Histórias d’África – Fatalismo do ‘vírus’ japonês

É certo: A Nissan fecha a sua fábrica de Barcelona. A decisão do construtor japonês deixará no desemprego 3.000 trabalhadores directos e outros 20.000 empregos podem estar em risco. São a quase totalidade dos que trabalham indirectamente para a marca, nos fornecedores daquela unidade de produção. A fábrica da Catalunha junta-se a outras quase 200 grandes empresas que se perderam, nos últimos dois meses, em Espanha.

A justeza dos interesses financeiros e políticos sobrepõem-se à crise social e económica dos países mais afectados pela pandemia

Esta resolução – acelerada pela pandemia do coronavírus –, segundo o construtor japonês, enquadra-se num plano de reestruturação e recuperação da marca. O diário japonês Nikkei – o meio de comunicação mais bem posicionado junto da indústria automóvel japonesa – adianta que a Nissan pretende concentrar a sua produção e centrar-se nos mercados dos Estados Unidos, japão e China e na produção de novos modelos apelidados de limpos no que respeita às emissões de CO2. Anunciam-se também alterações na parceria com a Renault que mantinha alguma hegemonia na marca nipónica.

Realmente a Nissan já estava a relativizar a importância da fábrica da Catalunha, desde 2011. Presentemente a sua capacidade estava reduzida a 20%. E a questão nem sequer se poderá colocar na perspectiva dos custos de operação: A Nissan estava dentro da zona franca de Barcelona, portanto abrangida por um regime fiscal mais vantajoso, mas também por ter recebido importantes incentivos do estado espanhol.

Aliás, o encerramento da unidade da Catalunha poderá acarretar a que a Nissan tenha de indemnizar o estado espanhol em mais de 1.000 milhões de euros.

Três dos quatro modelos produzidos em Barcelona – Nissan e-NV200, Nissan Navara, Mercedes-Benz Classe X e Renault Alaskan – passariam a ser responsabilidade da fábrica da África do Sul, nomeadamente a Nissan Navara e seriam reforçadas as produções dos modelos da Mercedes e da Renault que já ali se fabricam ainda que com algumas diferenças na suas características. O novo modelo de furgão já anunciado para substituir o e-NV200, veículo comercial eléctrico, deverá ser produzido em Sunderland, no Reino Unido, ou na unidade da Renault, na comuna francesa de Maubeuge. Recordar ainda que a fábrica 20% abaixo da sua capacidade.

Dúvidas sobre a capacidade do governo em fazer crescer a economia e criar emprego

Alguns responsáveis empresariais espanhóis suspeitam que não é apenas a estratégia no reposicionamento da marca no mercado automóvel europeu que está na base da decisão agora anunciada, mas também por algumas pressões politicas e económicas no seio da própria União Europeia, com a França à cabeça e em plano secundário o Reino Unido que está fora EU e pode ensaiar outras promessas que encorajem a marca japonesa a manter-se na Europa, enquanto fabricante ou indústria de assemblagem.

Mas também se reconhecesse o mal-estar no eixo franco-alemão e em outros países como a Finlândia, Holanda, Áustria, República Checa (…), relativamente à política orçamental e às grandes opções no plano de recuperação da economia e do emprego do governo presidido por Pedro Sanchez, particularmente em resultado da crise do coronavírus. Um número significativo de países membros está em clara oposição ao excessivo investimento na subsidiodependência sem que se antevejam políticas efectivas de crescimento económico e criação de emprego.

– por José Maria Pignatelli

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