Desconfinamos ou desconfiamos??

Com o futebol parado, CR7 foi ultrapassado em popularidade pelo R-zero, o mais famoso do momento. Nos livros de matemática e epidemiologia, vem definido como o número básico de reprodução, ou seja, o quão contagiosa é uma determinada doença infecciosa. Este valor indica o número inicial de pessoas que cada infectado pode contagiar, assumindo que estas não estão infectadas e não têm imunidade, através de uma vacina ou de um contacto anterior com o mesmo organismo.

Para o bem ou para o mal, será do R a culpa do que venha a acontecer agora que passamos de emergência a calamidade. Felizmente, a língua portuguesa, na sua complexidade, deixa antever, à parte os detalhes do Direito de cada um dos estados, que as semanas que virão não serão pêra doce.

Apesar de haver ainda, mesmo no meio científico, quem discorde do processo de confinamento a que fomos obrigados, dando o exemplo de países como a Suécia que o fizeram de forma menos intensa, a verdade é que no caso português parece ter sido uma boa opção. Culturalmente somos muito mais Itália e Espanha do que Suécia. Os portugueses, globalmente, compreenderam e concordaram com o que estava em causa, cumprindo. É mérito de todos não termos camiões frigoríficos a transportar cadáveres. O Serviço Nacional de Saúde, com todas as suas já habituais dificuldades, e à custa do brio, amor à camisola e resiliência dos seus profissionais, aguentou-se sim, mas no limite, o que não pode deixar de ser motivo de orgulho para todos.

Dito isto, o novo coronavírus continua aí. Se olharmos para as famosas curvas, percebemos que, mesmo com o diminuir de novos casos diários, nunca tivemos tantos casos activos – pessoas ainda com teste positivo – como neste momento. Felizmente, estes casos activos, estas pessoas, estão nas suas casas, fechadas. Deste modo, não estão a contagiar outras e é por este facto que o R desceu para valores a rondar 1, significando que cada pessoa infecta, em média, outra; normalmente um coabitante.

Importa detalhar que os países que se saíram melhor nesta primeira fase da pandemia, e a quem agora batemos palmas, são aqueles que se encontram em maior risco para as fases que hão-de vir. Sem uma vacina ou sem um tratamento verdadeiramente eficaz, que impeça que a doença avance para a gravidade do ventilador, ou que dure 4 a 6 semanas entupindo os serviços de saúde, a imunidade de grupo é a única solução, estando mais desenvolvida nos países onde a pandemia está a ser pior. E sim, a imunidade de grupo só se atinge duma forma: deixando adoecer a população; mas queremos que seja de forma controlada para poder evitar as mortes daqueles que, em condições de resposta ideal dos serviços de saúde, se curam com os cuidados médicos, algo que não aconteceu nos países onde a curva não foi achatada o suficiente.

Com a Economia, e os seus agentes, a gritar já a meio do poço, torna-se insustentável manter o confinamento. Além de evitar o colapso dos serviços de saúde, estes 50 dias permitiram reorganizar os serviços e as fábricas, aumentar a produção interna e a importação para reforçar os meios de protecção e desinfecção, de camas, de ventiladores. Por outro lado, a Ciência tem trabalhado a uma velocidade nunca antes vista. Sobre nenhum outro tema científico vimos outrora tal união de esforços, partilha de informação ou tal quantidade de dinheiro investido. A evolução da pandemia, por si só, é também grande fonte de conhecimento, sobre o vírus e as suas características ou sobre as medidas aplicadas pelos diferentes países e os seus efeitos.

A título de exemplo, parece que muitos dos infectados, apesar de alguns continuarem a testar positivo durante quase dois meses, só terão capacidade de infectar outras pessoas nos primeiros 8 a 10 dias de infecção. Outros estudos parecem indicar que quanto mais severa a doença, mais tempo o doente permanece infeccioso e mais tempo demora a negativar nos testes. Daí que a DGS aconselhe agora apenas um teste negativo para declarar a cura, com excepção para os doentes internados que continuam a fazer dois testes com intervalo de 24h. Também se acredita que o número real de infectados pode ser entre 5 a 10 vezes superior ao quantificado – dependendo se os países testam muito ou não – o que baixa as taxas de letalidade (n.º de mortos/n.º de casos) para valores bastante inferiores aos reportados. Existem ainda muitas questões por responder.

No entanto, acredito que estamos hoje melhor preparados, para procurar prevenir uma eventual maior onda de casos, do que em Março. Com o desconfinamento gradual vamos, provavelmente, assistir a um novo crescimento do número de casos diários, mas isso não será mau. O principal objectivo é manter este crescimento controlado e dentro da capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. Vamos assistir à retoma gradual da actividade programada dos hospitais e centros de saúde, dando prioridade aos outros doentes, em situação de maior risco ou mais vulneráveis, mantendo em paralelo, separados, os circuitos de resposta aos doentes de COVID19. Percebem-se as dúvidas e os receios entre os profissionais, esta não será uma balança fácil de manter equilibrada.

Por isso, retomando a questão inicial, desconfinemos sim, mas com desconfiança, olhando sempre por cima do ombro, como numa rua escura a meio da noite. Não podemos retomar já a normalidade. Temos de continuar a permanecer em nossas casas sempre que não seja essencial sair. Temos de continuar a evitar entrar e permanecer em espaços fechados. Temos de continuar a manter os 2 metros de distância para as outras pessoas e evitar tocar-lhes. Temos de pensar que este ano não iremos à praia todas as semanas. Não iremos de férias para fora do país. E tudo o que fizermos será mais difícil de fazer, com mais regras, com mais cuidados. Será, sem dúvida, uma nova normalidade.

Deixamos alguns conselhos:

#1 Lavar as mãos, tossir para o cotovelo, não falar para a cara dos outros;

#2 Usar máscara sempre que sair de casa, e obrigatoriamente ao interagir com alguém e em espaços fechados;

#3 Utilizar viseira confere muito baixa protecção sem a utilização simultânea de máscara; a viseira é um complemento da utilização da máscara;

#4 Procurar máscaras certificadas pelo organismo que as regulamenta, o CITEVE: Selo “Máscaras – COVID-19 Aprovado”;

#5 Utilizar luvas não protege quem usa nem quem está à volta. Lavar ou desinfectar as mãos, sim;

#6 Se recebeu mensagens de telemóvel com renovação automática de receitas, confira sempre se os medicamentos prescritos são mesmo os que está a tomar. Se tiver dúvidas, contacte o seu médico para esclarecer.

– Válter Ribeiro Ferreira
Médico Interno de Formação Específica
Medicina Geral e Familiar


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Valter Ribeiro Ferreira - vferreira.md@gmail.com
Valter Ribeiro Ferreira - vferreira.md@gmail.comValter Ribeiro Ferreira - Médico Interno de Medicina Geral e Familiar (MGF)