Histórias d’África – Canárias: Nem turistas à vista!

Canárias: Nem turistas à vista! – Desconfinamento de pouco serve

Toca o alarme nas Canárias: Contracção do PIB em 25%. Será pior que no resto de Espanha. É o que afirmam os responsáveis políticos pelo governo da Comunidade. A maioria dos residentes parecem ter medo de sair à rua, nestes primeiros dias de maior alívio das medidas de confinamento. Uma semana na fase 0 e outra na fase 1 que, agora, se prolonga, a passagem à fase 2 nas ilhas de La Gomera, Hierro e Graciosa, as múltiplas contradições nas decisões do governo do Reino na gestão da crise, o prolongamento do estado de “Alarme Nacional” e as duras contrapartidas impostas pelo pacto franco-alemão relativamente ao fundo de recuperação europeu para as economias afetadas pela pandemia de covid-19 são razões para que não se ganhe confiança.

Em toda a Espanha, milhões de cidadãos, organizações de empresários e de trabalhadores, a igreja e ONG’s, reclamam por transparência e seriedade nas opções anunciadas pelo presidente do governo, Pedro Sanchez. Há milhares que se manifestam nas ruas, faz hoje precisamente uma semana. Também pedem a intervenção junto das multinacionais da indústria automóvel – Grupo PSA e o grupo Renault/Nissan – que anunciaram intenção em transferir a produção de alguns modelos para França e para o Reino Unido, sem qualquer motivo aparente que não seja um eventual acordo entre os governos de Boris Johnson e de Emmanuel Macron para salvar as suas próprias economias e o desemprego imprevisível que a pandemia trouxe.

A desconfiança aumentou nas últimas 48 horas quando se anuncia a revogação integral da reforma laboral de 2012, em plena crise social e económica. Trata-se de um pacto assinado por Pedro Sanchez, do PSOE, Pablo Iglesias, do Unidos Podemos, e Mertxe Aizpurua do EH Bildu (Euskal Herria Bildu a coligação política basca ideologicamente no campo da extrema-esquerda, regionalista e separatista) que apanhou de surpresa alguns responsáveis socialistas. Nadia Calvino, Ministra dos Assuntos Económicos e terceira vice-presidente do governo, considerou que “seria absurdo e contraproducente abrir um debate desta natureza e gerar a mínima insegurança jurídica neste momento”. Surpreendentemente, o acordo de revogação integral da reforma laboral de 2012 assenta no compromisso de se “concretizar antes do termo das medidas extraordinárias adoptadas pelo Governo em matéria económica e laborais decorrentes da crise originada pelo Covid-19”. No essencial, trata-se de “adoptar as medidas necessárias para aprofundar as garantias de protecção social e económica para um conjunto de regiões e trabalhadores do Estado“.

Isolados do Mundo

  • Em Espanha, particularmente nos arquipélagos das Canárias e das Baleares, só haverá turistas estrangeiros como dantes (da pandemia do coronavírus, leia-se) provavelmente só no final do ano ou início de 2021, mesmo sabendo-se que as Canárias são territórios dos mais seguros no planeta do ponto de vista sanitário e que a saúde pública é de nível elevado.
  • Recuperação propriamente dita provavelmente só em 2022, porque o próximo ano vai ser díficil do ponto de vista social e económico.
  • O turismo representa 13% do PIB espanhol e um total de 2 milhões de empregos directos. Mas existem regiões e comunidades onde a indústria representa muito mais para as economias locais. As Canárias são uma das muitas excepções: 30% do seu PIB e 40% dos empregos, isto numa comunidade de 2,3 milhões de habitantes.
  • Apesar das medidas de desconfinamento – descalada é o termo mais utilizado em Espanha – o arquipélago das Canárias continua como que isolado do Mundo, muito por força das medidas contraditórias do governo do País: Voos e navegação marítima para fora das ilhas só mesmo a justificada como “profissional”. Mobilidade maior só entre ilhas e mesmo essa encontra-se relativamente condicionada.
  • Agora, com as ilhas há duas semanas na fase 1 e La Gomera, Hierro e Graciosa já com cinco dias na fase 2, os hotéis e instalações turísticas mantêm-se de portas fechadas, primeiro por que as ilhas isoladas não recebem turistas; segundo, porque o governo decretou que todos os que futuramente viajarem na condição de turistas terão de fazer quarentena, ou seja ficarem encerrados nos quartos dos hotéis, aparthotéis ou habitações alugadas durante 14 dias, o que é de todo incompreensível para quem vem de férias.
  • Nas Canárias também não existem condições para o turismo interno, entre residentes no arquipélago: Até final da fase 2, por conseguinte à passagem para a fase 3, não será possível utilizar partes comuns das infraestruturas hoteleiras, como por exemplo as piscinas que se encontram entre os últimos locais onde se poderá propagar o coronavírus pelos índices obrigatórios de adição de algicidas, reguladores de pH e cloros; Só se podem frequentar as praias para passeios ou exercício físico, estando expressamente proibidos os banhos de mar.
  • Pelo menos em Espanha, os decisores políticos ignoram que a água do mar de todo o mundo tem uma salinidade próxima de 35 (3,5% em massa, se considerarmos apenas os sais dissolvidos) significando que, para cada litro de água do mar há 35 gramas de sais dissolvidos, cuja maior parte é cloreto de sódio (a fórmula é NaCl).
  • Na Costa do Sol, no Sudeste do Continente espanhol, um e cada quatro hotéis não deverão abrir até final do ano.

Meia Espanha desconfiada

  • A incerteza sobre a gestão da crise motivada pela pandemia mantém-se entre milhões de cidadãos que vivem em Espanha, em virtude do Executivo de Pedro Sanchez (coligação entre socialistas e o Unidos Podemos, de extrema-esquerda) se continuar a negar em revelar os nomes dos técnicos e expert que constituem a comissão que assessoria o governo, no que respeita às decisões técnicas, nomeadamente na avaliação das mudanças de fase no plano nacional de desconfinamento.
  • Os cidadãos desconhecem as razões técnico-científicas para que o país cumpra em simultâneas fases de confinamento diferentes, diminuindo desde logo a capacidade das autoridades em controlar os movimentos entre regiões e municípios que fazem fronteira e atravessam fases distintas de alívio das restrições.
  • Poucos acreditam – porque não foi revelada a sua origem – no estudo de sero-prevalência apresentado pelo governo, onde se revela que apenas 5% dos cidadãos que vivem em Espanha serão autoimunes ao coronavírus
  • A desconfiança salta fronteiras? A Alemanha retira Espanha da lista de destinos turísticos aconselháveis para este Verão, sem justificar a decisão. Reino Unido e Alemanha são os dois maiores mercados emissores de turistas. Espanha alcançou a marca de 84 milhões de turistas estrangeiros em 2019. Só os turistas estrangeiros movimentaram a impressionante cifra de 92,3 bilhões de euros, mais 2,9% que em 2018. Foi determinado um novo recorde histórico.
  • O governo de Pedro Sánchez bate recorde de nomeações de altos cargos para o Governo: Isentou 26 directores-gerais da obrigação de serem funcionários públicos. Anteriormente, os presidentes dos governos, Jose Luis Zapateiro tinha realizado 11 nomeações destas, enquanto Mariano Rajoy foi responsável por outras 12 indigitações.
  • Espanha têm 19.675 entidades públicas que dependem financeiramente da Administração Central do Estado. E os eleitos políticos são cerca de 500.000.
  • Governo de Espanha ignora conselhos dos especialistas que afirmam que só com o investimento na massificação dos testes se podem prevenir novas ondas de contágio.

Coronavírus responsável por perdas de 136.000 milhões

  • Em pouco mais de 60 dias, os efeitos da pandemia geraram percas na economia espanhola de 136.000 milhões de euros. 4 Milhões de trabalhadores encontram-se na situação de eRTE, ou seja com os contratos de trabalho suspensos.
  • Igreja e bancos alimentares anunciam que a corrida aos apoios alimentares triplicou. Às portas das instituições formam-se filas enormes e os Órgãos de Comunicação Social fazem eco desse facto alarmante. A guarda Civil avisa para a maior previsibilidade da conflitualidade entre pessoas e comunidades, em virtude do aumento da vulnerabilidade e da pobreza.
  • O governo da Comunidade de Madrid, presidido por Isabel Diaz Ayuso do PP, distribui gratuitamente máscaras do tipo FFP2 (as mais eficazes que protegem tanto o utilizador como terceiros), mediante apresentação do cartão de saúde nas farmácias da área da sua jurisdição.
  • Desde quarta-feira é obrigatório o uso de máscaras, mas só é generalizado em transportes públicos e em espaços fechados como os edifícios sejam de escritórios, repartições públicas, museus, centros comerciais, ou outros espaços comerciais, instalações de saúde… Excepção para os espaços exteriores, desde que as pessoas consigam manter o distanciamento de 2 metros.

Espanha é responsável por 25,4% das exportações portuguesas. E ninguém antevê o que vai suceder nos próximos meses

  • Em 2018, segundo o Instituto Nacional de Estatística de Portugal, Espanha manteve-se como principal parceiro com um peso de 25,4% nas exportações portuguesas. Portugal compra a Espanha 31,4% do total das suas importações. Portanto, Espanha é o mercado que mais contribuiu para o aumento global em ambos os fluxos. O saldo das transações registou um agravamento de 387 milhões de euros a favor do país vizinho.
  • Na Europa e no Mundo não houve coordenação internacional na prevenção e combate do Covid-19. A própria Organização Mundial de Saúde não fez o que lhe competia como se equivocou demasiadas vezes sobre a essência do coronavírus, o que levou à decisão da Administração norte-americana em abandonar a organização e a mais uma centena de países a pedir através da Assembleia Geral da Saúde – órgão integrante da Organização Mundial de Saúde- uma investigação independente que esclareça como se espalhou o coronavírus no Mundo, exigindo transparência de procedimentos. Ainda que se considere um acto formal do foro diplomático, a iniciativa poderá tornar-se mais importante do que tudo o resto, por encerrar uma questão de ética no relacionamento entre os países e os responsáveis pelas ciências matemáticas e da vida como da genética, da biotecnologia…
  • Aumenta o cepticismo relativamente à história do primeiro contágio na Alemanha que se anuncia ter sido através de um pequeno saleiro ao mudar de mãos numa mesa de um restaurante.
  • Dennis Carol, virologista de renome internacional, reconhece que “vão surgir mais e piores pandemias como a que vivemos agora porque a transição de virus de animais para humanos está a ser cada vez mais facilitada”.
  • Alemanha e França decidiram bilateralmente a criação de um fundo de recuperação europeu para as economias afectadas pela pandemia de covid-19. Vai dispor de 500 mil milhões de euros e enquadra-se no projecto de Orçamento da União Europeia. Segundo Emmanuel Macron “criar uma Europa da saúde deve ser a nossa prioridade“. A Comissão Europeia é a responsável pelo financiamento e o dinheiro será emprestado em nome da União Europeia e revertido em “despesas orçamentais” aos países europeus e “aos sectores e regiões mais afetadas“. No essencial, isto significa que os países que recorrerem a este fundo estão a contrair um empréstimo e são obrigados – segundo Angela Merkel – “a fazer tudo dentro das regras orçamentais da União Europeia”. Contudo, a chanceler da Alemanha antevê a possibilidade de se requerer uma reforma dos tratados comunitários como medida extrema no quadro do combate às consequências da pandemia.
  • Governo francês disponibiliza 18.000 milhões de euros para ajudar a indústria do turismo.
  • É falsa a notícia que dava conta de 232 crianças mortas em Itália, em consequência do contágio por coronavírus. Na verdade, faleceram 3 crianças o que significa que existem 229 falsas mortes.

Países Membros da UE nem se entendem sobre a segurança global da Europa

  • No dia 9 de Maio celebrou-se o Dia da Europa, aquela que dizem ter sido idealizada para ser uma região planetária segura para centenas de milhões de cidadãos de vários países… E destes, hoje 27 Estados Membros, unidos pela ideia de que juntos podiam ser mais fortes e fazer a diferença a Ocidente.

Mas hoje – infelizmente – não é o mesmo dia que foi imaginado! Os Estados Europeus pecam pela indiferença que têm uns pelos outros. E os Membros da União insistem em, raramente, se entenderem sobre as questões mais básicas como a sua segurança global, a todos os níveis. Vivemos um momento singular, quase desesperado, que nos atira para uma crise social, cultural e económica sem precedentes desde a crise petrolífera dos ‘Anos 70’ do século passado. Como escreveu a jornalista da SIC, Conceição Lino, no passado dia 9 de Maio: “(…) E assim o entusiasmo inicial pela participação cívica foi dando lugar a uma alienação de cada vez mais gente, que acha os políticos todos iguais. Não são. Mas os que são verdadeiramente políticos, interessados no bem comum, na causa pública, têm-se deixado abafar pelos outros, que apodrecem o sistema, em nome das ‘famílias partidárias’”.

  • Em todo o mundo, toneladas de fruta, legumes e centenas de milhares de litros de leite estão a ser deixados ao lixo por dificuldades de escoamento dos produtos. O aumento do desperdício alimentar é uma das faces visíveis da crise gerada pela pandemia e é globalmente preocupante. O excedente de produtos alimentares – maioritariamente os frescos perecíveis -, que devido ao encerramento de fronteiras, limitação de deslocações, restrições ao modelo de funcionamento da indústria hoteleira, da restauração e dos próprios padrões de consumo viram as vendas cair a pique. Os agricultores são forçados a destruir produtos alimentares por causa da alteração que a pandemia gerou no ciclo de produção, ou seja entre o tempo certo para serem colhidos, comercializados e consumidos.
  • A Organização Mundial da Saúde Animal esclarece que o estudo realizado por um cientista chinês que foi publicado na revista ‘Nature’ (https://www.nature.com/articles/d41586-020-00984-8) que assegura a contaminação de animais de estimação por coronavírus, em particular os gatos, carece de aprofundamento. O mesmo organismo informa que “não há evidências de que animais infectados por humanos tenham algum papel na disseminação do Covid-19. Os contágios acontecem de pessoa a pessoa”. Este estudo traz-nos à memória o que se fez há 100 anos, ao tempo da gripe espanhola: Muitos cidadãos protegeram os focinhos de gatos e cães, pois estes foram então e serão agora (supostamente) – pelo menos para o infectologista Bu Zhigao – os únicos animais domésticos que podem ser contagiados e contaminadores do Covid-19.

por José Maria Pignatelli

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