Histórias d’África – O vírus está a matar um pedaço de todos nós…

Não basta emitir normas de ‘desconfinamento’ passando-as a força de Lei num Boletim Oficial do Estado do Reino. Antes, precisa-se de dar espalhar confiança entre os cidadãos e de garantir que as leis ou preceitos sejam exequíveis.

Qual desconfinamento no arquipélago das Canárias que já vai entrar na segunda semana da fase 2 e três das ilhas passam amanhã à fase 3. Os efeitos do alivio das medidas restritivas são poucos: 20% de ocupação nos transportes públicos; pouco mais de 50% de veículos nas estradas.

O arquipélago mantém-se fechado ao tráfego internacional de cidadãos;

Aberto apenas aos chamados viajantes profissionais e ao tráfego de mercadorias.

O silêncio nos aeroportos chega a ser ensurdecedor: Há já quem imagine ouvi-los!

E os milhares de carros de aluguer continuam estacionados em aparcamentos improvisados. O movimento marítimo dos ferries só mesmo entre as ilhas e reduzido. Não há turistas. Tão-só se movimentam residentes que se deslocam por razões de trabalho e ou ao volante de transportes comerciais rodoviários.

Ontem, foi feriado: Comemorou-se o Dia das Canárias.

Relativamente cor-de-rosa para os governantes.

Cinzento para todos os residentes, mesmo para as dezenas de milhares de estrangeiros que vivem nas ilhas que se veem mergulhados num clima angustiante.

Muito escuro para cerca de 60% dos cidadãos activos que se encontram sem trabalho. São todos aqueles que directamente (40%) e indirectamente dependem da indústria do turismo que representa 30% do PIB das Canárias.

As imagens que se publicam são de quinta e sexta-feira. O cenário mais surpreendente acontece em Las Américas, um dos centros mais cosmopolitas da ilha de Tenerife, (que como o nome sugere nos atira para os calçadões de Miami, na Florida, ou Malibu na Califórnia) onde se encontram as melhores lojas e de todas as marcas mais aspiracionais. A meio da manhã só 4 estavam abertas e outros tantos estabelecimentos de restauração.

É verdade que não há turismo, mas não deixa de impressionar a ausência de residentes, dos milhares de estrangeiros que todos os dias agitam a avenida Las Américas, particularmente as esplanadas que persistem em manter-se encerradas apesar das medidas de alívio do confinamento permitirem o contrário.

Triste cenário. Diria quase dantesco como se ali tivesse extinguido a maioria dos humanos… O vírus corona já vitimou mortalmente 368.711 (números oficiais até às 00h00 de 29 de Miao de 2020) mas está a matar um pedaço de todos nós…

Mantêm-se as incertezas, a descoordenação internacional no combate a este veneno, a desorganização entre governos e mesmo entre comunidades internacionais – caso da União Europeia – que deveriam actuar em conjunto com medidas comuns quer no âmbito da saúde pública, quer no âmbito social e económico.

E o pior de tudo: Em muitos países do Ocidente subsistem as lutas político-partidárias e persiste-se em não ouvir quem sabe, a comunidade científica que, por sua vez, também corre atrás de ganhos individualistas. Os vulneráveis vão ser em maior número à medida que o tempo das indecisões passa.

– José Maria Pignatelli

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