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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022
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Integrismo sem Fundamento

Na antiguidade, com o surgimento das grandes correntes religiosas monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) foram introduzidos um conjunto de preceitos, ou se quisermos de Leis Morais, que visaram acomodar algumas preocupações com os costumes, nomeadamente com o decoro. No caso das mulheres, cedo surgiram preocupações com as suas indumentárias com o propósito de lhes garantir a protecção que a lei e os Estados como os conhecemos hoje não garantiam, evitando que a exposição destas as pudesse fragilizar, envergando pelos trajes a marca de mulheres honradas, castas a quem ninguém ousaria molestar. Importa não esquecer que a vida civil ou secular e a vida religiosa não se separavam em nada. Pelo que, daí a adoptarem-se regras de origem cultural foi um salto. Regras essas, que depois prevaleceram pela tradição e justificadas nos costumes assentes em credos religiosos.

Tal como no Velho Testamento, também no Alcorão se aconselham as senhoras à não exibição dos seus “adornos” em público, sendo aceitável que tal suceda em privado nas suas próprias casas e perante as pessoas mais chegadas. É defendida por muitos teólogos muçulmanos a ideia de que as mulheres podem manter o seu rosto e as suas mãos descobertas. Todavia, a Burka que cobre a mulher da cabeça aos pés, incluindo a face, é amplamente difundida no mundo islâmico.

Desengane-se quem considera ser esta uma questão dos crentes islâmicos. O facto é que o uso destes trajes começou nas tradições judaicas e bizantinas, chegando até à Idade Média de matriz cristã. Só no século VI é que o uso destas vestes é instituído pelo Profeta Maomet numa tentativa de conferir às muçulmanas a mesma dignidade das seguidoras da Torá e dos Evangelhos. Note-se que Paulo, na I Carta aos Coríntios manifesta apoio ao uso do véu pelas mulheres cristãs nas reuniões de oração e nos cultos de adoração e louvores a Deus, aceitando ainda assim que tal decisão deveria ser sujeita à interpretação e à compreensão dos factores culturais. Qualquer ocidental atento e com mais de 40 anos certamente já testemunhou a práctica do uso do véu feminino durante cerimónias religiosas. No caso do catolicismo verifica-se que quer as suas missionárias quer as imagens das suas divindades femininas ou santas se socorrem constantemente deste tipo de vestimenta, onde só a cara e as mãos ficam a descoberto.

Na actualidade muitas mulheres muçulmanas usam Burka. Umas por coacção social ou familiar, outras de forma voluntária, como uma marca de tradição islâmica.

Quando se fala deste tema tendemos a centrar atenções na Burka, contudo em matéria de trajes islâmicos temos também o Hijab de matriz africana e mui usado pelas muçulmanas residentes nos países ocidentais, o Chador de origem Persa (Turquia, Irão), o Niqab com origens na Península Arábica e finalmente a Burka de tradição afegã.

Apesar de algumas correntes do islão pretenderem pelo uso dos chamados trajes islâmicos a afirmação da cultura e costumes do Islão, bem como a dignificação, moralização, e honradez das muçulmanas, a verdade é que este trajar que cobre o rosto e corpo da mulher tem uma origem controversa e até antagónica a estas pretensões. Recuando no tempo encontramos a origem destas vestes muito antes do Islão. O culto à divindade Ashtart, deusa do amor, da fertilidade e da sexualidade, na antiga Mesopotâmia, impunha a todas as mulheres a obrigatoriedade de se sujeitarem uma vez por ano a rituais de índole sexual nos bosques sagrados em redor do templo da deusa. Acontece que as mulheres que o faziam passaram a usar um véu longo para ocultarem a sua identidade.

Importa que estas correntes integristas que içam bandeiras sem fundamentação cuidassem melhor das suas doutrinas e da origem das coisas que dizem pretender defender. Por um outro lado aqueles que assistem não se sintam meros espectadores culturalmente altivos de um filme, para o qual o ocidente judaico-cristão tem igualmente participado.

Indubitavelmente esta questão das vestes atravessa-se de forma mais ao menos óbvia com formulações, também mais ou menos assumidos, de que a fragilidade das mulheres resulta da tentação que estas suscitam junto dos homens devido às suas vestes e entrejeitos. Ou seja, tudo isto está em muito relacionado com a factura que Eva terá deixado às mulheres, entes de pecado, que pela forma como se vestem muitas vezes “estão mesmo é a pedi-las”. A culpa e a salvação pelas obras mescladas com uma cultura machista e paradoxalmente misógina a servirem de agentes justificadores das mais tresloucadas, insanas e perversas acções de quem ainda não desceu da árvore e se fez urbano tem de ser enfrentada, pois sem isso a violência de género, a violência doméstica, enfim a desconsideração de seres humanos persistirão. E tal, para quem visa o humanismo não pode ser aceitável, pelo que só com formação e informação se combate a ignomínia aqui deixei o meu contributo.

  • Paulo Bernardo e Sousa
    Politólogo

(Publicado no Semanário NoticiasLX de 16/Julho/2022)

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