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O “CARALHINHO”

Começo já por uma questão prévia, concernente ao título da peça … não, não pretende ser ofensivo, nem é um vernáculo insidioso, na medida em que o vocábulo é polissémico, como demonstrarei.

O “caralhinho” é um instrumento tradicional madeirense, utilizado para fazer a mistura da celebérrima bebida “Poncha”, e com a qual se brinca imenso com turistas femininas incautas, quando surpreendidas com o nome do instrumento, misturador, se costuma dizer “oh, minha senhora não me diga que nunca teve o caralhinho nas mãos …para fazer ponchas, claro”. Brincadeira, apreciada por todos.

Ocorreu-me, quase instantaneamente, a imagem do “caralhinho”, a propósito da inusitada questão, mais uma lateralidade inócua, tendo por pano de fundo a TAP, mas cujos alicerces são outros bem mais obscuros, e que se prendem com as agora “notas” que um adjunto do Ministro das Infra-estruturas tirou aquando de uma participação numa reunião, que a comunicação social insiste em classificar de “secreta” realizada pelo grupo parlamentar do Partido Socialista, e que contou com participação da ex-CEO da TAP.

Para além da extraordinária bizarria de umas simples “notas” grafadas em computador, sempre conveniente porque não dá para aferir a caligrafia do grafador (do escrevente), serem agora consideradas “documentos de estado”, com igual valor ao de um documento autêntico, palavrão jurídico para designar um documento ao nível de uma Acta, ou escritura pública, parece que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) se dá ares de polícia de criminal investigando um crime terrível, caso em que efectivamente umas simples ”notas” podem ter algum interesse, mas nunca a de prova material, indiscutível, do que quer que seja.

Ao nível da actividade administrativa do estado, conceder a umas simples “notas” tal peso é ir demasiado longe numa lateralidade, que nada adiciona ao cerne da questão. É um absurdo.

Façamos um exercício simples. Nessa reunião esteve presente um deputado eleito pelo círculo eleitoral madeirense (Carlos Pereira), imaginemos que ele sentindo-se afobado por ali estar, de repente sente falta de uma “poncha”, equivalente a uma bebida energética, mas faltando-lhe o tal “misturador” que só na madeira se arranja, toma a seguinte nota no seu caderno “caralhinho”, como mnemónica, para arranjar um, na primeira oportunidade.

Confiscada aquela “nota”, agora arvorada a “documento de estado”, que conclusões tirariam os investigadores da CPI? Pederastia em potencial? Crimes sexuais de assédio? Insultos dirigidos a quem? À CPI?, a alguns membros da CPI? A outras figuras do Estado? Indiciaria um potencial desejo de mudança de sexo por ablação do dito? Enfim a imaginação é livre e não paga impostos.

Em tempos tive a oportunidade de conhecer alguns actores brasileiros que participaram em novelas, cujo sucesso marcaram a história novelística brasileira em Portugal, entre elas a “Torre de Babel” e “Roque Santeiro”, entre outras, em Cabo Verde, onde me encontrava numa visita de estudo ao seu sistema municipal.

Um dos actores, que mais tarde visitei, aquando da minha participação nas eleições municipais brasileiras como observador internacional, no Rio de Janeiro, confessou que se sentia muito aborrecido na escola, passara por um seminário católico, e o enfado das aulas levava-o a desenhar uma profusa quantidade de Pénis, ou, segundo ele, “caralhinhos”.

Imaginem agora que nessa reunião tinha participado alguém com semelhante propensão gráfica, e, tal como os outros essas “notas”, “caralhinhos”, integrariam o manancial de “notas”, tidas como “documentos de estado”.

Mais uma: nos meus tempos de estudante um certo dia um colega meu atingido pelo fastio de uma aula resolveu, apontar uma nota pessoal no seu caderno sobre o volume mamário de uma colega nossa, passando-a a outro colega para ler, e, para seu azar, a professora deu conta e achando que era algo sobre a sua pessoa, obrigou-o a ler em voz alta. Todos ficaram a saber a opinião do infeliz sobre a colega.

Imaginem agora que ele também tinha participado na dita reunião e mais uma vez cometera a mesma atitude. O que pensariam os doutos investigadores? Nem me atrevo a conjecturar.

Onde quero chegar com isto? Uma nota pessoal, é isso mesmo, é pessoal, encontra-se no domínio da nossa mais intima reserva e privacidade, e só o próprio lhe pode dar o destino que entender dar.

Daí a bizarria deste escrutínio imposto pela CPI, em tudo semelhante a práticas de uma Inquisição laica.

Talvez por esta razão, o desvirtuamento de uma CPI, o PSD nas suas muitas maiorias absolutas, fosse na Assembleia da República, fosse na Assembleia Legislativa Regional da Madeira, fosse tão avesso a CPI’s, com a particularidade de na Madeira Alberto João Jardim NUNCA ter permitido que se formasse uma CPI.

Esta CPI da TAP tem traços assustadoramente idênticos ao processo Marquês, ou pelo menos utiliza indiscriminadamente a mesma técnica: meter tudo e um par de botas no mesmo saco, para criar um “monstro” processual, cuja defesa é quase impossível de se fazer com eficiência, dinamitando a sua eficácia, em manifesto detrimento do essencial, e esse é o objecto da CPI, ou seja o fim para que foi criada, e do qual paulatinamente se vão afastando os senhores deputados.

Por vezes, quando se tem uma fé, todas as justificações são inconsequentes, e pouco importa a verdade, o que conta mesmo é a fé que se tem.

Obviamente, o corolário natural desta técnica é o uso e abuso de crónicas televisivas, por parte de gente pouco informada e pior, deficientemente formada.

Oliveira Dias, Politólogo

Post Scriptum: Já depois de elaborada a minha peça deparei com a intervenção impoluta do Presidente do Observatório de Segurança Interna, Hugo Costeira, na CNN, no dia 1 de Maio de 2023, pelas 12h56m, que com uma clareza cristalina explica ao detalhe, como se concretiza, em abstracto, a intervenção do SIS. Tudo o mais que se acrescente é objectivamente palha.

Oliveira Dias – Politólogo

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