Histórias d’África – Ferido de morte um chefe de Estado exemplar com uma vida privada cinzenta

Governantes sociais-comunistas (do Unidas Podemos) contestam monarquia e arquitectam, nos seus imaginários, uma república bolivariana. Fazem declarações claramente anti Constituição que juraram fidelidade ao tomar posse em 13 de Janeiro deste ano. Já o presidente do Governo, Pedro Sánchez, do PSOE, garante o cumprimento do “Pacto Constitucional” e a união da governação apesar das divergências.

Juan Carlos, rei Emérito de Espanha não está exilado. De todo! Entenda-se a palavra e o seu significado: Não foi desterrado nem expatriado.

O Rei Emérito não fugiu do País para evitar ser questionado pela Justiça sobre eventuais negócios privados inapropriados, ilícitos ou por corrupção – como faz querer a extrema-esquerda social-comunista que integra o governo de Espanha -, tão-só porque não está constituído arguido nem é testemunha em nenhum processo judicial.

Optou por sair de Espanha, do Palácio da Zarzuela, pelo seu próprio pé – obviamente em acordo com o actual chefe de Estado, seu filho – para não prejudicar a Coroa, o regime e principalmente o desempenho do Rei Filipe VI, irrepreensível em tempo de pandemia do coronavírus. Deixa garantia de voltar sempre que a Justiça o notifique. Expressa-o na carta que dirigiu ao chefe do Reino e que foi tornada pública pela casa Real.

Mudou-se – temporariamente, por certo – cansado das notas diárias em alguns meios de comunicação que fazem eco das afirmações dos partidos extremistas e independentistas que têm assento nas Cortes ou seja no parlamento. Perturbado pela revelação de gravações telefónicas entre José Manuel Villarejo, ex-comissário da polícia, no Centro Nacional de Inteligência, que se tornou empresário, e se encontra preso no âmbito das investigações de corrupção da “Operação Tandém”, e Corinna Larsen (que ainda utiliza o apelido (de princesa, leia-se) do seu ex-segundo marido, zu Sayn-Wittgenstein-Sayn, de quem se separou em 2005) que comprometem o rei Emérito com transferências de supostas doações da ordem dos 65 milhões de euros.


Alta velocidade que liga Medina a Meca, o projecto do consórcio hispano-saudita Al-Shoula que terá na base da suposta doação de 65 milhões de euros realizada pelos árabes ao Rei Emérito Juan Carlos

E fê-lo porventura em boa hora, para que o País – os espanhóis – não se distraiam e saibam distinguir o essencial do acessório, num momento extraordinariamente delicado do ponto de vista social e económico. Espanha, a par da Alemanha são as duas Nações europeias mais devastadas pela pandemia do vírus chinês que inquestionavelmente terão de contar os tostões dos seus orçamentos a curto ou médio-prazo, em modo rigoroso.

Para Espanha, os 140.000 milhões de euros de ajuda da União Europeia nem sequer chegam para tapar os prejuízos do sector empresarial que, de acordo com as previsões anunciadas pelo Banco de Espanha, atingiram os 230.000 milhões de euros no final do exercício de 2020. O ex-monarca, como a maioria dos espanhóis e dos cidadãos que vivem integrados no País, mais sensatos, têm a consciência que não é o momento de debater a mudança de regime, passando a Monarquia Constitucional e Parlamentar, oficializada a 6 de Dezembro de 1978 – que, imagine-se, nasceu por vontade própria e expressa do Rei Juan Carlos – para uma república, aliás paradigma já anteriormente experimentado e de má memória.

Chefe de Estado exemplar

É devido recordar que o ex-monarca foi posto no poder como Rei Absolutista pelo então chefe de Estado e ditador Francisco Franco Bahamonde, num dos momentos mais titubeantes da história política do século passado. E que na primeira oportunidade o agora Rei Emérito renunciou a esse estatuto, fazendo valer a sua crença numa Monarquia Constitucionalista e num regime parlamentar, tal como acontecia nas demais coroas europeias e países da então designada Europa Ocidental com excepção da França.

A Constituição foi ratificada em referendo a 6 de Agosto de 1978, sancionada pelo Rei a 27 desse mesmo mês de Agosto. Foi publicada no Boletim Oficial do Estado quatro meses depois, a 29 de Dezembro, e admitida pelas Cortes a 6 de Dezembro.

A promulgação da Constituição implica a culminação oficial da chamada Transição Espanhola, de que o ex-monarca Juan Carlos é o único responsável, que a iniciou logo após a morte (a 20 de Novembro de 1975) do ditador Francisco Franco. Então, Juan Carlos acelerou uma série de acontecimentos políticos e históricos que transfiguraram o anterior regime franquista num Estado de Direito, Social e Democrático, sob a forma política da Monarquia Parlamentar. Apoiou-se na União de Centro Democrático (UCD), uma coligação de 15 partidos (conservadores, liberais, democratas cristãos e sociais-democratas), liderada por Adolfo Suárez que governou Espanha de 1977 a 1982, e em Felipe González Márquez, secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) de 1974 a 1997 e o terceiro presidente do Governo desde a restauração da democracia entre 1982 e 1996.

Do ponto de vista estritamente político a história jamais poderá apagar a actuação firme do Rei Juan Carlos contra a tentativa de golpe de Estado de 23 de Fevereiro de 1981 (acontecimento perpetuado como 23-F), comandada pelo tenente-coronel Antonio Tejero, precisamente o responsável da ‘Operação Galáxia’, uma outra conspiração desarticulada em Novembro de 1978 e que levou Tejero a ser condenado a sete meses de prisão.

O ensaio que se iniciou no assalto ao Congresso dos Deputados (durante a votação do candidato para Presidente do Governo Leopoldo Calvo-Sotelo, da UCD) foi concertado com outros militares de topo e próximos do Rei, como o capitão-general da III Região Militar, Jaime Milans del Bosch.

À primeira hora do dia 24 de Fevereiro – 6 horas depois de iniciada a tentativa de golpe de Estado – o Rei interveio na televisão: Com uniforme de capitão-general, na qualidade de Chefe de Estado e de comandante-em-chefe das Forças Armadas, situou um discurso na defesa da Constituição espanhola, chamou à ordem as Forças Armadas e desautorizou Milans del Bosch que viria a ser detido quatro horas mais tarde. Já Tejero resistiu até ao meio-dia.

Decisivo

Mas o mais determinante na grandeza de Espanha foi o seu empenho:

  • Em divulgar a cultura e o património natural ímpar de Espanha no Mundo;
  • Fazer da Espanha um país de campeões desportivos e entrar na pequeníssima lista dos mais ecléticos de sempre;
  • Tornar o castelhano na segunda língua mais falada no planeta;
  • Conferir dinâmica inigualável nas relações com o Mundo (…), fazendo 247 viagens oficiais a 102 países;
  • Em contribuir decisivamente para o ibero-americanismo;
  • Em aproveitar e desenvolver o melhor que herdou do regime franquista, como a Marca Espanha, as indústrias dos sectores do turismo (tirar rendimento dos 12.000 quilómetros de costa de todo o território continental e insular), da automação, do têxtil, consideradas as de maior futuro ao virar do século XX para XXI (…). Também contribuir para a consolidação da museologia nacional como o brilhante Museu do Prado cuja recuperação de grandes obras se fica a dever ao ditador;
  • Fomentar as obras públicas estruturantes, principalmente as infraestruturas portuárias e aeroportuárias (Espanha tem 45 aeroportos internacionais entre eles 18 cotados como de maior tráfego na Europa) a ferrovia (15.064 Km em 2008, ou seja 33,55 Km por cada Km2 de território) e tornar a rede viária entre as mais cuidadas da Europa (em 2017, estavam concluídos 15.523 quilómetros de auto-estradas, recorde entre todos os países europeus… Mas se lhe juntarmos rodovias do mesmo tipo (IP) temos um total de 17.109 Km);
  • Internacionalizar as pequenas e médias empresas e lembrar o regime das dificuldades da interioridade, da importância da agricultura e das indústrias subjacentes (…) Longe de uma situação cor-de-rosa, a Espanha é porventura o líder europeu do sector.

Don Juan Carlos foi dos chefes de Estado que mais escrutinou os seus governos.

O delito de que é suspeito

Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón-Dos Sicilias deixa Espanha em consequência das suspeitas em torno de negócios privados e fuga aos impostos. Em Março deste ano, em pleno confinamento geral por causa da pandemia do coronavírus, a procuradoria anticorrupção de Espanha pediu formalmente ao Ministério Público suíço para investigar uma doação de 65 milhões de euros a uma conta bancária na Suíça em nome de Corinna Larsen, envolvida no escândalo dos “Paradise Papers” que terá sido amante de Juan Carlos entre 2004 e 2014. Dinheiro que terá tido origem numa fundação sediada no Panamá. Trata-se de um pedido reciproco já que pouco antes tinham sido as autoridades suíças a fazer pedido semelhante a Madrid.

Por enquanto, o Rei Emérito não está constituído arguido nem é testemunha em nenhum processo de corrupção. Na carta que assinou enviada ao seu filho, Rei Filipe VI, manifesta clara intenção de se disponibilizar perante as autoridades judiciais espanholas.

As averiguações acontecem em torno de doações realizadas pela Arábia Saudita – que poderão ter sido realizadas também em nome de outros países árabes – no valor de 65 milhões de euros como prémio dos serviços prestados àqueles países em particular por ter conseguido juntar esforços de países árabes como os Emiratos, Qatar, Koweit, Omã e a própria Arábia Saudita que permitiram a construção da linha ferroviária de alta velocidade entre Meca e Medina que acabou por estar a cargo de um consórcio hispano-saudita Al-Shoula para uma linha de 450 Km com três estações intermédias. A missão da corporação era a da construção da superestrutura (via, eletrificação, sinalização, controle e centros de comunicações), a entrega de 35 trens de alta velocidade e a operação e manutenção da infraestrutura por 12 anos.

E onde está? É a pergunta que a extremas-esquerdas mais repetem. As duas hipóteses mais noticiadas são a República Dominicana ou o Estoril, em Portugal, precisamente onde já esteve, então sim, exilado com seu pai, o rei Afonso XIII, que foi deposto em 1931, pela segunda república espanhola.

Pedro Sánchez de férias em mansão que Juan Carlos legou ao património de Espanha

O líder do governo espanhol já está de férias na ilha de Lanzarote, nas Canárias. Vai passar 3 semanas numa mansão – La Mareta, no município de Iguise – que curiosamente o rei Juan Carlos legou ao património do Estado e que lhe tinha sido oferecida pelo Rei Hussein I da Jordânia, em 1989. O espaço já tinha sido utilizado para o mesmo efeito por outro presidente de governo socialista, José Luis Zapatero. A família Sánchez-Gómez disfrutará de uma quinta desenhada e decorada pelo célebre artista César Manrique. A propriedade conta com acesso directo ao mar e só de área ajardinada em torno de duas piscinas é de 10.000 m2.

A quinta de La Mareta, que Juan Carlos legou ao património do estado depois de lhe ser oferecida pelo Rei Hussein I da Jordânia em 1989, onde Pedro Sánchez iniciou 21 dias de férias e isto num momento em que a pandemia do coronavírus volta a despertar na Espanha peninsular com uma média superior a 1.500 contágios diários

Como é a extrema-esquerda no poder

Pablo Iglesias. líder do partido Unidas Podemos, é um dos quatro vice-presidentes do governo espanhol, acumulando a pasta dos Direitos Sociais e Agenda 2030.

No acordo de coligação o Unidas Podemos garantiu também outras três pastas importantes: Yolanda Díaz é a ministra do Trabalho e Economia Social, Irene Montero que lidera o ministério da Igualdade, enquanto Alberto Garzon dirige o Ministério do Consumo.

Contudo, temos como maiores obcecações:

  • A contestação à monarquia e a consequente arquitectura de uma república bolivariana. Fazem declarações claramente anti Constituição que juraram fidelidade ao tomar posse em 13 de Janeiro deste ano;
  • Decididos em suspender a reforma laboral vigente;
  • Publicitar o antieuropeísmo e encetar uma espécie de campanha interna a favor da perpetuação das ‘governações progressistas’;
  • Fazer esquecer recebimentos de vantagens e dinheiros para as campanhas dos regimes da Venezuela e do Irão este último através da produtora La Tuerka;
  • Também apagar o escândalo sobre o facto de Pablo Iglesias se ter apoderado indevidamente de um cartão de telemóvel em 2015, da sua ex-assessora no Parlamento Europeu, Dina Bousselham, um facto que poderá levar o segundo vice-presidente do governo ao Tribunal Supremo. O cartão continha guardadas várias conversas de WhatsApp incómodas para Pablo Iglesias e fotos íntimas de Dina. Em julho de 2016, o site ‘OkDiario’ publicou algumas dessas conversas, incluindo uma em que Iglesias ameaça “açoitar até fazer sangue ” a jornalista Mariló Montero. O líder do Unidas Podemos recebeu o cartão original em janeiro de 2016, um mês após o furto, das mãos do director da revista ‘Interviú’. Pablo Iglesias terá devolvido o cartão a Dina Bousselham danificado e inutilizado. Mas este processo é mais um em que se encontra envolvido o comissário Villarejo, preso, que aparece como tendo participação em quase todos os grandes escândalos das últimas décadas.

Mas há ainda um outro episódio, este interno do partido de Iglesias: O tesoureiro, chefe de finanças e transparência do Unidas Podemos, Daniel de Frutos, foi a pessoa que idealizou o plano para ocultar uma comissão de 72.600 euros pagos à tia de Pablo Iglesias, Paloma Pérez-Marín Turrión, por intermediar a compra da nova sede do partido, um edifício de 2.180 metros quadrados na rua Francisco Villaespesa de Madrid.

Daniel de Frutos concebeu uma estratégia para evitar qualquer vínculo directo entre a tia de Pablo Iglesias e o partido que significaria que a agente imobiliária, Paloma Turrión não podia aparecer na contabilidade da formação política. Também não se devia deixar qualquer vestígio que revelasse o parentesco familiar entre o líder do partido e a sua tia, ou seja o nome Turrión não devia aparecer em lado nenhum.

por José Maria Pignatelli

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