TOCADELOS – Um Contributo no Âmbito da Discussão Pública a decorrer em Loures

Tocadelos – sua Preservação, já!

Tocadelos

No final da I Grande Guerra Mundial (1914-1918), o mundo viu-se a braços com uma enorme pandemia, tristemente celebrizada como a “Gripe Espanhola”, que nem era gripe, nem tão pouco espanhola, mas originando um surto descontrolado de tuberculose e pneumonias, que ceifou a vida a mais de 40 milhões de pessoas em todo o mundo, e em Portugal dizimou uma importante percentagem de concidadãos, estimando-se em cerca de 60.000 portugueses desde Vila Viçosa, onde se registou o primeiro caso, até ao sul do País.

Para combater a pandemia, numa época em que poucos meios existiam, tanto ao nível da ciência como da saúde pública, a que se somava a debilidade económico-financeira do país, acabado de sair da grande conflagração mundial, que arrasou o Corpo Expedicionário Português, socorreu-se à proliferação de sanatórios, gafarias, e outras instalações médico-sanitárias, promovendo o isolamento, como forma eficaz de conter a dissiminação.

Os mais abastados do país foram comvocados a ajudar na luta contra o vírus desconhecido, então, e em Loures, um grupo eclético, com ligações às lojas maçónicas existentes em Fanhões e Bucelas (de entre os quais sairia o homem que em 4 de outubro de 1910 proclamou a República em Loures, adiantando-se à Capital que só o faria no dia seguinte), autodesignados como os MAKAVENCOS, e onde militava o influente Francisco Grandella, homem abastado, da Capital, cujo sucesso empresarial era notório, e notável.

Grandella, sensibilizado pela necessidade de acudir aos enfermos, resgatando alguma esperança para quem se via enredado na doença, assumiu a liderança do projecto de construir, em Tocadelos, um sanatório para acolher mulheres infetadas, comprando para o efeito o terreno, de 3.500 km2, para a construção da infraestrutura do sanatório-hospital, e ofereceu-o à sociedade dos Makencos.

A guerra, afetou também os mais ricos e Grandella não foi excepção, e para acabar a obra foi lançada uma campanha de angariação de fundos, baseada num folha ilustrada com o projecto de construção ao preço de 5 centavos, a par da edição de um livro de receitas dos Makavencos. Sem sucesso, o que levou à paralisação da obra.

O Edifício em forma de M, que tanto é a inicial da palavra Makavencos, como o é igualmente de Maçonaria, e dentro desta também a inicial da palavra Mestre, o grau correspondente à exaltação, de um percurso iniciático, ostenta, ainda hoje, as pedras, extraídas de uma pedreira próxima em Fanhões, adquiridas com o dinheiro que à época se conseguiu para a construção.

De resto a simbologia maçónica em Loures ainda hoje se mantém, e talvez não seja por acaso, que à beira do Palácio dos Marqueses da Praia, sede da Assembleia Municipal de Loures, se possa admirar um monumento, em pedra, composto por um Triângulo e uma Perpendicular, esta apoiada naquele, sendo o Triângulo, o Delta que contém o olho que tudo vê, e a Perpendicular um instrumento dos obreiros do segundo grau, das lojas maçónicas azuis, e a pedra simboliza a matéria imperfeita (o maçon) que todo o obreiro deve trabalhar até ao polimento (pedra lisa, perfeição).

O Monumento de Tocadelos invoca, como se vê, simbologias várias, e é uma ode à tentativa de ajudar quem mais precisava, num ambiente de pandemia, como então acontecia.

Impressiona, como essa simbologia é neste preciso e exacto momento, dramaticamente actual, quando grassa entre nós uma Pandemia, à semelhança de 1918, com a Gripe Espanhola, hoje é o COVID-19.

Um monumento, fisicamente perene, é uma memória indelével, que nós hoje temos o dever de respeitar, preservando. A memória não pode ter um valor económico, pois é como a honra, não tem preço.

Honremos o esforço que há 102 anos, cidadãos dedicados fizeram, ainda que sem sucesso, mas que se recusaram a passivamente serem espectadores do sofrimento alheio. Tentaram.

Certamente os objectivos dos actuais proprietários daquele espaço, serão compagináveis com, pelo menos, a preservação do edificado, e quiçá possa até vir a ser um ex-libris, para o que ali vier a ser feito.

É este o meu contributo, e mais do que isso um apelo às autoridades municipais de Loures, e aos proprietários do terreno onde está implantado o monumento de Tocadelos, para que o preservem, para que mantenham a memória.

Oliveira Dias

Enviado Ao Presidente da Câmara Municipal de Loures, Dr. Bernardino SoaresAssunto: Unidade de Execução 3, Discussão pública – Contributos

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