Afinal, mascaramo-nos ou não?

Caros leitores, já se passaram 50 dias desde o Carnaval, mas para esta pergunta ainda não existem conclusões definitivas. Nos dias que correm, somos todos consumidores de conteúdos informativos sobre o coronavírus. Desde as televisões, rádios e jornais, até às redes sociais, é impossível não estar constantemente a ser bombardeado com estatísticas, curvas com os seus picos e planaltos e todas as polémicas da ciência acerca da pandemia.

Uma das discussões mais calorosas, que tem acompanhado o desenvolvimento da pandemia um pouco por todo o mundo, é a utilização ou não de máscaras por toda a população para a prevenção da propagação do vírus. Cedo se percebeu que havia um grave problema de stock mundial deste tipo de equipamentos, o que veio, desde logo, influenciar as posições oficiais dos organismos mais importantes na gestão da pandemia, como a Organização Mundial de Saúde ou a nossa Direcção Geral da Saúde. Já todos teremos visto os famosos gráficos que apresentam o número de casos por país, e a associação dos resultados mais favoráveis à utilização de máscara por toda a população, por exemplo na Coreia do Sul ou na República Checa. Mas não podemos isolar esta utilização de máscaras do conjunto das medidas que estes países implementaram ou que são características culturais do seu povo. A República Checa foi dos primeiros países europeus a impor o confinamento e fechar as fronteiras reduzindo, desde logo, o número de casos importados e quebrando as possíveis cadeias de transmissão. Nos países asiáticos, no geral, faz-se utilização habitual de máscaras, sendo a sua utilização culturalmente aceite e disseminada, como medida protectora contra doenças e a poluição ambiental. A experiência na sua utilização correcta terá, certamente, impacto na eficácia da medida.

Factualmente, há duas características neste vírus que tornam provável que a utilização de máscaras possa ter um papel importante na redução do contágio. Trata-se de um vírus respiratório cuja transmissão ocorre, principalmente, pela emissão de pequenas gotas pela nossa respiração, enquanto falamos, tossimos ou espirramos, podendo, ao que parece, permanecer algum tempo em suspensão no ar. Estas gotas também se depositam nos objectos ao nosso redor e, depois de lhes tocarmos, podemos contaminar-nos ao levar as mãos aos olhos, boca ou nariz. Por outro lado, sabemos que existem portadores assintomáticos da infecção, como aqueles que virão a desenvolver a doença nos dias seguintes ao contágio, mas também muitos que nunca terão qualquer sintoma. O grande problema é que estes portadores são uma enorme fonte de contágio porque não se conseguem identificar e, por não terem sintomas, não tomam as medidas de isolamento e de protecção dos que com eles convivem.

A Direcção Geral da Saúde vem adaptando a sua postura relativamente ao uso de máscaras desde o início da pandemia. Uma postura inicial mais restritiva que evoluiu, à medida que os aviões aterravam com milhões de máscaras no porão, para uma abertura progressiva à sua utilização. No dia anterior à redacção deste artigo, 13 de Abril, abriu pela primeira vez a porta à utilização das máscaras pela população em geral. Não o obriga, nem se diga que o recomenda, mas informa que a sua utilização em ambientes fechados, quando não seja possível manter o distanciamento social, pode considerar-se uma medida de precaução em Saúde Pública, embora reforce que a eficácia desta medida ainda não se encontra provada.

O problema da falta de stock de máscaras a nível mundial mantém-se, apesar dos esforços generalizados no aumento da produção. Vamos deixar os profissionais de saúde desprotegidos para que a população geral tenha a sua máscara? Naturalmente que não. E aqui entram as chamadas máscaras sociais ou comunitárias. Enquanto não houver máscaras cirúrgicas para todos, devemos deixá-las para utilização pelos profissionais de saúde, os doentes, os grupos de risco, as instituições sociais e os lares. As máscaras sociais (em tecido, mais ou menos elaboradas, com ou sem filtros) apresentam menor eficácia na protecção individual, mas se as usarmos como um grupo potenciamos a protecção da comunidade.

A verdade é que não sabemos ainda o suficiente sobre nenhuma das polémicas que têm sido acesamente discutidas entre a comunidade científica, e que a comunicação social tem trazido para o público em geral, na ânsia de trazer esperança para a sociedade. Já todos percebemos quão difícil é estar em confinamento, e temos os olhos postos nos meses que virão e nas possibilidades de redução das medidas de contenção. Não há planos perfeitos. Ninguém sabe, ainda, como sair com segurança desta situação. Muito do que se tem feito, seja no campo do tratamento da doença, da obtenção duma vacina ou na contenção da propagação do vírus está ainda no campo da experimentação. Só daqui a muito tempo se poderá tirar as devidas conclusões sobre que intervenções foram, verdadeiramente, eficazes na resolução da pandemia.

As medidas em curso em vários países parecem sugerir que a máscara para todos poderá contribuir para melhorar a situação actual, permitindo o aliviar selectivo das medidas de confinamento e o retomar de algumas actividades económicas. Não será por si só a salvação, mas entre um conjunto de medidas como: manter os grupos de risco protegidos, iniciar e expandir os testes de imunidade entre os mais jovens, manter o distanciamento social nas actividades fora de casa e, acima de tudo, manter as regras rigorosas de etiqueta respiratória; neste caso as máscaras poderão desempenhar um papel importante no somatório de medidas de protecção.

Neste sentido, importa saber utilizar as máscaras e não esquecer o mais importante nesta guerra: o distanciamento social e a etiqueta respiratória.

Conselhos práticos:

– Fique em casa. Saia apenas por motivos inadiáveis;

– Se sair, mantenha a distância de 1 a 2 metros entre si e os outros;

– Utilize máscara cirúrgica ou máscara de tecido quando se desloca a locais fechados;

– A máscara tem de cobrir a boca e o nariz;

– Nunca toque com as mãos na máscara a não ser para a colocar e para a remover;

– Ao colocar e tirar a máscara deve tentar tocar apenas nos elásticos laterais;

– Lave sempre as mãos antes de colocar a máscara e depois de a tirar;

– Elimine a máscara descartável sempre no lixo, de preferência dentro de um saco de plástico;

– Lave a máscara de tecido diariamente na máquina de lavar roupa.

Válter Ribeiro Ferreira
Médico Interno de Formação Específica
Medicina Geral e Familiar

 


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Valter Ribeiro Ferreira - vferreira.md@gmail.com
Valter Ribeiro Ferreira - vferreira.md@gmail.comValter Ribeiro Ferreira - Médico Interno de Medicina Geral e Familiar (MGF)