Um natal de pobreza
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Um Natal de pobreza para muitas famílias portuguesas

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Por mais luzes que se acendam nas ruas, por mais montras enfeitadas com neve artificial e sons natalícios nos centros comerciais, há uma verdade que teima em não se esconder: o Natal de milhares de famílias portuguesas será, mais uma vez, um tempo de privações e de angústia. A quadra que deveria ser de alegria, de partilha e de esperança, é vivida com preocupação por quem não sabe como pagar a renda de casa ou garantir uma ceia própria da época que vivemos para os seus filhos.

E isto acontece no mesmo país onde, há poucos dias, se ouviu dizer com pompa e circunstância que a economia portuguesa está “de boa saúde”, impulsionada por forte crescimento do PIB, baixa inflação, melhoria dos rendimentos reais, alto emprego, dinamismo do turismo e finanças públicas sólidas. Mas a realidade quotidiana das famílias portuguesas não bate certo com este anúncio da revista “The Economist”. Se a economia está tão bem, porque é que muitos portugueses estão tão mal?

A resposta é simples: a economia pode crescer, mas se essa riqueza não for bem distribuída, se os salários continuarem baixos e os preços altos, o povo não beneficia de nada. A inflação, embora oficialmente controlada, continua a pesar no dia a dia – os preços dos alimentos, da energia e dos combustíveis mantêm-se elevados, corroendo os rendimentos e tornando cada ida ao supermercado um exercício de sacrifício para muitas famílias.

Atualmente, cerca de 20% dos portugueses vivem em risco de pobreza ou de exclusão social, o que afeta 2,1 milhões de pessoas, incluindo milhares que trabalham todos os dias. É a chamada pobreza dos trabalhadores, um fenómeno que se tem vindo a agravar, onde mesmo com um emprego a tempo inteiro, muitos não conseguem assegurar uma vida digna.

O custo da habitação tornou-se um pesadelo. Arrendar uma casa em Lisboa, Odivelas ou em tantas outras zonas urbanas é hoje impossível para grande parte das famílias. Um T2 simples ultrapassa com facilidade os mil euros de renda mensal — valor superior ao salário mínimo nacional. Comprar casa está fora do alcance da maioria, sobretudo dos mais jovens, que são empurrados para a emigração ou para a dependência dos pais. O mercado imobiliário está entregue à especulação, sem que os sucessivos governos tenham tido coragem ou vontade política de intervir de forma séria e eficaz.

Os serviços públicos, que deviam ser um pilar de apoio à população, estão em colapso. Na saúde, enfrentamos urgências encerradas, falta de médicos de família e listas de espera que se prolongam por anos. No ensino, há escolas degradadas, falta de professores e greves constantes que deixam alunos e pais num impasse. Os transportes públicos estão longe de ser uma alternativa fiável para quem precisa de se deslocar diariamente para o trabalho.

E tudo isto é vivido com um sentimento de injustiça. Porque o povo português é trabalhador, é resiliente, e não merece ser tratado com este desrespeito institucionalizado. Vive-se num país onde quem cumpre com os seus deveres vê os seus direitos ignorados. Onde os que pagam impostos são os que menos recebem em troca, ao passo que quem não contribui tudo recebe. Onde se enchem discursos de palavras bonitas, mas se ignora a dor concreta de quem vive com 900 ou 1.000 euros por mês.

Não basta agitar os cravos nas comemorações do 25 de Abril e celebrar a liberdade. A liberdade só é plena se trouxer justiça social, dignidade, condições básicas de vida. Celebrar Abril deve ser, mais do que uma liturgia ideológica, um compromisso com os valores da democracia e da justiça para todos. E isso implica garantir que nenhuma criança se deita com fome, que nenhum idoso tem de escolher entre comer ou aquecer a casa, que nenhum jovem é forçado a abandonar o país por falta de oportunidades.

Um natal de pobreza
Um Natal de Pobreza para muitas famílias Portuguesas

O povo português tem sido deixado para segundo plano, enquanto se dá prioridade a ideologias, clientelismos e interesses instalados. Gasta-se dinheiro em estudos, subsídios e propaganda, mas não se tomam medidas eficazes para resolver os problemas reais. O Estado tornou-se pesado para quem trabalha e leve para quem vive de expedientes, corrupção e apoios infindáveis. Falta coragem para fazer reformas estruturais. Falta sensibilidade para ouvir quem mais sofre. Falta honestidade para admitir que o modelo está esgotado.

Neste Natal, quando tantas famílias enfrentam dificuldades para comprar os brinquedos desejados pelos filhos, ou mesmo para pôr comida na mesa, é tempo de parar e refletir. Não podemos aceitar como normal que uma em cada cinco pessoas viva no limiar da pobreza ou da exclusão social. Não podemos habituar-nos à ideia de que os nossos idosos morrem sozinhos, que os jovens fogem e que o Estado é incapaz de proteger os seus cidadãos.

Mas apesar de tudo, há esperança. Há um Portugal que não desiste, que continua a lutar, que se une em solidariedade nos momentos difíceis. Há portugueses que, mesmo com pouco, ajudam os que têm menos. Há autarcas, movimentos cívicos, voluntários, instituições sociais que todos os dias trabalham para mitigar o sofrimento alheio. E há, sobretudo, um sentimento crescente de que é preciso mudar.

A mudança não virá de quem está há décadas no poder e nada fez para resolver os problemas. A mudança virá da coragem de dizer basta. De exigir políticas que coloquem os portugueses em primeiro lugar. De apostar na família, no trabalho, na justiça, na segurança e na dignidade. Um Portugal novo é possível — um país onde o Natal seja verdadeiramente um tempo de paz, não de angústia e de celebração das nossas tradições culturais e religiosas.

A todos os portugueses, desejo um Natal com o essencial: saúde, união e esperança. Que 2026 traga a força necessária para exigir mais, para fazer melhor, para reconstruir Portugal — com verdade, com justiça e com amor à nossa pátria.

– Fernando Pedroso, Vereador do CHEGA na CMO e Adjunto do Conselho Jurisdição do CHEGA

Autarquicas 2025

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