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Odivelas, quarto alugado com vista para o poder

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Odivelas descobriu, finalmente, a sua missão histórica: ser um município de almofadas competentes e cobertores institucionais. Não governa, não incomoda, não sonha – dorme. Dorme bem, de preferência, com casa de banho privativa e lavandaria incluída.

No dia 16 de dezembro, entre discursos afinados e sorrisos ministeriais, vai inaugurar-se solenemente a Residência Universitária do Mosteiro de Odivelas. Irão comparecer as altas figuras do costume: o ministro que tutela o saber, o presidente que tutela o território e a reitora que tutela a esperança académica. Todos juntos, todos contentes, como quem confirma que o futuro passa por aqui – mas apenas para pernoitar.

São 204 camas, número respeitável, digno de nota e de fotografia. Cem quartos simples, cinquenta e dois duplos, cozinhas partilhadas, salas de estudo e espaços de convívio. Tudo muito moderno, funcional, higienizado. Um pequeno milagre da reabilitação urbana, erguido sobre edifícios gémeos do final dos anos 40, outrora destinados a formar raparigas e agora vocacionados para albergar estudantes cansados.

Nada disto é mau. Pelo contrário. O problema é o entusiasmo com que se celebra o acessório como se fosse destino. Odivelas não se afirma como cidade universitária, nem como polo de conhecimento, nem sequer como território de pensamento crítico. Afirma-se como anexo confortável da capital, essa senhora exigente que trabalha de dia e descansa nos concelhos vizinhos.

O executivo municipal, numa rara convergência de almas entre PS e PSD, parece ter compreendido o essencial: não vale a pena disputar ideias, basta gerir colchões. Lisboa pensa, Odivelas apaga a luz. Lisboa decide, Odivelas muda os lençóis. É uma estratégia discreta, consensual e profundamente moderna.

O mais curioso é o simbolismo do lugar. Um antigo instituto, criado para educar, transforma-se em residência para alojar. Onde antes se moldavam consciências, agora distribuem-se chaves. O saber entra, mas não fica. Estuda-se ali, mas vive-se acolá. Odivelas é a sala de espera do futuro – sem comboio próprio.

E assim, entre inaugurações e palmas protocolares, consolida-se o modelo: um município ordeiro, silencioso e útil, que não perturba o centro nem reclama protagonismo. Um território onde se dorme profundamente enquanto o país decide acordado noutro sítio.

No fim, talvez seja essa a maior obra política do mandato: transformar Odivelas num vasto e respeitável quarto arrendado, onde todos passam a noite – mas ninguém fica para mandar.
– António de Queirós

As Farpas: crónicas satíricas sobre o poder local

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