemia. Desde a mais remota antiguidade, que a humanidade, tem convivido com epidemias que passaram a pandemias, com consequências absolutamente calamitosas, para as populações e para os países e regiões afectadas, em termos de mortandade.

Umas mais conhecidas que outras, a verdade é que a actual situação vivida com o COVID-19, convida-nos a olhar para o passado, para a história, e identificar aqui um padrão, que talvêz nos tenha escapado, quanto à forma de contágio, transmissão, e comportamentos humanos perante o flagêlo.

O Escorbuto, por exemplo, doença que se manifesta por um inchaço gengival, de que resultam perda da dentição, fruto de carência de vitamina C, redundando na morte do infectado, integra o grupo das doenças bem conhecidas, pelo menos entre os Portugueses e os Espanhóis, uma vez que esta afectava as tripulações das embarcações, Caravelas, Naus e Galeões, as quais, em cada viagem, passavam longos períodos em alto mar, e apesar dos mantimentos incorporarem fruta, esta rapidamente apodrecia, ficando a marinhagem sem acesso à vitamina C.

Fernão Magalhães, na sua circum navegação, ao serviço dos Reis de Espanha, (só para referir essa, porque antes dessa já tinha circum-navegado o “mundo” que o tratado de Tordesilhas teria atribuído a Portugal), perdeu, devido ao escorbuto, 4/5 da marinhagem. Vasco da Gama, perdeu 2/3 da sua marinhagem, e Pedro Álvares Cabral, ainda foi pior, pese embora não se possa atribuir exclusivamente à doença a perda de tripulação.

Como só os portugueses, e um pouco os espanhóis, faziam grandes navegações, foram naturalmente estes povos, quem mais sofreu com a dizimação da sua marinhagem, estimando-se terem perecido cerca de 1 milhão de marinheiros, durante o período apelidado como “grandes navegações” … e destes a grande maioria seriam portugueses, o povo que mais tempo passava no mar “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal” cantava Fernando Pessoa, para uma população, em Portugal de pouco mais de 700 mil pessoas, veja-se o impacto, que esta epidemia teve… .

No entanto esta doença, já vem representada em arte do Antigo Egipto, desde pelo menos 1.500 AC, e Hipócrates chegou mesmo a descrever esta doença. Portanto uma “velha conhecida”.

A Lepra, outra doença terrível, cuja epidemia é assinalada no Evangelho de São Mateus, quando refere à cura de um leproso por parte de Jesus. Não existem números quanto à origem, ou mortalidade provocada pela doença, mas sabe-se que era letal, provocando enorme mortalidade, entre os infectados, com raríssimos casos de cura, tendo dado origem ao isolamento compulsivo dos infectados, segregados para cavernas exclusivas, chegando-se ao ponto de se construírem aldeias só povoadas por infectados, e se estes queriam deambular fora dessas comunidades tinham de trazer consigo um sino a fim de anunciarem a sua presença. As gafarias, e as leprosarias, eram uma espécie de sanatórios, hospitais, onde muitos eram como que “depositados”, esperando uma cura milagrosa ou a morte anunciada.

Na base desta doença, estaria a completa ausência de condições de higiene, entre as populações e a falta de saneamento básico. Com o desenvolvimento das condições de higiene a Lepra acabou por ser debelada, no mundo desenvolvido, e confinada a pequenos surtos, mas resolvidos pelos avanços da medecina. Não está erradicada, porque em certos países sub-desenvolvidos ainda subsiste a ausência de condições de saneamento.

A Poliomelite, também conhecida como Polio, é registada igualmente já no Antigo Egipto, onde gravuras mostram pessoas com membros atrofiados, e crianças apoiadas em muletas. Em termos médico-científicos, só em 1789 é que um médico inglês, Michael Underwood, a sinalizou, enquanto doença autónoma. Em 1900 registaram-se pequenas epidemias, nos EUA e Europa, mas rapidamente evoluíu para Pandemia na Europa, EUA, Austrália, Nova Zelãndia, durante a primeira metade do século XX.

A vacina surgiu em 1950, e em 1988, graças ao esforço consertado da Organização Mundial da Saúde, a UNICF, e uma organização não governamental internacional, o movimento Rotary, fundado por Paul Harris, um Maçon cuja filosofia de vida o compelia a ajudar os outros, a doença foi erradicada.

A Peste Negra, será porventura uma das mais conhecidas … quem nos bancos da escola, não ouviu falar dela, ao estudar a Idade Média ?

Tendo aparecido na Ásia Central, foi “transportada”, pela rota da seda, até à Crimeia, e daí disseminou-se por todo o mundo ocidental conhecido na época. A bacteria yersinea pestis dizimou um valor estimado entre 75 a 200 milhões de pessoas, tendo sido o seu auge em 1346-1353, conduzindo a uma brutal segregação da população infectada, em termos semelhantes ao que tinha ocorrido com a lepra. Só foi debelada no inicío do séclo XIX, quando as condições de saneamento conheceram um incremento assinalável, quando comparado com o da idade média.

A Varíola e o Sarampo, são duas epidemias responsáveis pela morte de cerca de 2 milhões de pessoas, particularmente no México e no Perú, de 1500 a 1530, por via da colonização do novo mundo, sendo os seus transmissores os povos colonizadores, em especial os Espanhóis, principais colonizadores daquelas regiões.

A Cólera, é uma doença, responsável por nada mais nada menos que 8 Pandemias, globais, começando em 1816, na Indía, passando à China, tendo chegado à República do Azerbeijão, Casaquistão, Turcomistão, e Rússia, este através do mar cáspio. Em 1832, Surge na Europa continental e alastra-se aos EUA, Canada e Inglaterra. Em 1852, surge na Rússia e provoca 1 milhão de mortes, tendo-se alastrado em 1863 a toda a Europa e África, reforçando-se em 1875. Em 1866, a Cólera provoca grande mortandade nos Estados unidos da América. Em 1892, causa 8.000 mortes na Alemanha. Em 1899, surge na Rússia, mas tem pouco impacto na Europa graças a avanços no domínio da saúde pública.

A Tuberculose, é uma doença muito antiga, mas por falta de conhecimento era muitas vezes confundida com outras doenças, e só em 1839 por J.L. Schoenlein, a batizou pel aprimeira vez, isolando-a de outras doenças. Pensa-se que surgiu devido à domesticação de gado doméstico, e remonta à Grécia antiga.

Mycobacterium tuberculosis é o bacilo causador da doença, e foi descrito em 24 de março de 1882, por Robert Koch, o que lhe valeu o prémio Nobel em 1905.

Causou enorme preocupação na Europa do século XIX, devido ás mortes registadas, que chegaram a ser de 500 por 100.000, só em 1850, dez anos depois passou para 50 por cada 100.000 pessoas, devendo esse sucesso ao avanço dos cuidados em matéria de saúde pública na Europa.

Em Portugal, em 1899, morreram entre 15 a 20.000 pessoas, devido a esta doença, levando a medidas compulsivas de isolamento dos infectados, e uma aposta na prevenção das condições de vida, higiene e alimentação. Os sanatórios surgiram como resposta ao flagêlo, um pouco por todo o lado.

Apesar de existir tratamento eficaz, ainda morrem actualmente cerca de 1.7 milhões de pessoas, por ano, na África e Sudueste Asiático.

A Gripe, a doença mais conhecida do mundo, pois assume formas menos letais, na actualidade, tem um historial mortal desde 1580, quando surge na Ásia, e em pouco mais de 6 meses, espalhou-se pela Europa, África, EUA, Inglaterra, aniquilando 10% da população infectada. De 1729 a 1732, só na Rússia, matou 500.000 pessoas em 36 meses. Em 1781, re-surge na China, e afectou a Europa em apenas 8 meses. Em 1830, volta a surgir na China e espalha-se à Ásia, Europa e Continente americano, infetando cerca de 25% da população dessas regiões. Em 1889, surge na Europa transmitindo-se ao Brasil. Em 1918 a doença dá pelo nome de Gripe Espanhola, infetou 50% da população mundial e levou à morte 40 milhões de pessoas, sendo, de todas as epidemias e pandemias a pior. Depois em 1957 surge a gripe Asiática, na China, passando à Austrália, Indía, Europa, Africa, e EUA, num tempo recorde de 10 meses, matando cerca de 80% dos infetados. Por último a Gripe de Hong Kong, surgida também na China, infetando 500.000 pessoas, tendo tido impacto na guerra do Vietname, a partir da qual foi “levada” para os Estados Unidos da América pelos marines, espalhando-se por todo o mundo.

Já nos nossos tempos temos, desde 1982, a SIDA/AIDS, cujo impacto mediático muito se deve a figuras públicas, infetadas, cuja notoriedade colocou na ordem do dia, a doença, como é o caso de vários conhecidos artistas, nacionais e internacionais, destacando-se, em Portugal, o músico e cabeleireiro António Variações, tido, entre nós, como o primeiro doente a morrer da terrível doença. A doença Infetou 60 milhões de pessoas, no mundo, e matou até agora 20 milhões de pessoas, o equivalente ao dobro da população portuguesa. Estima-se que em 2020 existam cerca de 34 milhões de infetados, pelo vírus. O avanço da medicina e da profilaxia, com os medicamentos retrovirais, tem permitindo a contenção da doença, a qual ainda não tem cura, mas a medicina, hoje, já permite aos infetados, uma qualidade de vida, semelhante aos não infetados. Em Portugal, a taxa de sucesso nos recém nascidos de pessoas infetadas, mas sem serem portadores da doença é de 100%, algo que muito poucos países se podem gabar, e que deve ser motivo de reflexão, quando em Portugal muitas vozes se levantam contra o nosso Sistema Nacional de Saúde.

Aqui chegados depara-se neste exacto momento com o Corona Vírus ou COVID-19, com uma sintomatologia a afectar as vias respiratórias, surgido na China, na cidade de Wuan, a 24 de Dezembro de 2019, cuja disseminação para fora das fronteiras da China se fica a dever ao “estado de negação” em que as autoridades chineses mergulharam, censurando mesmo o médico oftalmologista chinês que alertou para este novo vírus, sendo repreendido e obrigado a assinar um auto de censura, pelo qual se dava como culpado de espalhar rumores e boatos. Assim que a realidade falou mais alto que a resistência chinesa, o governo de Pequim ordenou a quarentena a cerca de 40 milhões de pessoas, e chamou a OMS ao processo.

Segundo notícias da imprensa, a epidemia alastrou já a 50 países, e conta já com 83.867 pessoas infetadas, e pessoas mortas vão já nos 2.900. Desconhece-se como surgiu, como se transmite, como se propaga, enfim nada se conhece sobre esta epidemia, que a OMS, teima em não classificar como pandemia. Cerca de 51% dos infetados com mais de 60 anos, morreram.

Curiosamente, Portugal, ao momento em que se escrevem estas linhas, acaba de registar 2 casos positivos para o Corona Virus, um deles médico contaminado em Itália, onde esteve de férias, e outro um cidadão de 33 anos que esteve em espanha, em trabalho, ambos os casos trata-se de uma “importação” da epidemia, embora um escritor chileno, positivo para o Corona Vírus, afirme ter sido em Portugal que foi infetado, em Fevereiro deste ano.

Também se regista o facto de nem em África, nem na América do Sul se registar um único caso de Corona Vírus. Admite-se que em certos países onde os sistemas públicos de saúde são rudimentares, a ausência de notificação se deva à impreparação e ou falta de meios para diagnosticar a doença. Não será o caso de Portugal, apesar de os “Velhos do Restelo” teimosamente insistirem em denegrir o nosso SNS, fechando os olhos aos casos de sucesso que o mesmo regista.

Olhando para o historial das epidemias e pandemias, do passado, constatamos que a rápida disseminação foi uma constante, e numa altura em que os fluxos de mobilidade inter regiões era feito de modo algo rudimentar, sobretudo por via terrestre, e por via maritíma. As soluções preconizadas foram quase sempre o isolamento e o confinamento territorial dos infetados, até à produção de uma vacina, em simultâneo com acrescidos cuidados de higiene e cuidados alimentares.

Hoje com uma hiper facilidade em termos de mobilidade internacional, com melhores e muito mais rápidos meios de transportes, seja por via terrestre, com uma excepcional rede viária por toda a Europa e América, ferroviários cuja rapidez de comboios bala, TGV entre outros, é uma realidade, rotas marítimas com embarcações mais rápidas e com enorme capacidade de transporte de pessoas, e sobretudo com um meio de transporte que antigamente não existia – o transporte áereo, cujos aeroportos são verdadeiras placas giratórias da infecção e contágio, merecendo bem o apodo de “infetários”, estando neste preciso momento, em que estas linhas são escritas, milhares de aviões no ar, deslocando milhares de passageiros, de todas as origens e proveniências, para os destinos mais variados nos 4 cantos do planeta, é fácil concluir que a epidemia, é já uma pandemia, e a tendência é a situação agravar-se mais rapidamente, que qualquer outra pandemia do passado.

O que nos diz mais o passado das pandemias ? Olhando para a frieza dos números estes revelam que com origem na Ásia (China) registam-se 7 pandemias, incluindo já o COVID-19, entre as quais aquela que mais mortes fez até hoje, a Peste Negra (de 75 a 200 milhões).

Isto merece uma ponderada reflexão, sobretudo porque este novo corona vírus, só passou as fronteiras da China, porque esta tentou esconder o problema, desacreditando, agora, todas as informações oriundas da China quanto à evolução da pandemia. Não são fiáveis, pois ficará sempre a dúvida se estão a dizer a verdade, parte dela, ou outra coisa qualquer.

As autoridades do resto do mundo, ainda olham para esta pandemia, como se fosse uma epidemia, e não o é, e as medidas minimalistas que estão a ser tomadas, têm o mesmo efeito do conhecido comprimido “melhoral”, ou seja, não fazem bem, nem fazem mal. Por enquanto.

Se rapidamente não surgir uma vacina, o encerramento de fronteiras será infelizmente uma inevitabilidade, incluindo a suspensão de Shengen, a segregação e o confinamento dos infetados, seja por recurso ao regime de “quarentena”, seja sob o regime de “isolamento profilático”, seja compulsivamente por ordem médica, seja por “motu próprio”, com repercussões na socialização das pessoas, claro que sim, com efeitos devastadores na economia. Concerteza. Mas será uma necessidade, a bem de todos.

A faixa etária mais afectada em termos letais será a das pessoas de idade avançada, em tese, acima dos sessenta anos, precisamente o universo dos mais necessitados em matéria de apoio social, humano, entre outros, pelo que é altamente recomendável que se abstenham de comportamentos de risco, ou seja, evitar aglomerações de pessoas, evitar contato físico (esqueça lá os beijinhos e os abraços, uma simples saudação verbal é suficiente), evitar a todo o custo contato físico com os corrimões de escadas rolantes, pois sabe-se serem depósitos de milhões de bactérias, e evitar a utilização de casas de banho públicas, mas tendo de o fazer, não abrir as portas com as mãos, se for possível, e depois de “aliviar” as suas necessidades fisiológicas, lavar sempre as mãos (se a torneira for manual, lave ligeiramente a mesma), e optar, sempre que possível, por secar as mãos no secador a vento. Oura forma de contágio muito rápida é o manuseamento de dinheiro, também um enorme depósito de bactérias, fazendo do uso de cartões de pagamento automático uma boa opção. O uso de elevadores, por serem espaços muito confinados, também é de evitar.

É absolutamente criminoso que um empregador mantenha nos locais de trabalho pessoas com sintomas de gripe, tosse, ainda que ligeira, suores frios, estado geral de desconforto, mera constipação, em nome de um medieval preconceito que menospreza o bem estar de um colaborador, pouco se importando se o corolário natural é o contágio a vários outros. Ainda à pouco tempo me chegou relato de um exemplo destes.

Enfim ficar em casa é o melhor remédio.

A China ficará para a história como protagonista do “milagre económico chinês”, pelos piores motivos, uma vez que está lançado o caos na economia mundial, e nem a construção de um ou vários hospitais, em velocidade cruzeiro creditará em seu nome, pois o que fica para a memória é que as suas responsabilidades são exclusivas, e certamente as consequências indemnisatórias não lhe serão impostas, como deveria ser.

Oliveira Dias

Presidente do Conselho Fiscal da ANPR (IPSS/MODERP-UGT)

Associação Nacional de Pensionistas, Reformados e Aposentados

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