Plano Metropolitano de Mobilidade Urbana Sustentável: Grandes Intenções, Falta de Calendário e Orçamento

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Plano Metropolitano de Mobilidade

1. Metas Ambiciosas e um Enquadramento Estratégico Promissor

O Plano Metropolitano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMMUS) da Área Metropolitana de Lisboa (AML) apresenta intenções estratégicas meritórias. Valoriza modos ativos de transporte — como a mobilidade pedonal e ciclável — e aposta numa maior intermodalidade, com foco nos objetivos C3 e C4 que visam melhorar o acesso aos transportes públicos e garantir acessibilidade universal.

A visão expressa na secção 5.2 do relatório demonstra uma compreensão atualizada dos princípios da mobilidade sustentável. No papel, o plano propõe-se transformar o paradigma da mobilidade, promovendo deslocações mais humanas, inclusivas e ambientalmente conscientes.


2. Falta de Estrutura Territorial Clara

Apesar das boas intenções, a organização territorial do plano é frágil. A proposta carece de uma abordagem coerente ao território metropolitano. Recomenda-se a adoção do conceito de Distritos Urbanos e do modelo Transit Corridor Livability (TCL) — corredores de transporte público de qualidade — como base para reorganizar o plano.

Essa abordagem permitiria planear com foco na qualidade de vida ao longo dos eixos de transporte, integrando habitação, serviços, emprego e lazer. Sem esta reformulação, o risco de uma visão fragmentada e ineficaz permanece elevado.


3. Sem Orçamento, Sem Calendário, Sem Responsáveis

Um dos maiores problemas do PMMUS reside na ausência de um plano de implementação. O documento não inclui prazos, responsáveis institucionais, fases de execução nem orçamento para as medidas propostas. Esta lacuna torna o plano vulnerável a ser arquivado, como tantos outros, sem sair do papel.

Além disso, o capítulo dedicado aos indicadores de monitorização não está apoiado por qualquer plano de financiamento ou estratégia para garantir a recolha e análise dos dados.


4. Indicadores: Boa Intenção, Potencial Desperdiçado

Embora o plano apresente uma bateria considerável de indicadores, não define os meios técnicos, humanos ou financeiros necessários para os operacionalizar. A ausência de entidades responsáveis e de recursos concretos esvazia a utilidade da monitorização.

Sem instrumentos de execução, até os melhores indicadores tornam-se meros enfeites sem impacto real na avaliação ou correção de políticas.


5. Contradições com Grandes Infraestruturas Rodoviárias

É também preocupante a omissão de qualquer reflexão crítica sobre projetos como o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), a Terceira Travessia do Tejo (TTT) ou a Quarta Travessia do Tejo (QTT). Estas grandes obras, com forte componente rodoviária, contradizem frontalmente os objetivos do PMMUS sobre descarbonização e mobilidade sustentável.

A construção de novas vias rodoviárias induz maior tráfego automóvel — fenómeno amplamente documentado — agravando a dispersão urbana e a dependência do carro.

O plano deveria rejeitar claramente a componente rodoviária da TTT e defender que a sua função seja exclusivamente ferroviária. Também deveria priorizar com urgência a expansão do Metro Sul do Tejo até zonas como Costa da Caparica, Alcochete e Charneca da Caparica.


6. Mobilidade e Habitação: Uma Omissão Inaceitável

Outro ponto crítico é a falta de articulação com políticas de habitação e ordenamento do território. O plano ignora o impacto da crise habitacional na mobilidade, e não analisa como a fuga para zonas periféricas, alimentada por preços altos nos centros urbanos e infraestrutura rodoviária massiva, contribui para padrões insustentáveis de deslocação.

Mobilidade e habitação são inseparáveis. Sem essa integração, as soluções propostas pelo PMMUS ficam incompletas.


7. O Estacionamento Continua a Ser o Elefante na Sala

O plano também falha em abordar o papel nocivo das exigências mínimas de estacionamento impostas por lei e transpostas para os Planos Diretores Municipais (PDM). Estas normas incentivam o uso do automóvel, encarecem a habitação e contradizem os objetivos de sustentabilidade.

O PMMUS deveria propor, com clareza, a revisão legislativa dessas exigências, à semelhança do que várias cidades pelo mundo já fizeram.


8. Conclusão: Entre a Visão e a Inação

O PMMUS-AML é um documento com ambição e visão estratégica. Mas a falta de calendário, orçamento, articulação com políticas territoriais e coragem política para enfrentar contradições internas tornam-no, na prática, um plano incompleto e com execução comprometida.


Recomendações Estratégicas

  • Reorganizar o plano com base em Distritos Urbanos e eixos Transit Corridor Livability.
  • Definir uma calendarização clara, com fases de implementação, responsáveis institucionais e envelope financeiro.
  • Rever a compatibilidade dos objetivos do plano com os grandes projetos rodoviários nacionais.
  • Assegurar financiamento adequado para a monitorização dos indicadores.
  • Integrar políticas de habitação e ordenamento do território no planeamento da mobilidade.
  • Propor a revisão legislativa das exigências mínimas de estacionamento nos PDMs.

Fontes:

  • PMMUS-AML
  • Avaliação Crítica | MUBi
  • Petição Pública pela extensão urgente do Metro Sul do Tejo
  • Cervero, 2017 – Urban Districts and Transit-Oriented Development

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