“Cheguei a Portugal!”
O João Maria que vive para os lados de Proença-a-Nova, teve de fazer uma “escapadinha ao estrangeiro, cá dentro”, quer dizer “lá dentro” do país onde vive. Precisamente: foi forçado a ir a Lisboa por causa de umas burocracias da sua vida, aquelas papeladas aborrecidas por causa de herança antiga da família cinzenta que o gerou.
O João Maria é um engenheiro mecânico de maior idade, tal qual eu, que se converteu em agrónomo. Vive do que lhe dá o campo, nas suas propriedades da zona de Castelo Branco: dos sobreiros que lhe dão a cortiça; de alguns frutícolas como as figueiras, do olival e das suas mais de 600 ovelhas; umas 400 vacas e meia dúzia de bois pujantes. É casado com a Sofia, uma veterinária que orienta a vida dos animais e lhes cuida da saúde.
Os filhos são maiores. O José Maria também estudou engenharia mecânica, mas é arquitecto naval na Noruega e, de vez em quando, voa ao japão e à Coreia do Sul. Já a Carolina é médica, mas dedica-se à genética: investiga nos Estados Unidos e em Espanha.
Madrugada de um dos primeiros dias de novembro meteu-se no seu Jeep Rubicon e conduziu 220 quilómetros em direcção à capital. Estacionou nas imediações do Campo Grande e meteu-se no metropolitano. Primeira paragem, Odivelas. Sobre as suas confortáveis botas Camper percorreu a rua Dr. Egas Moniz e quase toda a avenida D. Dinis para a sua primeira paragem; já acompanhado pelo seu procurador tomou o pequeno almoço no ‘El Rei D. Dinis’. Juntos, seguiram para a Loja do Cidadão, no Odivelas Parque…
E aqui aconteceu o primeiro impacto, talvez com a verdadeira realidade. Ao telemóvel desabafou comigo: “Zé Maria, estou a sentir-me meio estrangeiro no meu país (…) a baixa da tua antiga cidade faz-me voar até à India e ao Oriente Médio; eram quase tantos siKhs e muçulmanos quanto portugueses”. E o João Maria saltou meia gargalhada: “Menos mal, o aroma das especiarias”. Pois claro, o meu amigo nunca escondeu a sua predileção pelo perfume tão especial das receitas a que se habituou em pequeno, em terras de Moçambique, nas cidades da Beira e Lourenço Marques de onde saiu já adolescente.
E despedimo-nos com uma até logo ou até amanhã. O João ainda tinha uma jornada apertada: de correr a serviços públicos e a uma reunião de família, que, tal como entre políticos, aconteceu numa sala de hotel por causa do estatuto de ‘terreno neutral’.
Mas acabaria por ter uma meia surpresa: O João ligou-me do seu Jeep. Primeiro, para dar-me uma nota feliz: depois de treze anos, a presenciar debate familiar sobre o ‘sexo dos anjos’, encerrou-se um capítulo tremendo para a sua saúde mental… Durante uns minutos, virámos adolescentes; tempo apara ironizar à volta de episódios anedóticos.
Já perto do nó da A1 com a A23 – a autoestrada que nos leva do Oeste ao Leste de Portugal, a caminho das Beiras, conhecida também pelo eixo de Torres Novas Beiras interiores – a conversa mudou. O João Maria nessa mesma manhã: “Zé Maria, imagina a sensação de voares até Luanda ou Maputo sem saíres de Lisboa? Como num estalar de dedos”.
Fez-se silêncio durante uns segundos. Francamente, não captei o sentido da afirmação. O João foi presenteiro: “Acredita que na Praça do Chile e em Arroios encontrei-me com mais africanos que portugueses e até que chineses (…) Acredita que, ainda me senti mais estrangeiro que em Odivelas”.
Menos correcto politicamente que o João Maria – até porque se tratava de um diálogo entre amigos e muito menos entre racistas – como que lhe interroguei: Quer dizer que deste de caras com mais mulatos e negros que gentes de outras cores?
O João foi peremptório: “Foi quase como um regresso às origens”… Dele, pois claro que nasceu em Angola.
Mais uns dedos de conversa sobre gastronomia; as nossa beiras e as “minhas” Canárias. Acabámos por não dar grande tempo de antena à política dos dois países da Península porque era perder tempo precioso. É um tema que deixamos habitualmente para algumas linhas entre @mail’s que trocamos ou ‘post’s no X e Facebook.
Mas história não acaba aqui. O João Maria ainda meditou sobre o assunto. Não foi Nossa Senhora de Fátima que assomou, mas sim migrantes, quiçá demasiados porque ficou surpreendido. … Não deixava de se interrogar sobre: O que faz toda esta gente em Portugal? A que se dedicam? Como subsistem? Que valor acrescentam à economia de Portugal? Quem lhes cuida da saúde? Em que escolas estudam as suas crianças?
Centremo-nos na faceta mais anedótica: A 10 minutos de casa o João telefona à Sofia a pedir-lhe para se juntar com ele na ‘tasca’ do senhor Francisco. O meu amigo agrónomo ansiava por degustar uma sopa, umas migas, acompanhadas de lombo de porco e um tomate maduro cortado, temperado com sal grosso e umas gotas de azeite, como nós dois fomos instruídos a gostar.
À chegada, o chefe Francisco Pereira, com a mão sobre o ombro do João, perguntou: “Então, engenheiro tal foi…. Como estava Lisboa?”.
A resposta foi perspicaz: “Acabo de chegar a Portugal!”.
Dois ou três minutos depois, o gracejo repetia-se: João Maria, recebia a Sofia com um largo sorriso de taça de vinho na mão, soltando a expressão “Cheguei a Portugal!”
Para a próxima prometem-me umas fotografias panorâmicas.
Em Portugal, residentes estrangeiros são 14% da população. Há 170 mil irregulares. Este ano, foram notificados pelo menos 40 mil estrangeiros para deixarem Portugal voluntariamente. Contudo, em 2024, apenas aconteceram 1.570 deportações, ou seja, 3,75% do total das notificações já produzidas este ano.
Cabe aqui deixar alguns registos sobre as estatísticas que se podem obter relativamente a estrangeiros residentes em Portuga. Em 2024, ultrapassaram os 1,5 milhões de acordo com as inscrições facultadas pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) que indicava exactamente 1.543.697 cidadãos estrangeiros registados. Também no ano passado, em Portugal residiam 10.749.635 pessoas. As estatísticas mostram que os residentes estrangeiros são 14% da população portuguesa.
Já relativamente à obtenção da nacionalidade considerando a publicação no Instituto nacional de Estatística de Portugal – referidos num artigo publicado na Renascença online, em 14 de novembro último e assinado por Anabela Góis – o total das aquisições foi de 46.840 cidadão. Foram israelitas – maioritariamente sefarditas – que lideraram com 17.647 obtenções, enquanto os brasileiros surgem na segunda posição com 11.133 aquisições de nacionalidade. Os novos ‘portugueses’ destes dois países representam 61% do total de obtenções de nacionalidade em 2024. Com menor peso encontram-se cidadãos nascidos em Cabo-Verde (5%), Angola (5%), Guiné-Bissau (3%), México, Ucrania, Nepal, São Tomé, Argentina e India. Com 1% do total das obtenções de nacionalidade encontram-se cidadãos estadunidenses.

De qualquer modo, considerando a dimensão das comunidades, a lista apresenta outra reorganização: Brasil, que continua a ser a maior comunidade conhecida, India, Reino Unido, Cabo Verde, Itália, Angola, Ucrânia, Nepal, França, Roménia, Espanha, Alemanha e China.
Por outro lado, Portugal enfrenta o problema dos imigrantes irregulares: Estimam-se que ultrapassam os 170.000 que é aproximadamente o número de cidadãos que demonstrou intenção em regularizar a sua situação. E sabe-se que este ano (2025) já foram notificados pelo menos 40 mil estrangeiros para deixarem Portugal voluntariamente. Contudo, em 2024, apenas aconteceram 1.570 deportações, ou seja, 3,75% do correspondente ao total das notificações já produzidas este ano.
– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico) ▪ Fotografia da Mesquita dos Moinhos do Cruzeiro, em Odivelas







