Histórias d’África – Um tiro no porta-aviões (II)

Era só o que nos faltava: Estarmos à beira de sofrer mais um tiro no porta-aviões. O coronavírus volta a fazer prisioneiros a Ocidente. As maiores baixas acontecem em Espanha, França e Alemanha. E os poderes instituídos voltam a “sibilar para o lado”. Ontem, em Espanha bateu-se o recorde de sempre: 9.658 novos contágios contra o máximo anterior, em plena crise de Inverno, que foi de 9.225 infectados em 24 horas.

Mais crítico: O arquipélago das Canárias deixou de figurar entre os territórios mais seguros do planeta. Na semana passada, em sete dias, registaram-se 59,53 contágios por cada 100.000 habitantes, o que supera a taxa (de 50 infectados por cem mil habitantes) utilizada pelo governo da Alemanha classificar um território como zona de risco e que foi estabelecida pelo Instituto Robert Koch.

E como se isto não bastasse, também os Países Baixos desaconselham qualquer visita a todo o território espanhol e a quem o fizer ficará de quarentena à chegada, tal como impõe o governo britânico a todos os cidadãos que regressem de Espanha. A companhia aérea alemã Tui – cuja frota pertence á Jetairfly – respondeu ao repto: Cancelou os voos com destino às Canárias, garantindo apenas operações de repatriamento a quem pretenda regressar a casa.

O mercado alemão era a esperança da indústria do turismo – responsável por mais de 30% do PIB do arquipélago e 40% dos empregos -, na expectativa de obter entre os 20 e os 30% das receitas do Verão do ano passado. E isto pela perca do mercado do Reino Unido, o mais relevante entre todos.

Nem a extraordinária campanha “Um Grande Verão num Grande País” contrariou a pandemia.

Dá-se a bênção disparatada a milhares de migrantes que desembarcam nas praias do arquipélago vindos da costa Ocidental de África. Vem quase todos infectados de coronavírus. São maioritariamente homens e crianças do sexo masculino que deitam ao mar tudo o que os possa identificar. Nos aeroportos o controlo sanitário é generalista e não se fiscaliza o turismo existencialista. Pergunta-se pela razão que nos fez estar isolados do Mundo durante 140 dias?

Mas afinal o que aconteceu em menos de quinze dias para mudar tudo o que se conseguiu em quase 140 dias de isolamento do Mundo?

Vários erros. Desde logo quatro presunções do governo da Comunidade Autónoma:

  • De que chegava rastrear a temperatura corporal e uma espécie de inspecção visual aleatória dos turistas nacionais e estrangeiros que chegassem aos aeroportos das ilhas, contra os insistentes alertas dos hoteleiros que era necessário medidas práticas de segurança como trazer resultados ou fazer testes PCR à entrada.
  • Do encolher de ombros ao turismo existencialista que viaja de ferrie desde o Sul do continente peninsular que jamais cumprem nenhuma das regras sanitárias impostas (exemplo vivo do que uma dezena de clientes dos correios de El Médano assistimos: Um casal preencheu postais ilustrados sentados no solo da rua, com as máscaras colocadas sobre os cabelos e no meio de exercícios de ioga… Episódio de várias cenas da vida real de quem se perfila como indigente que raramente o são).
  • Da bênção disparatada que se dá incondicionalmente aos milhares de migrantes que desembarcam nas praias do arquipélago vindos da costa Ocidental de África após 2, 3 e 4 dias a navegar no Oceano Atlântico que nem os ventos alísios impedem. Vem quase todos infectados de coronavírus e muitos juntam outras patologias. São maioritariamente homens e crianças do sexo masculino (os países árabes são países de homens) que a algumas centenas de metros da costa deitam ao mar todos os documentos que os identifiquem, incluindo telemóveis.

Este ano, e até á passada segunda-feira, desembarcaram nas Canárias 3.450 migrantes, a maioria nas ilhas mais a Leste – Gran Canária, Forteventura e Lanzarote -, mas também em Tenerife. Nos primeiros 24 dias de Agosto chegaram ao arquipélago 506 migrantes, precisamente número muito semelhante ao que se tinha registado nos primeiros 8 meses de 2019. Só na semana passada receberam-se 6 pateras com 200 pessoas. E segundo o Governo das Canárias os números deverão subir em Setembro, período em que o mar apresentará melhores condições para se fazerem as travessias. Pior é que estes migrantes tentam fugir ao acolhimento e ás quarentenas ou a qualquer intervenção sanitária. Têm o exclusivo objectivo de chegar ao continente europeu com destino a França sobretudo, já que a maioria são oriundos de ex-colónias francesas do Norte de África.

  • Do desconfinamento prematuro da responsabilidade do governo central. É perceptível que o alívio das medidas restritivas só devia ter acontecido em Junho e sempre com cautelas nas deslocações intercomunitárias, principalmente entre as regiões que tinham registado casos de infectados, internados e falecidos díspares. Poucos deram relevância a esse facto e muito menos a maioria dos decisores políticos atendeu aos recados de quem sabe de virologia. Aliás, durante 3 meses fizeram-nos acreditar numa comissão de expertos especialistas que aconselhava o governo de Pedro Sánchez que nunca existiu.

Nas Canárias nunca houve tantos contagiados como nos últimos dez dias. Os números são muito maiores na Gran Canária. Nas últimas 24 horas, registaram-se 295 novos contágios: 203 na Gran Canária (com 122 internamentos e outros 4 em UCI); 49 em Tenerife, para um total de 544 casos activos e em quarentena; 9 em Fuerteventura (55 casos activos); 3 em La Palma, com um total de 18 activos; 1 novo infectado em Hierro subindo para 9 contaminados e 5 casos activos em La Gomera. No arquipélago já receberam tratamento em casa 2.651 enfermos de coroanvírus, o que ainda assim representa pouco mais de 1% da população total.

Em Junho, encontravam-se no desemprego 3.882.833 de cidadãos, enquanto a trabalhar efectivamente 13,9 milhões. Falta precisar o número rela de empregados com contratos suspensos que se encontram em regime de eRTE. Ingresso Mínimo Vital, uma das bandeiras do governo de Pedro Sánchez anunciada em Junho, antes de férias já tem mais de 700 mil inscritos, mas apenas estão aprovadas 3.900 candidaturas. Oficialmente, o atraso fica a dever-se: ao colapso dos serviços, candidatos a receber outras ajudas, dos governos autonómicos, e erros na entrega de documentação. A boa notícia: Mantêm-se as reservas turísticas para a época de Inverno na ilha de Tenerife, as mais importantes para o sector.

Espanha é realmente uma grande Nação, mas o Verão ficou aquém das mais baixas expectativas: Em Junho, perderam-se 94% das receitas turísticas e em Julho 71,3%. Isto deverá significar percas que poderão rondar os 96.000 milhões de euros. Mas teremos de juntar outras perdas significativas: 60% na restauração e mais de 80% nos negócios do lazer nocturno. Importa deter que o turismo hoteleiro representa entre os 13 e os 14% do PIB nacional (sendo que existem Comunidades Autonómicas onde o peso é de 30%), a restauração entre os 4,8 e os 5,2%, enquanto o ócio nocturno cerca de 1,8% do PIB, a que correspondem receitas de 20.000 milhões de euros e 200.000 empregos directos. Ou seja a globalidade do sector afecto direcatamente ao turismo significa 20% das receitas gerais de Espanha.

Tudo isto representa um drama para mais de 2,5 milhões de trabalhadores, apesar de já estarem reintegrados 19% dos funcionários das unidades hoteleiras e 13% dos empregados das agências de viagem e transportadoras aéreas que se encontravam com contratos suspensos e na modalidade eRTE (uma espécie de lay-off portuguesa, mas onde o trabalhador com contrato suspenso recebe directamente do Estado). Encontram-se cerca de 1,5 milhões de empregados nesta condição e destes 150.000 ainda não receberam qualquer remuneração desde Março.

De acordo com os dados relativos ao passado mês de Junho, encontravam-se no desemprego 3.882.833 de cidadãos, enquanto a trabalhar efectivamente 13,9 milhões.

Mas para obtermos contas mais exactas teríamos de juntar um universo de actividades socio-económicas que suportam a economia circular da actividade turística. As indústrias agro-alimentares, das bebidas, da distribuição, dos transportes numa óptica universal, da higiene, do lazer e do comércio generalista, principalmente no arquipélago das Canárias onde os impostos directos – IGIC – Impuesto General Indirecto Canario que substitui o IVA – não excedem os 7% e não são aplicáveis a todos os produtos, havendo inclusivamente isenções, inquestionavelmente encorajador à compra.

Só nas Canárias 51% do total das famílias que trabalham poderão deixar de obter rendimentos suficientes para pagar todas as despesas mensais, ou seja poderão não conseguir satisfazer uma das obrigações mensais como pagar a luz, água ou telecomunicações. E em alguns casos, as hipotecas e ou alugueres das casas. E 35% podem correr o risco de entrar no limiarda pobreza ou exclusão social. A maioria dos hotéis permanecem fechados, enquanto a restauração e o comércio tenta sobreviver dos estrangeiros residentes. No entanto, uma boa notícia: mantêm-se as reservas turísticas para a época de Inverno na ilha de Tenerife que são as mais importantes para o sector e vitais para a sobrevivência da indústria á crise do coronavírus.

Em Espanha, as escolas vão abrir por se considerar essencial o ensino presencial e a sociabilização das crianças para o desenvolvimento intelectual. Tudo acontecerá com normas sanitárias rigorosas, mas subsistem dúvidas sobre o que acontecerá caso surjam contágios de coronavírus? É falso que as crianças assintomáticas sejam mais transmissoras que os infectados ingressados em UCI. Mas é verdade que nos devemos preocupar com quem trabalha nos centros de tratamento das águas residuais, o seu percurso e o destino final.

Ano lectivo vai começar de modo presencial. Ontem, governo central e governos das 17 Comunidades Autónomas acordaram na abertura das escolas com medidas restritivas e normas sanitárias rigorosas. Todas as comunidades já contrataram milhares de professores e de auxiliares para que se consigam executar as medidas propostas.

É um facto inquestionável que o desenvolvimento intelectual das crianças passa pela participação colectiva no sistema de ensino e pela socialização. Mas a segurança não está totalmente garantida: Em caso de contágios, as decisões são tomadas de acordo com as directrizes das autoridades locais de saúde pública.

Mas subsistem dúvidas:

  • O que realmente poderá suceder aos pais – sobretudo das crianças com doenças crónicas – que não querem deixar os seus filhos irem à escola neste momento de ressurgimento da pandemia? Arriscam ou não a prisão prevista na legislação?
  • Se uma criança, um professor ou um técnico auxiliar educativo apresentar um estado febril como se apurará a enfermidade? Ou seja como se certificará em tempo útil se se estará perante um caso de coronavírus ou uma constipação ou estado gripal tão comum nos meses de Outono e Inverno?
  • Quem e como se vai rastear a comunidade que se relacionou com os supostos infectados?
  • É falso que as crianças assintomáticas sejam mais contagiosas que os infectados ingressados nas Unidades de Cuidados Intensivos.
Basta atender à escassez global de rastreadores, função essencial para que se possa evitar e ou travar uma cadeia de transmissão. E é de tal forma que o governo empenhou a UME, Unidade Militar de Emergências nesta missão de descobrimento das comunidades ou cadeias de contágio. Neste serviço vão estar cerca de 150 mil operacionais. A pandemia das ideias visionárias: Da ilusão das vacinas e das encomendas de milhões revelados pelos governos de vários países ao novo paradigma de introduzir a tecnologia IA no cérebro humano e uns chips nos membros superiores para controlar a nossa saúde e rastrear-nos através de aplicações em telemóveis.

Ao nível global vai-se mais longe, enquanto se aguarda pela produção das vacinas: As quatro que se encontram na fase 3 dos testes: dos laboratórios AstraZeneca (conglomeração farmacêutica anglo-sueca criada em 6 de Abril de 1999 pela fusão da companhia sueca Astra AB e da britânica Zeneca Group), da Norte-americana Moderna, da alemã Biontech (desenvolvida na universidade britânica de Oxford) e do chinês SinoPharm que dificilmente chegaram aos mercados antes de março de 2021. A pandemia do coronavírus faz desesperadamente avançar um conjunto de ideias admitidas como visionárias (?) que jamais poderão fazer parte dos livros da ética humana.

Da proposta de Elon Musk anunciada esta semana para a integração da tecnologia IA no cérebro humano – recorde-se que no Dia de são Valentim de 2017 o CEO da Tesla Motors, da Space X e da Neuralink tinha afirmado acreditar que “com o tempo veríamos a fusão da inteligência biológica com a digital” – ao tão comentado propósito de alguns países europeus em produzirem chips para introduzir num dos membros superiores dos cidadãos, sob o desígnio de controlar doenças infecto-contagiosas e abrir a possibilidade de produzir e arquivar históricos clínicos de todos nós, rastreando-nos através de aplicações móveis…. Para além da simplificação da geo-localização, uma obcecação das lideranças policiais da maioria dos países europeus.

Pedro Sánchez anuncia pacote de ajudas: 3.000 milhões para o Ingresso Mínimo Vital; 40.000 milhões para a liquidez das empresas e 21,4 mil milhões para pagar os eRTE. Espanha vai receber 140 mil milhões de euros da União Europeia para a recuperação económica, dos quais 72.700 milhões por transferência a fundo perdido e 67.300 milhões em regime de empréstimo.

por José Maria Pignatelli

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