Quase um milhão de toneladas de CO2 de redução de emissões na produção de eletricidade nos últimos dois meses

ZERO identifica recorde – Não se queima carvão em Portugal para produção de eletricidade há 52 dias seguidos nas centrais de Sines e Pego; central de Sines parada há 100 dias

Naquilo que constitui um recorde, nos últimos 52 dias (desde 14 de março, inclusive) não se usou carvão em Portugal para produção de eletricidade. Nenhuma das duas centrais térmicas de Sines e Pego esteve a funcionar, sendo que a central de Sines já não produz energia elétrica desde há 100 dias (desde 26 de janeiro, inclusive). Tal conduziu a uma redução inédita e sem precedentes das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal. Recorrendo aos dados das Redes Energéticas Nacionais (REN) relativos aos meses de março e abril de 2020 e à comparação com o período homólogo de 2019, a ZERO calcula um decréscimo de emissões de quase um milhão de toneladas de toneladas de dióxido de carbono, mais precisamente 960 mil toneladas (370 mil toneladas para o total de março e 590 mil toneladas para o total de abril).

Nestes dois últimos meses verificou-se também um aumento de 14,5% de fontes renováveis na produção de eletricidade em comparação com o período homólogo de 2019, passando de 62,6% para 77,1%. Deve ainda considerar-se como relevante a quebra no consumo de eletricidade que atingiu 12% comparando o mês de abril de 2020 com o mês de abril de 2019.

Neste quadro, a ZERO estima que as emissões médias diárias de CO2 associadas à produção nacional de eletricidade tenham recuado de 28 mil toneladas por dia no total dos meses de março e abril de 2019 para 12 mil toneladas por dia no total dos mesmos meses este ano.

A ZERO aproveita para contextualizar que a pandemia de covid-19 não tem uma relação direta com estes resultados, exceto por exemplo na redução do consumo de eletricidade mais significativo em abril de 2020. Tal deve-se acima de tudo a uma consequência dos preços de mercado do carvão, dos custos associados às emissões (quer via o preço das licenças de emissão de carbono à escala europeia, quer da taxa de carbono e do imposto sobre os produtos petrolíferos à escala nacional), e da competitividade e disponibilidade de outras alternativas, em particular da eletricidade de fontes renováveis, mas também das centrais a gás natural que apresentam uma maior eficiência comparativamente às centrais a carvão.

Fim anunciado das centrais a carvão está na prática a ter lugar

O fim anunciado em outubro passado das centrais a carvão num futuro próximo (Pego em 2021 e Sines em 2023) está na prática a ter lugar. Estas duas centrais são responsáveis por uma quantidade muito significativa das emissões de carbono do nosso país. Apesar dos equipamentos de despoluição, as centrais a carvão de Sines e Pego são fontes emissoras significativas de diversos poluentes como os óxidos de azoto, dióxido de enxofre, partículas e metais pesados. A central de Sines já terminou em 2019 o seu tempo de vida previsto de 30 anos, contado a partir da entrada em funcionamento do último grupo electroprodutor em 1989, de um total de quatro (o seu primeiro grupo entrou em funcionamento em 1985). No caso da Central do Pego, o primeiro grupo entrou em serviço em 1993 e o segundo em 1995, mas as condições contratuais são atualmente desfavoráveis do ponto de vista de rentabilidade, ao ponto de justificar o seu encerramento já em 2021.

As atuais paragens das centrais do Pego e de Sines mostram que é possível a sua retirada do sistema sem pôr em causa a segurança do abastecimento de eletricidade no país. A ZERO considera porém que é fundamental realizar os dois investimentos propostos pela REN, nomeadamente na construção de linhas para a região Sul, os quais já se encontram previstos no Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de Transporte.
Os investimentos para a produção de eletricidade a partir de fontes de energia renovável conseguirão assegurar uma fração progressivamente significativa da geração de eletricidade, com custos mais reduzidos para o consumidor e sem emissões diretas de gases de efeito de estufa.
As centrais térmicas existentes de ciclo combinado a gás natural (Ribatejo, Pego, Lares e Tapada do Outeiro) têm permitido substituir o fornecimento de eletricidade das centrais a carvão com muito menores emissões de carbono.

A ZERO aproveita para lembrar a necessidade de um plano de promoção de atividades económicas ligadas à urgente transição energética que possa fortalecer a vitalidade económica e social das regiões onde se inserem as centrais. Tal deverá ser assegurado pelas empresas em causa, ao abrigo da sua responsabilidade social, e elaborado com a participação ativa dos trabalhadores e suas organizações, das autarquias locais, de organizações não-governamentais e das demais entidades competentes.

  • Francisco Ferreira / francisco.ferreira@zero.ong


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