Histórias d’África – Estamos a perverter a solidariedade e ignorar os nossos.

O ‘influencer’ Hamza Tarik fez uma travessia de Marrocos às Canárias e ninguém lhe perguntou nada.

Na semana passada escrevi que Solidariedade não pode ser sinónimo de perversão dos próprios direitos e deveres dos cidadãos num Estado de Direito. Quer isto dizer dividir não é tirar duns para dar a outros, tão pouco diminuir o sustento social e económico de uma região por não saber como contribuir para soluções estáveis nos países de origem das correntes migratórias ou tão-somente encontrar uma resolução interna supra governo da Comunidade Autónoma das Canárias que terá de envolver forçosamente o governo central. Este ano, ultrapassam já os 10.000 migrantes que desembarcaram no arquipélago das Canárias. Só neste mês de Outubro chegam a uma média de 1.000 à semana. Estes migrantes não querem ficar no arquipélago: sabem da inexistência de condições sociais e económicas e pretendem entrar no continente europeu. A missão é chegar a França, Alemanha e Reino Unido.

Hamza Tarik a bordo de um ferry que de Lanzarote a Fuerteventura / Cadena SER

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Inacreditável: “Influencer” marroquino publica no Instagram imagens e vídeos de uma viagem a bordo de uma patera entre Marrocos e a ilha de Lnazarote: a embarcação navegava com o motor fora-de-bordo levantado; nenhum dos ocupantes aparenta subnutrição, pobreza e autointitulam-se de “homens valentes classificando de cobardes os que ficaram”. Hamza Tarik não foi interrogado pela Guarda Civil nem terá realizado qualquer teste PCR ao Covid-19.

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Mas na segunda-feira, dia 20 de Outubro, aconteceu o inimaginável: A CadenaSer, num artigo assinado pelo Carlos Garcia, publicava imagens e vídeos publicados pelo “incfluencer” marroquino Hamza Tarik – conhecido no Instagram por Patruc Official – da sua travessia de Marrocos às Canárias numa patera com migrantes e o do desembarque na praia de Famara na ilha de Lanzarote, no passado dia 9 de Outubro. O artigo mostra vários momentos de navegação e da chegada à praia lanzaroteña. E deixava incrédulos milhares de leitores por se aperceberem:

  • Que a embarcação navegava com o motor fora-de-bordo levantado (Extraordinário?), o que sustenta algumas teses e testemunhos de que muitas destas embarcações são rebocadas desde a partida até 20, 30 ou 40 milhas da costa das ilhas Canárias (…);
  • Com muitos ocupantes e nenhum aparentando subnutrição, pobreza ou insatisfação com a sua condição ou com o regime marroquino;
  • Estes magrebinos lançam gritos aludindo à coragem dos que embarcaram, particularizando que “somos homens, somos os valentes e os que ficaram são os cobardes”;
  • Também se escutam referências à origem de alguns, como Agadir ou Tiliwin;
  • Que Hamza Tarik, é o único que fala para a câmara do seu telemóvel, mostrando alegria por ter chegado a Espanha e termina o vídeo com uma expressão que quer dizer “ilegal”.

Mas o mais extraordinário foi o facto da Guarda Civil lhe ter permitido continuar viagem sem lhe ter emitido o respectivo auto de delito e o ter obrigado a realizar um teste PCR para avaliar a sua situação relativa a eventual contágio pelo SARS CoV-2. O “influencer” hospedou-se em casa de um familiar no bairro de Titerroy, na capital de Lanzarote, embarcando mais tarde num dos ferries que fazem a ligação com Fuerteventura com destino ao porto de Corralejo.

Nas últimas três semanas chegaram às ilhas mais 3.000 migrantes. Só na quinta-feira, dia 22 de Outubro foram registados mais 507 imigrantes pelo Salvamento Marítimo a Sul da Grande Canária, e até ao meio-dia de ontem mais 258, sendo que num só barco chegaram à Praia de Los Cristianos, em Tenerife, 195 migrantes, este últimos procedentes do Senegal, Mali e Costa do Marfim.

E o que acontece: Passam por uma primeira zona de acolhimento – quase sempre tendas de campanha da Cruz Vermelha – onde aguardam pelos resultados dos testes PCR. Depois são alojados por tempo indeterminado em complexos hoteleiros, principalmente da Gran Canária, com direito a alimentação, cama e roupa lavada, apenas sem acesso às piscinas e ao serviço de quartos. Já ultrapassam os 10.000 migrantes que entraram no arquipélago desse Janeiro último. E ficam exclusivamente expostos às decisões do governo da Comunidade Autónoma que são quase nenhumas, isto por que o governo de Pedro Sánchez foge do problema como o diabo da cruz. A administração central de Espanha não quer envios para o continente e a União Europeia esconde-se debaixo da capa da pandemia para não contribuir com uma solução no tempo. Mas uma coisa é certa, tanto o governo espanhol como a Comissão Europeia sentam-se em sofás confortáveis: Não querem operações de repatriamento enquanto persistir a pandemia por uma questão de humanidade.

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Migrantes têm alimentação, cama e roupa lavada em complexos hoteleiros. Os da casa mantém-se em crise, a fazer contas à vida que os deixou sem trabalho e capacidade de pagar uma ou mais contas ao final do mês. Em Tenerife, já se veem sem-abrigo que se misturam com os turistas existencialistas que chegam em caravanas atascadas de tralhas.

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Ora, estamos perante uma solidariedade conveniente, uma verdadeira operação de charme do chamado Mundo civilizado, assente numa campanha de marketing da autoria dos próprios migrantes que a fazem chegar aos países de origem (…) Aumenta o tráfico e a exploração de seres humanos pelo cada vez maior número de candidatos a navegar em pleno Oceano Atlântico em pequenos barcos de pesca costeiros pelo que pagam milhares de euros.

Esta inércia das governações faz aumentar a contestação dos cidadãos, muitos deles a atravessar verdadeira crise, sem sequer conseguirem pagar uma das contas mensais: do consumo de energia, da água ou a prestação da hipoteca das suas casas. Há milhares de trabalhadores, principalmente da indústria hoteleira que também já têm enormes dificuldades em conseguir compara alimentos e por irónico que possa parecer não se podem candidatar a ocupar os hotéis encerrados onde trabalhavam para disfrutar de alimentação, cama e roupa lavada mesmo que isso significasse trabalhar para causa própria.

Encontro um antigo ditado popular que assenta plenamente neste paradigma: “Uns são filhos e outros enteados”… Neste caso os enteados, os filhos do diabo são os que cá vivem, nas Canárias e que aqui pagam os seus impostos e que, muitos deles, terão de pagar as contas agora suspensas por moratórias.

Com a bonança dos ventos alísios durante os próximos dois meses adivinha-se uma verdadeira ponte marítima entre os países magrebinos da África Ocidental e as Canárias, sem precedentes. Estes emigrantes navegam durante 3, 4 e mais dias 98% são muçulmanos do sexo masculino e veem de destinos como Marrocos, Sahara Ocidental, Mauritânia, Senegal, Guiné. Muitos deles já terão realizado viagens de centenas e milhares de quilómetros, pois são procedentes de países africanos sem acesso costeiro como o Níger ou o Mali. Também há quem seja procedente do médio Oriente. Muitos desembarcam nas praias. Outros são salvos das embarcações. O resultado mais imediato é: o receio sobre as condições sanitárias destes emigrados; a perplexidade dos turistas; a ameaça à credibilidade global da gestão do arquipélago com as consequências directas sobre o sector do turismo, a maior indústria das ilhas que representa 40% da empregabilidade e que passa conjuntura angustiante fruto da pandemia do coronavírus. – por José Maria Pignatelli

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