Histórias d’Africa – Espanha com (Des)confinamento atrapalhado

A ficção chegou ao governo do Reino: Para Teresa Ribera, Portugal deteve melhor o coronavírus por estar “um pouco mais a Oeste”.

Isto é um filme de ficção: uma espécie de alienígenas contra terrestres. Depois de 52 dias de confinamento das nossas vidas em geral, o governo anuncia alívio dos constrangimentos quase absolutos por fases. Acredita-se que a pandemia do coronavírus está controlada na maior parte do território. São 4 fases, por assim dizer quatro níveis de um manual de restrições nem sempre muito perceptíves e que só se preveem acabar quando houver vacina ou um inibidor com resultados eficazes a 95% e que seja possível massificar a sua prescrição. A semana começou com a FASE 0, mas há 4 ilhas que avançaram automaticamente para a FASE 1, precisamente onde o vírus chinês não fez estragos, La Gomera, Hierro e Graciosa, no arquipélago das Canarias, e Formenteira, nas Baleares.

Ninguém tem razão: Nem os alienígenas – maioritariamente científicos, epidemiologistas, jornalistas, entretainers e alguns políticos da oposição -, nem os terrestres – quase todos os políticos, também alguns clínicos, economistas, patrões e milhões de cidadãos. Se uns são os mensageiros da desgraça, do revés que nos vai bater à porta; outros são emissários da bonança e da boa esperança exacerbada. Mas entre uns e outros existem os que sustentam posições com razoabilidade, os que suportam teorias e experimentalismos de outros tempos, e os que sustém idealismos assentes em meias desculpas esfarrapadas e completamente desajustadas da realidade. Vejamos:

Teresa Ribera, vice-presidente do Governo espanhol disse que Portugal deteve melhor o coronavírus por estar “um pouco mais a Oeste”. Numa entrevista publicada no jornal El Pais, aquela governante explica que “Em Portugal – o vírus, leia-se – parou antes. Vinha de Leste e eles estão um pouco mais a Oeste e então puderam parar um pouco antes“.

Teresa Ribera não se livrou de duras críticas e sarcasmos nas redes sociais. Internautas houve que lembraram a também ministra para a Transição Ecológica e Desafio Demográfico que Espanha atingiu os 535 mortos por milhão de habitantes, enquanto outros países a Leste e não a Oeste, como a Grécia registam 14 falecidos por milhão de habitantes; a República Checa com 24 mortos por milhão de habitantes; o Azerbaijão (2,6 óbitos por milhão de residentes); ou mesmo a Itália que regista à data de ontem 482 mortos por milhão de habitantes, apesar de ocupar o 2º lugar da lista negra de falecidos de coronavírus com mais 3.875 óbitos que Espanha, mas também com mais 13 milhões de pessoas.

Para muitos cidadãos de Espanha é inaceitável que esta teoria sobre o suposto êxito de Portugal seja dada pela responsável governamental que está encarregada de coordenar o plano de transição para uma “nova normalidade” e que é professora na Universidade de Madrid.

Por outro lado, há epidemiologistas que defendem a continuação do confinamento até final dos meses de Maio ou Junho por três razões: Desconfiam do comportamento de uma grande parte dos cidadãos, sobretudo nas maiores cidades e comunidades; do efeito prático de algumas das obrigações impostas principalmente para o sector da actividade comercial em geral; e das incertezas sobre o comportamento do vírus na cadeia humana, por exemplo sobre as quem estará auto-imune ou será assintomático por falta de testes e de medidas de controlo sanitário que permita rastrear o maior número de cidadãos.

Turismo já perdeu 1 milhão de empregados e 3.000 milhões de euros

Já os agentes sócio-económicos, pequenos, médios e grandes empresários bem como a maioria dos trabalhadores, suplicam por desconfinamento até ao final de Maio, com regras é certo, argumentando com uma realidade assustadora e capaz de perpetuar uma crise sem precedentes por mais de um ano. O Covid-19 no sector do turismo já custou 1 milhão de desempregados e percas superiores a 3.000 milhões de euros.

Só a restauração vale 5% do PIB: São 270.000 estabelecimentos, qualquer coisa como 5.744 lojas por milhão de espanhóis. No arquipélago das Canárias existe 1 estabelecimento de restauração, seja restaurante, cafetaria ou bar, por cada 177 habitantes. Nas ilhas há 580 hotéis.

Mas viajemos até Málaga – longe de ser o maior destino para negócios ou turístico do continente peninsular – para perceber a queda abrupta da economia, bastando comparar os números das operações aeroportuárias do antes e pós confinamento: Dos 490 voos diários, a partir de 14 de Março registaram-se 18, 19 ou 20 voos no máximo. Em 2019, passaram pelo aeroporto de Málaga 20 milhões de passageiros.

Mais a Nordeste, em Benidorm, uma das mecas do turismo do reino de Espanha, o sector da diversão nocturna é responsável por 200.000 empregos directos a que acrescem os técnicos de manutenção e os distribuidores de bebidas.

É imensa a lista com números e estatísticas. Nos últimos dias, os responsáveis por associações hoteleiras e da restauração não se cansam de mostrar listagens com as percas diárias quase exorbitantes. Não estando contra as restrições impostas, porque consideram relevante a saúde pública e o bem-estar de todos, contestam um Verão cheio de limitações impossíveis de policiar – como o caso do loteamento do terreno nas praias e das idas a banhos, com a consequente limitação quase extrema da lotação – e pedem ao governo medidas concretas exequíveis que permitam que o País receba pelo menos 38 milhões de turistas, muito aquém dos 87 milhões, mas que será a fasquia mínima para que o sector posa emergir novamente num prazo mais curto.

Acompanham estas reivindicações agricultores, industriais agro-alimentares, das bebidas, promotores culturais e outros sectores socioprofissionais mais dependentes do turismo que somados representam outra importante contribuição para o PIB de Espanha.

Vive-se um novo paradigma: Mantermo-nos terrenos ou extraterrestres, independentemente da maioria de todos nós não questionar a complexidade do coronavírus e do seu efeito na saúde pública perante a incerteza do futuro da ciência achar uma vacina ou inibidor eficaz que ponha um ponto final aos contágios e às mortes. Certo é que mesmo que a descoberta da vacina seja da responsabilidade de um laboratório público, a sua produção em série terá de ser realizada por uma farmacêutica por ser a indústria a detentora da capacidade tecnológica e meios técnicos e humanos para o fazer.

– por José Maria Pignatelli


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