Histórias d’África – Sejam bem-vindos. (Mas…)

É possível ter um grande Verão num grande arquipélago

Sejam bem-vindos ao arquipélago das Canárias. Por ordem cronológica a partir de hoje deixaremos de estar isolados do Mundo apesar de entrarmos na terceira semana em que isso já deveria ter acontecido, por força de Lei. Passar uns bons dias de Verão em ilhas com grandes singularidades, seguras em todos os aspectos e com condições ímpares em infraestruturas turísticas, de transportes e de saúde. Mas aconselha-se prudência e respeito por quem passou 100 dias de confinamento rigoroso e isolados do Mundo para travar uma pandemia de um vírus que (aqui) entrou precisamente através de turistas. É certo que o número de casos foi exíguo, mas convém agir com prevenção.

Fuerteventura

Pede-se que todos façam testes PCR nas vésperas de virem até às Canárias. Não ficaremos completamente imunes, mas estaremos todos mais protegidos. Estaremos todos a colaborar para reinventar a saída da perturbação que o coronavírus trouxe a quase todo o Mundo, aqui muito dependentes da indústria do turismo. No arquipélago somos 2,2 milhões de cidadãos e o turismo representa 30% do PIB e 40% dos empregos do arquipélago E se lhe somarmos a produção agrícola, a indústria agroalimentar, o comércio e os serviços subsidiários, os números duplicam. E no continente peninsular a rigidez do confinamento traduz-se nas 200 mil sanções pecuniárias e nas 9.000 detenções por incumprimento.

(IN)SEGURANÇA NOS AEROPORTOS

É insuficiente tirar a temperatura, obrigar ao preenchimento de um questionário e avaliar os passageiros a ‘olho nu’. A União Europeia não acorda com medidas mais rigorosas nas partidas e chegadas aos aeroportos. Mas tal como sucedeu com o uso das máscaras – que passaram a ser imprescindíveis e obrigatórias de um dia para o outro para a maioria dos governos dos Estados Membros -, chegará o dia em que se investirá nos testes PCR para todos os passageiros.

A HISTÓRIA DE HECTÓR OCHOA E A BARAFUNDA EM FRANKFURT

No final da semana passada fomos surpreendidos pela história de uma viagem do espanhol Hectór Ochoa, contada na primeira pessoa num dos canais de televisão mais importantes de Espanha. O aluno de Erasmus na Turquia regressou a Barcelona via Istambul e Frankfurt.

Fez 3 voos. Primeiro, um voo regional na Turquia: à partida para Istambul exigiram-lhe o certificado do teste PCR, mediram-lhe a temperatura e anotaram as suas respostas a um questionário; viajou num avião com algum espaçamento e à entrada foram fornecidas máscaras para que os passageiros as tivessem novas. À chegada a Istambul, apesar de estar em trânsito para Frankfurt, aconteceu precisamente o mesmo procedimento e a viagem seguiu-se com todas as normas de segurança.

La Laguna

O Inexplicável aconteceu no aeroporto de Frankfurt, o segundo mais importante entre os Estados Membros da União Europeia: A Hectór Ochoa não fizeram qualquer pergunta ou sequer mediram a temperatura corporal, nem à chegada, nem à partida. Transitou livremente no aeroporto de Frankfurt e ficou com a sensação que nem lhe questionavam pela utilização da máscara se a tivesse tirado. A mesma singularidade à entrada no avião com destino a Barcelona: Jamais exigiram o uso de máscara e a lotação estava esgotada. Já em Barcelona, Ochoa saiu sem que tivesse sido sujeito a qualquer interpelação. O aluno espanhol de Erasmus não escondeu que chegou a ter receio entre o trânsito em Frankfurt e a chegada a Barcelona, mesmo munido de um teste PCR negativo, pela falta de condições de segurança nos únicos locais onde seria expectável não haver falhas de segurança e controlo sanitário.

OS BONS EXEMPLOS DO AEROPORTO DA MADEIRA E DAS COMPANHIAS BINTER E LUFTHANSA

No Aeroporto da Madeira Serão realizados testes PCR a todos os passageiros que desembarquem vindos do exterior do arquipélago. O Governo Regional mandou montar 25 gabinetes apropriados que deverão ter a capacidade de 100 testes a cada 25 minutos. Previamente foi realizado um ensaio a 40 passageiros que demorou 10 minutos. Calcula-se que cada teste possa precisar menos de 6 minutos a realizar com resultado efectivo.

A Binter Canárias – companhia aérea com base na Gran Canaria – anunciou que a partir do próximo domingo, dia 5 de Julho, vai voltar a operar a ligação entre os arquipélagos da Madeira e das Canárias que efetuava antes da crise do vírus corona, garantindo todas as condições de segurança a bordo, pela implementação de protocolos de prevenção de saúde durante todas as fases do processo de voo. O objectivo é contribuir para a recuperação turística nos dois territórios de que ambas as economias são muito dependentes. Contudo, as ligações com Lisboa – duas vezes por semana – só deverão voltar ao calendário da transportadora durante o próximo Outono. Antes, deverão retomar-se as ligações com Cabo Verde.

Já a Lufthansa anuncia que disponibilizará testes PCR para todos os seus passageiros e em todos os voos. A medida enquadra-se na prevenção preconizada por algumas autoridades em países da União e fora dela, na segurança dos tripulantes e dos passageiros. A companhia pretende retomar a confiança e tornar-se numa das melhores opções nos circuitos internacionais das operações aéreas de índole comercial.

SOLIDARIEDADE SIM, MAS IMPÕEM-SE LIMITES

No arquipélago das Canárias são os imigrantes clandestinos procedentes da África Ocidental a maior e quase exclusiva fonte dos contágios. É preocupante o impacto das redes de imigração ilegal que estão a operar a partir de Marrocos. Navegam mais de 350 e 400 quilómetros em mar aberto, em pleno Oceano Atlântico, numa zona muito atingida por ventos alísios, em barcos de maiores dimensões e resistência do que estamos habituados a ver, muitos deles semirrígidos. Todos em direcção às ilhas do Leste das Canárias: Lanzarote, Fuerteventura e Gran Canária são os portos de abrigo escolhidos. A maioria dos que chegam encontram-se infectados de corona vírus. Ainda assim não se registam mortes por Covid-19 desde o passado dia 3 de Junho. A semana começou com 4 novos contágios, mantendo-se 96 casos activos, dos quais 77 recebem assistência domiciliária, 16 encontram-se hospitalizados com 3 ingressados em Unidade de Cuidados Intensivos. Desde o início da pandemia, as Canárias apenas registaram 2.381 casos.

Mas no restante do continente africano – leia-se exceptuando-se Cabo Verde – a pandemia já provocou 9.879 mortes e mais de 393 mil infectados.

UNIÃO EUROPEIA ABRE FRONTEIRAS A 15 PAÍSES EXTERIORES

A lista inclui Argélia, Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Geórgia, Marrocos, Montenegro, Nova Zelândia, Ruanda, Sérvia, Tailândia, Tunísia e Uruguai. De fora ficam mais de 150 países, entre eles os Estados Unidos, México, Brasil, Rússia e a China apenas poderá ser abrangida caso o Governo de Pequim autorize a entrada de cidadãos europeus, uma vez que Bruxelas exige reciprocidade para a reabertura.

PREVISÃO DO BANCO DE ESPANHA: RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA SÓ NO 2º SEMESTRE DE 2022 E TURISMO NA PRÓXIMA PRIMAVERA

Países grandes acabam por sofrer maiores dificuldades quando se fala de crises globais.

O Banco de Espanha pede medidas urgentes ao governo para aumentar as receitas do Estado. A primeira opção é aumentar o IVA em bens considerados não essenciais como as bebidas alcoólicas, tabaco, etc., e a supressão do IVA à taxa reduzida na maioria dos bens e produtos que se encontram incluídos nessa lista.

A questão prende-se com as perspectivas da evolução da economia e da sua recuperação após a crise motivada pela pandemia do Coronavírus. A antevisão do Banco de Espanha acompanha em certa medida as estimativas do FMI que apontam para uma perca do PIB até final do ano nos dois dígitos, ou seja acima dos 10%, tanto mais que no primeiro trimestre do ano a perca situa-se acima dos 5,2%.

Pior só mesmo os números do desemprego que se situam acima dos 3,5 milhões. Nos próximos 6 meses a percentagem do desemprego atingira um valor acima dos 14%. Mas se a pandemia se agravar no início do Outono, os números poderão subir acima dos 20%. A bolsa de Madrid regista perdas globais da ordem dos 24%, o turismo ultrapassa os 83.000 milhões de euros e só na construção civil no que respeita à reabilitação de imóveis perderam-se 3.000 milhões.

AIRBUS DESPEDE 900 TRABALHADORES EM ESPANHA

As últimas horas ficam marcadas por mais uma notícia constrangedora: A Airbus prevê despedir pelo menos 900 trabalhadores da sua fábrica de Getafe, na Comunidade Autónoma de Madrid. Mais um revés no sector da indústria metalomecânica e tecnológica depois do anúncio do encerramento da fábrica do construtor automóvel japonês Nissan.

Contudo, em contraciclo, o governo presidido por Pedro Sanchez prevê que a desaceleração do crescimento econômico – embora mais acentuada do que esperava em Janeiro deste ano -, mantém a expectativa de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2,2% até ao final do ano. Assim, para 2020 e 2021 as estimativas reduzem-se em três décimas, para 1,9% e 1,8%, respectivamente. O governo espanhol antevê que o crescimento económico se mantenha em 1,8%, tal como consta na atualização do Programa de Estabilidade para o quadriênio 2019-2022 enviada à União Europeia (UE), na terça-feira.

Entre 1986 e 2019, Espanha perdeu 14,4% das indústrias pesadas, metalomecânicas e tecnológicas muito por força da sua integração na União Europeia e a troco de incentivos financeiros, ou seja trocaram-se bens infungíveis por fungíveis. Perdeu-se a qualidade e quantidade de um sector vital para qualquer economia moderna, optando-se pela subsidiação, deslocalização da produção dos valores acrescentados, e pela conversão da economia ao apetecível mundo dos serviços. Em Espanha, salvou-se a indústria do turismo, mas mesmo esta muito mais enquadrada naquilo que vulgarmente integramos nas economias sociais. Em 2019, no Reino de Espanha, os serviços representavam 75,2% da actividade socioeconómica, enquanto a indústria de ponta, apenas 14%.

ESPANHÓIS DESPERDIÇAM 8 MILHÕES DE TONELADAS DE ALIMENTOS

Espanha é o terceiro país que mais desperdiça alimentos. Nos últimos anos os números atingiram as 8 milhões de toneladas de produtos alimentares de todos os géneros. Só os supermercados deitam fora 55.000 toneladas de produtos frescos e perecíveis anualmente. Tudo dentro da validade e a maioria sem aparência de qualquer degradação. Isto acontece supostamente porque a legislação não permite fazer doações destes alimentos.

Segundo as estatísticas o desperdício atinge uma média de 250 euros por cidadão residente, ou seja a impressionante soma de 11 875 000 000 de euros.

Espanha é um dos maiores criadores agrícolas mundiais, sendo mesmo líder global na produção de azeite. Com a crise do Covid-19, os produtores recebem menos pelos seus produtos – por força do excedente criado pelo fecho do País ao Mundo, com consequências mas isso não extremas na hotelaria e na restauração – mas isso não significa que os preços baixem ao consumidor, particularmente nas grandes cadeias de distribuição. Ouvem-se economistas e cientistas apelarem à reinvenção do comércio dos bens alimentares de modo a que seja possível os consumidores finais chegarem facilmente aos produtores, diminuindo o peso decisivo da distribuição na política de preços.

-José Maria Pignatelli

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