Histórias d’África – Segundo tiro no porta-aviões (III)

Olhamos mais uma incongruência da OMS e viajamos nos números da pandemia na Nova Zelândia, no Uruguai, em Odivelas e Tenerife…

Organização Mundial de Saúde mais uma vez volta a dar o dito por…

Realmente actua numa perspectiva mais política e geoestratégica que na defesa dos interesses da saúde global dos cidadãos do Mundo. Neste fim-de-semana fomos surpreendidos com mais uma verdade que se tornou mentira. Agora, os confinamentos ou as restrições à mobilidade em bairros, municípios, comunidades ou regiões não são determinantes para conter o incremento de contágios por coronavírus.

Rio Tejo – ponte Alcântara

Obviamente que todos já compreendemos que a vida social e económica é inconciliável com a pandemia do Covid-19 – e deixemos de fora o lado científico -, sobretudo com esta segunda vaga cujo número de infectados é maior que na primeira, ainda que afortunadamente a letalidade seja (leia-se presentemente, que ainda nem sequer atravessamos os rigores do Inverno, no hemisfério Norte) mais baixa não atingindo os 0,9% dos casos mais graves. É incompatível com a perspectiva temporal que anuncia a vacina definitiva para daqui a 6, 7, 8 ou 9 meses e que para as crianças não estará disponível antes do final de 2021, portanto daqui a 13 ou 14 meses. Todos abrangemos que de uma duas: Ou nos fechamos em casa e arriscamos a uma pobreza prolongada, o isolamento social, a submissão, o teletrabalho para mais de 45% dos empregados para longo prazo ou mesmo definitivo; ou tentamos conviver com o vírus, actuando em modo seguro, com prudência e disciplina social, mantendo as cidades activas, significando isto o comércio de rua, a restauração (5,8% do PIB de Espanha), a indústria do turismo e a agricultura.

A OMS opta por caminhar nesta corda bamba, descomprometendo-se por completo sobre orientações globais. Exemplo disso é a confusão que também acaba de fazer com as estatísticas do coronavírus: Responsabiliza Espanha e a Comunidade de Madrid pelos contágios comunitários que sucedem na Europa, ignorando que o Reino Unido e França já têm maior número de contágios diários, 20.000 em cada um dos países nos últimos dois dias. O mesmo sucede percentualmente com a Bélgica, Luxemburgo e República de San Marino. E os movimentos entre estes estados são perfeitamente residuais, mesmo os de carácter turístico. Junte-se a enormidade das previsões de assintomáticos nos países europeus – os pacientes que são portadores da infecção mas não exibem sintomas – que deverá ser superior a 2 milhões de cidadãos. Aliás, 45% dos contagiados actuais são precisamente pessoas deste grupo que se descobrem nos resultados dos testes PCR ou antígenos.

O bom estado das Nações que se isolaram patenteia-se na Nova Zelândia e no Uruguai. Acontece também em cabo Verde, o arquipélago da Madeira e, de certo modo também no arquipélago das Canárias por ter atravessado um isolamento do exterior durante 100 dias e porque depois acabou por ser desinteressante para os milhões de turistas, arrastados pelo quase permanente desassossego verificado na Espanha peninsular. Agora em plena época alta, as Canárias não superam os 20% de taxa de ocupação média. O dia-a-dia faz-se com os da casa, enquanto suportam a descapacitada economia e tentam superar a enorme crise que se avizinha.

É difícil e injusto fazer determinadas comparações entre países a propósito da evolução ou desaceleração da pandemia. Mas podem fazer-se confrontações surpreendentes e que revelam quanto de positivo tiveram e têm as decisões das nações que optaram por se isolar, ou seja confinarem-se do exterior, para evitar demasiadas restrições internas e contrariar resoluções desiguais entre províncias e regiões desses mesmos países.

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Realidades de quem escuta os que sabem, onde se ponderam as decisões e se crê na protecção dos cidadãos. Nova Zelândia e o Uruguai têm menos casos de coronavírus que o concelho de Odivelas em Portugal. Já Tenerife regista o dobro, mas num território com 2.034 Km2, 1,15 milhões de habitantes, com dois aeroportos internacionais, um triplo porto marítimo, 6.825 instalações hoteleiras, 4 universidades, 3 hospitais e onde a saúde pública é gratuita, uma cidade património da UNESCO.

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A Nova Zelândia regista 38 novos casos de corobnavírus entre os dias 1 e 14 de Outubro. O total de infectados sobe assim para 1.876 contagiados, sendo que já foram declarados recuperados 1.809. O número de mortos mantém-se em 25 óbitos.

A estratégia:

  • Mantém-se fechada ao exterior, não admitindo entradas de estrangeiros sejam turistas ou cidadãos que viajem em trabalho.
  • É uma estratégia simples assente em que só podem entrar no País naturais e estrangeiros residentes. Ainda assim, cada cidadão que saia e regresse terá de fazer quarentena assistida num dos hotéis transformados para o efeito (medicalizados) e pagar entre 2.500 a 3.000 euros.
  • Não aconteceram confinamentos e a actividade social e económica não foi interrompida a não ser no sector do turismo.
  • A decisão do governo, liderado por Jacinda Ardem, de 40 anos, líder do Partido Trabalhista (homólogo aos partidos sociais-democratas e socialistas europeus), foi tomada em acordo com todos os representados no parlamento e para um período que não tem data limite fixada.
  • Obviamente, que estas resoluções ocorrem por estarmos perante um país com Indicie de Desenvolvimento Humano elevado só comparável com os países nórdicos europeus. E só assim foi possível aceitar a paragem do sector do turismo que emprega 10% da população trabalhadora.

Importa também perceber qua a Nova Zelândia é um país com apenas 5 milhões de habitantes com 268 838 Km2 (densidade de 18,3 habitantes por Km2) com um rendimento per-capita superior a 40.000 dólares, autossuficiente no sector agrícola e alimentar. No território vivem 30 milhões de ovelhas (…) Isso mesmo, 30.000.000! A Fonterra Co-operative Group é um dos sinais positivistas da economia social do país. Trata-se de uma empresa em regime de cooperativa com 12.000 proprietários, os agricultores associados, que é o quarto maior produtor de leite do mundo. A Fonterra exporta 95% de sua produção e no Chile é dona da Soprole.

Já o Uruguai regista um total de 2.388 casos – 304 infectados entre 30 de Setembro e 13 de Outubro -, 2.001 recuperados e 51 falecidos.

O país tem 3,5 milhões de habitantes e empreendeu regras semelhantes às da Nova Zelândia como uma diferença: Não há quanrentenas obrigatórias globais. Os infectados de coronavírus que devem cumprir quarentenas são isolados em casa e monitorizados pelos serviços públicos de saúde e acompanhados por um médico. O bom desempenho resulta:

  • De um dos sistemas de proteção social mais inclusivos da América Latina que permitiu amparar tanto a saúde física quanto a financeira de sua população mais vulnerável na crise da pandemia.
  • O funcionamento eficiente de programas como seguro-saúde e auxílio-desemprego para harmonizar a assistência médica e apoio à renda a amplos segmentos da sociedade.
  • Crucial foi a decisão em estender o projecto auxílio-doença a todos os trabalhadores do setor privado com mais de 65 anos, para que pudessem ficar em casa.
  • O país tem mais de cinco médicos por mil habitantes enquanto o resto da região tem uma média de 2,3, menos de metade.
  • Conseguiram em tempo recorde aumentar significativamente as unidades de terapia intensiva (UCI) e a aquisição de respiradores admitindo um número de contágios mais elevado do que viria a registar-se.

Utilizemos Odivelas um dos 18 concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, em Portugal, para compararmos sucessos e insucessos. Fazemo-lo porque a região e o País foram assinalados como bom exemplo por alguns países europeus e consequentemente passou uma imagem positiva em toda enganadora para o Mundo.

Mosteiro de Odivelas

Segundo a Direcção-Geral de Saúde portuguesa, o concelho de Odivelas regista um total de 2.486 casos de coronavírus, um número que não é concordante quando confrontado com as estatísticas dos centros de saúde, bastando para isso verificarmos o número de infectados desde o princípio do mês de Outubro, momento em que poderemos afirmar que a segunda vaga da epidemia se iniciou em Portugal. Mas mais meio milhar ou menos pouco importa para percebermos quão distintas são as realidades e as decisões avulsas e deslocadas do tempo relativamente a confinamentos e outras limitações: A verdadeira história dos números – na maioria dos países europeus do centro e do Sul protagonistas de uma tremenda falta de transparência nas estatísticas relativas ao COVID-19 – saber-se-á com o passar do tempo quando feito o encontro de informações múltiplas do número de internados e de óbitos, entre as instituições e empresas envolvidas no processo.

Mas voltemos a Odivelas para perceber a correlação do número de infectados com as duas realidades atrás mencionadas da Nova Zelândia e do Uruguai: Já correram 2.486 casos num território com apenas 26,54 quilómetros quadrados, 150.000 habitantes distribuídos por 4 freguesias, onde não há turismo nem hotéis, aeroportos, estação ferroviária ou interface de redes de transporte que possam servir milhares de pessoas. Falamos de um concelho sem um hospital com apenas oito grandes empresas mas onde o maior empregador é a própria Câmara Municipal e onde em tempo de pandemia a estratégia foi investir 2 milhões de euros em meios de propaganda, automóveis para utilização dos eleitos políticos e funcionários superiores e aparatos de informática.

O exemplo de Tenerife para se perceber a conexão das realidades: A ilha, a maior do arquipélago das Canáriasum total de 4.984 casos desde que começou a pandemia, num território com 2.034 Km2, 1,15 milhões de habitantes, com dois aeroportos internacionais (onde infelizmente se sai com algum grande à-vontade e sem grandes controlos), 6.825 instalações hoteleiras, 4 universidades, 31 municipalidades, 11 praias, um triplo porto marítimo, uma rede ferroviária urbana entre as cidades de Santa Cruz e La Laguna, com 15,1 Km, 2 linhas e 27 estações, uma cidade – San Cristóbal de La Laguna – declarada Património da Humanidade pela UNESCO, em 1999, 12 parques naturais protegidos (O Teide é um deles que engloba o pico mais alto de Espanha com 3.718 metros e a 10ª mais alta de África) o maior zoológico do Mundo sem jaulas e de reprodução e protecção de espécies animais em vias de extinção (…) Uma saúde publica gratuita, com 3 unidades hospitalares públicas e duas privadas de dimensão supra nacional e com especialistas reputados ao nível internacional, um serviço de atenção ao cidadão telemático e telefónico com atendimento 24 horas para todos os serviços da Comunidade Autonómica…

Solidariedade não pode ser sinónimo de perversão dos próprios direitos e deveres dos cidadãos num Estado de Direito. Quer isto dizer dividir não é tirar duns para dar a outros, tão pouco diminuir o sustento social e económico de uma região por não saber como contribuir para soluções estáveis nos países de origem das correntes migratórias ou tão-somente encontrar uma resolução interna supra governo da Comunidade Autónoma das Canárias que terá de envolver forçosamente o governo central.

Ao arquipélago das Canárias, principalmente nas ilhas mais a Leste e sobretudo na Gran Canária, Fuerteventura e lanzarote já chegaram cerca de 6.000 migrantes desde o início da pandemia. Só entre os dias 9 e 10 deste mês de Outubro, chegaram 37 pateras – basicamente barcos de pesca costeira com motor fora de bordo – com 1014 migrantes. Navegam durante 3, 4 e mais dias e veem de destinos como Marrocos, Sahara Ocidental, Mauritânia, Senegal, Guiné. Muitos deles já terão realizado viagens de centenas de quilómetros, pois são procedentes de países africanos sem acesso costeiro como o Níger ou o Mali. Neste período foram resgatados cerca de 250 migrantes e terão perdido a vida mais de 400.

Chegada de uma Patera com migrantes

Quase todos desembarcam em praias. Outros são salvos das embarcações. O resultado mais imediato é: o receio sobre as condições sanitárias destes emigrados; a perplexidade dos turistas; a ameaça à credibilidade global da gestão do arquipélago com as consequências directas sobre o sector do turismo, a maior indústria das ilhas que representa 40% da empregabilidade e que passa conjuntura angustiante fruto da pandemia do coronavírus. Basta referir que se entrou na época alta com uma taxa de ocupação inferior a 30%. E ainda persistem outras incertezas: As autoridades têm enormes dificuldades em identificar os migrantes, maioritariamente do sexo masculino – tratam-se de oriundos de países muçulmanos onde a mulher é absolutamente secundarizada -, e a real procedência, sabendo-se que há quem afirme viajar de origens como o Afeganistão, Paquistão, Síria, Líbia… Ou seja quem tenha milagrosamente conseguido pagar milhares de euros para viajar entre os 5 e os 10.000 quilómetros para conseguir chegar às Canárias. E isto levanta outras três questões: Para onde querem ir viver definitivamente; quais as intenções futuras da maioria destes migrantes; e como reuniram milhares de euros para financiar as viagens.

Os países europeus têm de ser mais solidários entre si: Investirem em recursos nos países de origem para minorar a problemática da pobreza; rastrear os migrantes e obviar destinos. Nas Canárias abriu pelo menos um hotel para hospedar provisoriamente alguns dos migrantes, mas essa é uma solução a curto-prazo e que tem custos relevantes, quer do ponto de vista social, quer economicamente. Mais, esta solidariedade sem limites gera uma onda de indignação entre os milhares de desempregados e daqueles que têm o contrato de trabalho suspenso pelo momento que se atravessa.- por José Maria Pignatelli

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