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    Economia Circular – Produção de Equipamentos e a Estratégia dos 6 Rs

    O projeto tem forte influência em todas as fases do ciclo de vida de um produto, sendo uma estratégia complexa a ser implementada ao longo de uma cadeia de valor. Em linha com a estratégia dos 6Rs, o Redesenho permite a criação de produtos que podem ser facilmente reparados, atualizados ou desmontados, prolongando sua vida útil e fomentando uma economia circular.

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    A produção de bens e equipamentos com base no conceito de economia linear tem subjacente um modelo em que os produtos são fabricados a partir de matérias-primas, vendidos, usados e quando chegam ao fim de sua vida útil são descartados como lixo e/ou incinerados. Esta abordagem coloca um enorme conjunto de desafios ao meio ambiente: os recursos naturais esgotam-se e acabam como resíduos, para além das emissões de gases para a atmosfera nocivos à estabilidade do ecossistema. Embora a economia linear tenha contribuído para o rápido crescimento económico e desenvolvimento global, o modelo que lhe está subjacente é insustentável para a produção de equipamento e bens de consumo, devido ao uso excessivo de recursos naturais e consumo de energia, provocando a erosão do ecossistema. É neste contexto que a Comissão Europeia tem vindo a promover a necessidade de serem adotadas soluções que induzam a transição para uma economia circular eficiente em termos de recursos e, em última análise, regenerativa.

    A Economia Circular (EC) é um conceito emergente que visa apresentar estratégias para prolongar o fim de vida de um determinado produto com a redução, reutilização ou renovação de materiais nos processos de produção/distribuição e consumo. Tendo subjacente o modelo de EC, os produtos devem ser projetados para ter maior longevidade e durabilidade e, quando chegam ao fim de sua vida útil, serem usados para produção de um novo produto, sendo reciclados em vez de descartados. Assim, a EC introduz as noções de restauração e circularidade, visando a redução do desperdício através de uma cuidada seleção de materiais, produtos, sistemas e modelos de negócios, envolvendo não apenas uma organização específica, mas toda a cadeia de valor. O principal objetivo da EC é conciliar dois paradigmas aparentemente opostos: crescimento económico sustentado e proteção efetiva do meio ambiente e dos recursos naturais.

    Um dos modelos subjacente ao conceito de EC é o dos 3Rs, que representa as 3 grandes estratégias – Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Na literatura que tem vindo a ser publicada relativa a este domínio do conhecimento, o modelo dos 3Rs tem vindo a evoluir com a adição de novas estratégias-R. Todavia, em consequência do estarmos perante um conceito emergente, ainda não existe um consenso alargado sobre qual deve ser considerado o modelo “R” mais adequado para apoiar a implementação do conceito de EC. No entanto, a comunidade científica concorda que uma EC requer atividades económicas no mínimo alinhadas com os princípios dos 3Rs.

    Em complemento do modelo dos 3 Rs, tem vindo a ser reportado na literatura o modelo dos 6 Rs, incluindo 3 novas estratégias para a implementação do conceito de EC, em que os novos Rs correspondem a Redesenhar, Remanufacturar e Recuperar. Esses novos elementos concentram-se em diferentes fases do ciclo de vida do produto, sendo estratégias cruciais para implementar uma fabricação mais sustentável. Salienta-se que a fase de Redesenho é de extrema importância, uma vez que é responsável por definir os principais requisitos do produto no início do seu ciclo de vida, exercendo assim uma forte influência em todas as R-estratégias e fases subsequentes do desenvolvimento do produto. Neste contexto, o redesenho requer não apenas uma estreita colaboração entre diferentes departamentos dentro de uma organização, mas também exige o estabelecimento de redes colaborativas entre as várias partes interessadas, incluindo parceiros da cadeia de valor, permitindo a troca de informações, recursos e transferência de conhecimento.

    Compreender o papel de cada uma das estratégias R é de fundamental importância para fornecer uma visão geral de como as empresas podem abordar a economia circular ao intervir no ciclo de vida do produto e em toda a sua cadeia de valor. Reduzir implica preocupações acrescidas na fase de projeto de um produto específico visando a diminuição da quantidade de resíduos gerados e, assim, reduzir a utilização de matérias-primas na sua conceção.  Reutilizar refere-se ao processo pelo qual um produto que já foi usado pode ser usado novamente para desempenhar a sua função original, com as características idênticas às do produto original. Reciclar significa usar o próprio lixo como um recurso, podendo também ser descrito como o processamento de fluxos mistos de produtos pós-consumo ou fluxos de resíduos pós-consumo, incluindo trituração, fusão e outros processos, para gerar matérias-primas a incorporar em novos ciclos produtivos. Redesenhar remete para a definição de requisitos de um produto no início do seu ciclo de vida. Remanufacturar prende-se com um processo no qual toda a estrutura de um produto descartado/danificado é desmontada, para que um novo produto possa ser criado usando partes do produto antigo, com a mesma função do produto original.  Recuperar envolve a incineração de materiais para geração de energia. Em suma, embora com abordagens diferentes, a implementação de cada R requer valências acrescidas de engenharia na fase de projeto de um produto, ao qual induz uma particular relevância da estratégia de Redesenhar para se alcançar uma eficaz implementação do paradigma subjacente à EC.

    A estratégia de Redesenhar reconhece que a fase de projeto de um produto tem uma influência determinante na sua durabilidade, influenciando a sua vida útil e o seu potencial de reutilização ou reciclagem, implicando uma abordagem interdisciplinar. A fase de Redesenho envolve dois objetivos principais: o primeiro procura identificar com rigor os problemas que o produto original apresenta ao nível da sua funcionalidade e efeitos no meio ambiente, identificando assim em que áreas poderão ser efetuados ajustes para os mitigar; o segundo consiste em alterar alguns componentes sem modificar as características funcionais do produto original, visando encontrar um equilíbrio efetivo entre utilidade e benefícios ambientais.

    João Calado

    (Professor Coordenador Principal do ISEL)

    (ex-Vereador do PSD)

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