Histórias d’África / Abençoada tempestade!

O tremor de terra coronavírus estremece a Espanha: O FMI garante uma queda do PIB em 8%, mas o banco central estima 13% e um desemprego a atingir os 20%. O maior destino turístico do Mundo tem os hotéis com taxa de ocupação zero. E é este Reino o maior cliente de Portugal.

As estatísticas valem o que valem. Resultam de várias fórmulas e apreciações. No caso da pandemia do Coronavírus optam-se pelos números puros e duros de contaminados, mortos e curados ou adiciona-se uma leitura da contabilidade pelo número de habitantes, daí resultando uma percentagem. Na maior parte das vezes esquece-se do rácio entre regiões do mesmo país. Na maior parte das vezes, fica-se com a sensação que o vírus se dissemina pelo território de um qualquer país de forma idêntica. É um redondo engano! Espanha não foge à regra: Há regiões onde a contaminação pelo coronavírus diverge bastante. A Comunidade Autónoma das Canárias, na costa africana, é um exemplo de como não devemos generalizar os números a um país inteiro. Com quase 2,3 milhões de habitantes, num território com uma área total de 7.446,95 quilómetros quadrados, portanto com 308 habitantes por Km2, até domingo passado, dia 19 de abril, contavam-se um total de 2.065 contágios – 0,01% da população – e 119 falecidos. Estes casos incluem-se num total de mais de 200.000 infectados e de 20.852 mortos, em todo o território de Espanha em igual período.

Falámos com José Maria Pignatelli a viver em Tenerife, a maior ilha do arquipélago, gestor, jornalista e ex-autarca.

Notícias LXFoi nas Canárias que aconteceu o primeiro caso de Coronavírus em território de Espanha. Aconteceu em 31 de Janeiro último, quando um turista de nacionalidade alemã testou positivo para SARS-CoV-2. Como se explica que a partir daqui a situação não se tenha tornado aparentemente mais preocupante?

José Maria PignatelliSupostamente foi na Ilha de La Gomera que aconteceu o primeiro caso a Ocidente e isto porque depois do cidadão alemão em causa ter cumprido quarentena juntamente com outros companheiros de viagem, subsistiu a dúvida sobre eventual caso de pneumonia. Como é sabido o comportamento da infecção por coronavírus é semelhante. Mais, La Gomera é a ilha mais perto aqui de Tenerife, bastante mais pequena e é frequentada por turistas apaixonados pela natureza e que gostam de desligar do Mundo durante as férias. Tem aeroporto mas não recebe voos directos de países terceiros.

Notícias LXMas depois desse acontecimento os contágios aconteceram onde?

JMPNaturalmente nas ilhas de maior dimensão, com mais habitantes e com maior exposição exterior pelo movimento de turistas. Tenerife é onde se registam o maior número de contágios, até ao passado dia 19 de Abril, com 1.307 infectados, 79 falecidos e 472 altas hospitalares.

Mas convém explicaradianta José Maria Pignatellia grandeza dos números. Em Tenerife vivem em permanência cerca de 1 milhão de pessoas (os censos publicados no início de 2019 revelavam 949.471 residentes). Acrescem mais uns 150 mil habitantes sazonais que passam aqui 8 ou 9 meses por ano. São estrangeiros e espanhóis continentais e a comunidade estudantil da Universidade de La Laguna, uma das mais antigas do Mundo e prestigiada. Depois, temos de somar a maior fatia dos cerca de 18 milhões de turistas que visitam anualmente o arquipélago e que aqui ficam no mínimo 4 ou 5 noites. Estes, os verdadeiros turistas e não os que são considerados na Europa continental como todos aqueles que viajam e negócios nem que seja por um ou dois dias. Importa determo-nos que os 8 aeroportos das Canárias registaram 44 milhões de passageiros movimentados no ano passado. Só pelos dois aeroportos internacionais de Tenerife passaram 15,94 milhões desses cidadãos. E o movimento marítimo de passageiros entre o continente e o arquipélago e entre ilhas ultrapassou os 4,2 milhões de deslocações. Em 2018, ainda tempo de meia crise, as Canárias representaram 31,3% das compras de habitação por estrangeiros de toda a Espanha. O turismo representa 30% PIB e 40% do emprego. O resto da economia encerra-se no sector dos serviços e agroalimentar, pois falamos de um arquipélago também designado por ilhas afortunadas, onde quase tudo floresce, tantas vezes de modo surpreendente.

O arquipélago é composto por 9 ilhas, ainda que poucos recordem a pequena Graciosa com 740 habitantes e onde o coronavírus nem sequer chegou, sendo mesmo o único território espanhol sem contágios, e a desabitada Ilha de Lobos.

E esclarece: São 1000 quilómetros de costa e teremos de considerar a dimensão de algumas das ilhas. Tenerife tem 2.034 Km2, enquanto a ilha da Madeira, por comparação, tem 741 Km2 (quase menos 3 vezes área), sendo mais pequena que Fuerteventura (1.660 Km2), Gran Canária (1.560 Km2) e Lanzarote (846 Km2).

Tempestade de areia que atormentou o carnaval

confinou centenas de milhares voluntariamente

Notícias LXQual é a sua percepção para que os números de afectados pelo Covid-19 sejam relativamente baixos?

JMPPermita-me um parêntesis: Basta que uma pessoa perca a vida prematuramente seja por que razão for para nos angustiar. Posto isto, acredito que a fortíssima tempestade de areia ocorrida entre os dias 21 e 24 de Fevereiro, durante as comemorações do Carnaval, foi decisiva. Recordo que as ilhas ficaram praticamente paralisadas, os aeroportos encerraram e milhares confinaram-se em casa voluntariamente. Tirou quase meio milhão de pessoas da baixa da cidade de Santa Cruz, durante três dias, onde se realiza aquele que é considerado o segundo melhor Carnaval do Mundo. Indiscutivelmente quebrou-se o movimento de cidadãos e turistas numa faixa costeira superior a 70 quilómetros do Sul da ilha. E o mesmo sucedeu na Gran Canária, a segunda ilha com maior número de residentes e turistas. Tudo isto quando a epidemia de coronavírus da cidade chinesa de Wuhan se tornava numa pandemia, ou seja ultrapassava as fronteiras daquela cidade e do país. A areia do Sahara levada por ventos muito fortes limparam-nos os solos, precisamente onde ‘correm’ os vírus. As poeiras consequentes chegaram a atingir o continente americano.

Notícias LXEntão e as medidas tomadas pelo governo de Espanha, nomeadamente a declaração de Alarma Nacional com o consequente confinamento e a decisão do governo das canárias em repatriar os turistas não foi eficaz?

JMPA resolução do dia 14 de Março que limitou a vida dos mais de 47 milhões de cidadãos que vivem em Espanha e a posterior decisão do governo das Canárias em repatriar os cerca de 300.000 turistas que se encontravam nas ilhas, mesmo os que acabavam de chegar para passarem férias, foi uma operação de risco inicialmente. Teve tudo para correr mal. Não se dispunha de nenhuns meios para se proceder ao controlo sanitário, nem material de protecção, nem testes ou capacidade em fazer análises á maioria da população e tão pouco máquinas para desinfectar pavimentos.

Só de Tenerife saíram quase 200.000 turistas e isto depois de termos um hotel cheio com 800 clientes de quarentena. No aeroporto Sul, Rainha Sofia, viveram-se momentos desastrosos durante uma semana, já em pleno confinamento. As pessoas amontoavam-se sem qualquer controlo sanitário e produtos de protecção.

Houve mesmo quem tivesse desistido de voar, optando pela sua segurança e ficar na ilha, alugando apartamentos à pressa. Conheço um casal britânico com dois filhos que fez essa opção depois de chegar ao aeroporto. Ainda cá se encontram, até porque o tráfego aéreo continua limitado aos voos cargo. E têm razão para estar certos da boa escolha que fizeram. Estão mais seguros, mesmo que ainda não haja máscaras e produtos desinfectantes para todos os cidadãos, nem sequer a possibilidade de testar a maioria de nós.

José Maria Pignatelli faz um compasso de espera e abre um parêntesis: Uma situação comum na maioria dos países europeus que pouco melhorou, pois anunciam-se centenas de milhares de milhões para suster os desequilíbrios sociais e económicos que se avizinham, mas para a prevenção à pandemia tudo acontece devagar, devagarinho e sob notícias contraditórias.

A maior sorte – adianta – é que a maioria da população global estará auto-imune ao vírus como acontece com quase todos os outros vírus que se conhecem. Muitos serão contagiados ou já o estão sem saber e provavelmente nunca o saberão. Chamamos-lhe assintomáticos que, segundo um estudo publicado na revista Science, serão responsáveis por dois terços das infecções Covid-19. O confinamento serve apenas para alargar no tempo os eventuais futuros contágios e evitar a superlotação das urgências dos hospitais e das unidades de cuidados intensivos dos serviços das chamadas medicinas internas. Numa linguagem simplista o grande problema do coronavírus é a velocidade de contágio. Depois, o medo da pandemia ocorre porque nos últimos 25 anos se investiu nas especialidades médicas de ponta e deixou-se para trás as medicinas internas, por força de serem mais utilizadas por pessoas com mais de 60 anos, os mais antigos, os tais sénior que incomodam porque custa mantê-los, porque nunca se cuidou em guardar bem e rentabilizar os seus descontos de uma vida.

 Os políticos têm dificuldade em fazer o trabalho de casa e bem feito (…) e ouvir os técnicos, que dominam o conhecimento, pese embora nem todos tenham as mesmas crenças do ponto de vista científico, para depois ajudar os cidadãos que lhes confiaram o voto e as suas vidas.

Notícias LXSabemos que o José Maria Pignatelli relaciona-se assiduamente com uma ou mais figuras da comunidade científica, membros da Academia de Ciências de Nova Iorque. Também mantém contactos com duas personalidades da história e filosofia. Há alguns denominadores comuns entre eles?

JMPHá opiniões convergentes, ainda que uns sejam mais matemáticos e outros mais românticos nas observações… Curiosamente todos abrem umas, poucas, páginas da “teoria da conspiração”; suspeitam de algumas evidências, dos tais factos que causam estranheza ao comum dos mortais. Por exemplo, como é que o coronavírus contaminou meio Mundo, saltando de Wahun, mas passando literalmente ao lado de outras cidades chinesas gigantescas como Xangai, apenas à distância de 629 quilómetros, e Pequim a 1.052 quilómetros, que são as capitais económica e politica daquele país do extremo Oriente (?). E como houve tempo para que saíssem de Wahun quase metade da população antes de estalar a pandemia, mais ou menos cinco milhões de habitantes (?).

Mas vamos aos denominadores comuns:

As incertezas sobre o vírus passados 4 meses do seu anúncio;

A desconfiança sobre o triângulo morcego, pangolim, homem versus a segurança do laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan (curiosamente construído com a ajuda decisiva e tecnologia Norte-americana e francesa, onde em 2015 foi inaugurado o primeiro laboratório de biossegurança de nível 4 na China continental);

A impreparação da maioria dos países desenvolvidos a Ocidente, particularmente dos Estados Unidos (que ironicamente possuem dezenas de milhões de vacinas, desfibrilhadores, ventiladores, toda uma panóplia de materiais de protecção e combate a pandemias virológicas, classificados como material de guerra para suster eventuais ataques militares com armas químicas);

O titubear da Organização Mundial de Saúde;

A falta de lealdade da diplomacia chinesa para com os demais países;

O desentendimento entre os países Membros da União Europeia sobre uma estratégia comum de combate à pandemia e de acautelar uma crise social e económica sem precedentes no pós II Guerra Mundial;

A desarticulação da comunidade científica mundial na corrida pela descoberta de uma vacina ou inibidores, numa clara disputa pelo triunfo;

Os resultados dos confinamentos aquém das expectativas.

Notícias LXE concorda com esta comunhão de ideias?

JMP – Creio que qualquer cidadão com bom senso, sensível ao estudo e à investigação e menos amarrado ao acervo de informação e notícias que nos entra, gratuitamente, a todas as horas, em casa através das tevês, concordará de um modo geral com estas posições, tanto mais que os factos não as desmentem. A razoabilidade impõe-nos prudência. Por exemplo, haverá países que sofrerão muito menos com esta crise quer do ponto de vista sanitário, quer social e economicamente. Centremo-nos nos países que têm moedas próprias e mais fortes. Estados Unidos com o dólar, Reino Unido com a libra, Suíça com o franco suíço (curiosamente a moeda paritária do euro) e até mesmo os países nórdicos com as suas coroas.

Do ponto de vista da saúde pública – adianta – vão emergir positivamente os que têm melhores serviços e aí até a Itália, cujo sistema abanou fortemente, já começa a fazer jus ao facto do seu serviço nacional de saúde se considerar entre os três melhores ao nível global. Mas também vão sobressair os que tomaram medidas mais acertadas e em tempo útil.

Notícias LX Ficamos com a ideia que não concorda com os países que optaram pelo confinamento?

JMPPor princípio não concordo nem discordo com resoluções que se mantém distantes das expectativas vaticinadas pelos próprios decisores, os políticos que têm enorme dificuldade em fazer o trabalho de casa e bem feito (…) ou seja reunir e ouvir com cautela os técnicos, aqueles que dominam o conhecimento, pese embora nem todos tenham as mesmas crenças do ponto de vista científico, para depois saberem separar o trigo do joio e serem prudentes e ajudar os cidadãos que lhes confiaram o voto e as suas vidas.

Analisando os factos, mesmo com as imensas dúvidas que subsistem na informação que nos é dada diariamente, há países que optaram por outras formas de constrangimento que não o confinamento e têm indubitavelmente melhores resultados até há dois dias atrás.

Por comparação com Portugalexemplifica o nosso interlocutora República Checa que terá mais 650 a 800 mil habitantes registava à 48 horas atrás, 6.914 contágios e 196 mortos contra 21.379 infectados e 762 falecidos em território português. Obviamente os checos decidiram-se por outros constrangimentos com a utilização obrigatória de aparatos de protecção como máscaras e luvas, realização de um apertado controlo sanitário, restrições rigorosas, como por exemplo a restauração não ultrapassar 1/4 ou 1/3 das lotações dos estabelecimentos, mesmo nas esplanadas, distanciamento nos transportes colectivos com o coerente aumento da circulação nas horas de ponta para evitar aglomerações, estimulo ao trabalho a partir de casa sempre que isso se torne possível, diálogo com o tecido social e económico. Mas isto acontece associado a uma medida determinante, o encerramento de fronteiras e a investimento financeiro.

Mas há outros sucessos de países que não tomaram medidas de confinação, apostando em medidas restritivas, sem colocar em causa a suspensão dos direitos e liberdades fundamentais, acreditando no maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da maioria das populações, sempre associadas ao controlo sanitário dos cidadãos, à disponibilidade de aparatos de protecção e ao fecho ou fiscalização intransigente das fronteiras, evitando repatriamentos extemporâneos. Desse lado, encontramos o Japão (cujo governo e o Imperador nem sequer colocaram a possibilidade em suspender a sua constituição) com 11.135 contagiados 263 mortos num universo de 126,5 milhões de habitantes, a Coreia do Sul que consegui já testar mais de 70% da sua população de 51 milhões e que ainda não ultrapassou a fasquia dos 250 mortos e cujo número de contaminações ascende a 10.683. Com preceitos semelhantes encontramos a Islândia, Noruega, Dinamarca, Austrália e Nova Zelândia, onde os cidadãos querem certamente fazer parte da solução colectiva.

Notícias LXO governo das Canárias sugeriu antecipar medidas de desaceleração do confinamento estabelecidas pelo já célebre Real Decreto 463. Antevê possibilidade de isso acontecer?

JMP – O confinamento é igual para todos os cidadãos residentes em Espanha. Não há excepções. É para cumprir à risca. As sanções são pesadas quer financeiramente, quer disciplinarmente. A primeira prevaricação custa 6 euros por dia a multiplicar por 6 meses. Depois, é sempre a crescer e com direto a prisão efectiva de 6 a 12 meses. Aqui e no continente já são uns milhares. As polícias têm meios humanos e materiais em quantidade e qualidade com elevado nível tecnológico. O investimento na segurança interna é muito substancial e claramente superior ao que se faz em Portugal. Somos sobrevoados frequentemente por helicópteros e drones de dia e de noite, que se encontram equipados com câmaras diurnas, nocturnas, térmicas… Os veículos da Guarda Civil e do Corpo Nacional de Polícia possuem ordenadores ligados à rede de informações nacionais e a dados internacionais. Em caso de suspeita de veículo estrangeiro furtado, de narcotráfico ou outros tráficos como de armas e contrabando de tabaco, ou qualquer prática criminal, a comunicação está à distância de um clique. Ali, à nossa frente, para o agente é fácil falar com autoridades estrangeiras a vários níveis.

Não será fácil que a suspensão parcial ou integral do confinamento ocorra mais cedo nas Canárias, mesmo que o coronavírus desapareça – elucida José Maria Pignatelli que antecipa – quase todos os dias somos surpreendidos com anúncios de medidas complementares ao Real Decreto que mencionou. Algumas chegam a ser dadas como definitivas. Esta semana, o governo já anunciou duas certezas: confinamento prorrogado até dia 9 de Maio; a partir do próximo domingo as crianças menores de 14 anos podem sair de casa acompanhados pelo pai, mãe ou tutor. Ainda assim, ontem e sobre este assunto, ouvimos três ministros e outras tantas versões: que as crianças podem passear só nas ruas; acompanhar um dos progenitores ao supermercado, à farmácia ou a uma dependência bancária e até a eventualidade poder brincar num parque infantil. Ficámos todos sem perceber quanto tempo pode durar estes passeios e como fazem as famílias com dois, três e mais filhos. O governo promete esclarecer durante o dia de hoje.

Aliás, o Rei Filipe VI deu um puxão de orelhas a Pedro Sanchez e ao seu governo a propósito de algumas destas medidas avulsas terem sido publicadas no “Boletín Oficial del Estado”, homologo ao Diário da República de Portugal, sem que tivessem o crivo do monarca como tem de acontecer.

 Amanhã, teremos um Mundo liderado por um imperador, um czar, um sultão, uma Europa fragmentada, a reinvenção do império britânico à moderna e um presidente unilateralista e nacionalista no continente americano

 Notícias LXArriscamos a que as medidas de confinamento por causa do coronavírus possam acabar por distorcer algumas democracias, mesmo que a médio prazo?

JMPPodem tornar-se inquietantes. O prolongamento dos confinamentos e as incertezas começam a transformar a humanidade. Em Espanha, e em outros países, assiste-se a um crescendo de denúncias, são vizinhos contra vizinhos, perseguições, ódios e abusos de autoridade. O ódio é crime. As denúncias e abusos de poder associam-se à prepotência que nos habituaram as autocracias e entre os regimes democráticos significa falta de honradez, de sentido de Estado e da prestação do serviço público. Estas práticas também são puníveis judicialmente na maioria dos países do Ocidente europeu.

Notícias LXE o que pode acontecer depois da pandemia?

JMPÉ raro o dia que não falo com uma Amigo de infância que trato como irmão. Chama-se Vasco Formigal Pinto, foi magistrado, é um brilhante advogado é intransigente com a deontologia e, acima de tudo, é um estudioso e analista da história contemporânea. Ontem, respondeu-me precisamente à sua pergunta. Fê-lo em escassos minutos, com simplismo e alguma ironia. Como achei tão congruente, tentarei descrever com a maior precisão possível o seu raciocínio. Parte do princípio que a crise afectará muito mais as gerações dos nossos filhos, daqueles que estão à porta ou já se encontram na década dos 30 anos e porventura dos nossos netos (que nem eu nem ele temos), deixando de parte o fenómeno globalização (…) O que será do Mundo nos próximos dez anos quando nos pratos da balança dos maiores poderes deparamo-nos:

A extremo Oriente o líder Xi Jinping perpetuado no poder, assumindo-se como um imperador e crente de que chegou a hora da China liderar o Mundo;

Na ‘Euroásia’ encontramos um novo Czar, Vladimir Putin, também ele praticamente eternizado como autoridade para os próximos anos do maior país do Mundo, a Federação Russa;

Também no Sudeste europeu, a Sul da ‘Euroásia’, temos um novo sultão, Recep Tayyip Erdoğan, líder da corrente ideológica conhecida por Neo-Otomanismo que no essencial promove maior alistamento político da actual República da Turquia dentro dos territórios anteriormente sob o domínio do Império Otomano, ou seja a pretensão de fazer renascer um novo Império Otomano, caído a 17 de Novembro de 1922 e cujo califado foi oficialmente abolido a 3 de março de 1924. Aliás, Erdogan invoca muitas vezes a história do Século XIX, quando o Estado Otomano se tornou muito mais poderoso e organizado, apesar de sofrer mais perdas territoriais, especialmente nos Bálcãs;

No continente Norte-americano encaramos Donald Trump um unilateralista forte opositor ao multilateralismo, personalidade com quem não é fácil manter relações externas globais e que deverá repetir o mandato de Presidente do Estados Unidos (…), por falta de uma oposição forte entre os candidatos Democratas;

A Europa está fragmentada, não investiu na defesa e já não serve de tampão a uma eventual hegemonia Russa. Os membros da União Europeia raramente acordam numa estratégia global sobre qualquer assunto relevante, tal como acontece agora com o combate ao coronavírus e com as medidas de auxílio às economias mais fragilizadas pela pandemia. Há a união dos solidários que mais dependem dos subsídios, o grupo dos mais ricos que não abdicam do status social e económico mais elevado e ainda um conjunto de países que parecem arrependidos em fazer parte da União;

Depois temos Boris Johnson que, porventura com alguma legitimidade neste cenário, pretende reinventar o Império britânico obviamente em moldes mais modernos.

Portanto, a Europa perdeu claramente a importância que teve durante séculos.

Notícias LXEm off, há minutos, desabafava que a contrainformação é uma ameaça à estabilidade. Que em tempo de crise devemos inteirarmo-nos das verdades, filtrando notícias… Refere-se?

JMPCinco exemplos simples daquilo que confunde as pessoas:

Primeiro, o caso das valas comuns para enterrar os mortos por coronavírus em Nova Iorque. Esclareço que só as vítimas nova-iorquinas do Covid-19, não reclamadas por familiares estão a ser enterradas em valas comuns na ilha Hart, no Bronx, que é um dos maiores cemitérios públicos dos Estados Unidos. Estas inumações acontecem desde 1869 para os corpos não reclamados, não identificados ou nova-iorquinos que não podem pagar uma cerimónia fúnebre privada. Segundo as estatísticas, estarão ali enterradas pelo menos 1 milhão de pessoas. Portanto, não é o presidente Trump que ordena ou sugere que se procedam a estas sepulturas, antes a decisão é tomada pelo Mayor (Presidente) da Câmara de Nova Iorque que já garantiu, por mais de uma vez, que não serão sepultados corpos reclamados por familiares.

Segundo, foi verdade que a chanceler Angela Merkel afirmou em dois momentos distintos, há um mês, que metade da população da Alemanha, portanto cerca de 41,5 milhões de pessoas, contrairiam o vírus. A chefe do governo da Alemanha exagerou, foi infeliz, inábil e assustou: Ontem, a Alemanha registava um total de 147.593 contagiados (0,002% da população) e 4. 869 falecidos.

Terceiro, alguns milhares de falecimentos com causa atribuída ao coronavírus não o foram exactamente. Há muitos casos em que o contágio apenas acelerou patologias que os pacientes já padeciam, nomeadamente muitos dos sénior que perderam a vida. E é por isso que os tribunais espanhóis já exigem autopsias com relatórios claros.

Quarto, é verdade que os vírus dão-se mal com temperaturas ambiente altas e muito frias, negativas.

Quinto, é verdade que devíamos seguir algumas das medidas de protecção agora sugeridas nos países que têm outonos e invernos mais húmidos e com variações térmicas apreciáveis, onde a gripe mata silenciosamente quase um milhão de pessoas todos os anos.

 


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