2025 foi um ano generoso
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2025: ficar de fora não era alternativa

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2025 foi um ano generoso.

Generoso em eleições, em opiniões fortes e em certezas ditas com convicção suficiente para dispensar factos. Ficar de fora não era alternativa: era preciso escrever, falar, opinar, incomodar — mesmo quando o barulho era tanto que por vezes parecia impossível distinguir a realidade da paródia. Aqui no NotíciasLX, também nos posicionámos. Escrevemos. Falámos. Foi muito, dirão uns. Outros dirão que rasgámos — e bem. É da vida, como diz o outro.

Houve eleições para todos os gostos: legislativas, autárquicas e, para alguns, eleições quase diárias nas redes sociais, onde cada publicação parecia um boletim de voto emocional. E como gostos não se discutem — lá diz o ditado — também não se discutiu muito o facto de mais de um milhão de portugueses terem votado no Chega. O povo é que sabe. Embora, olhando para o panorama geral, fique a sensação de que sabia mais no passado do que hoje, ou pelo menos sabia desconfiar melhor.

A democracia, essa, continua viva e recomenda-se, embora com sinais claros de cansaço. Talvez precise de férias. Ou de um manual de instruções atualizado.
Como se não bastasse a instabilidade política tradicional, 2025 ainda nos brindou com uma daquelas histórias que parecem inventadas numa reunião criativa que correu mal: a Spinuviva. Nome de foguetão, suplemento alimentar ou banda de rock progressivo, acabou por ser uma empresa — e não foi um foguete qualquer. Foi antes o estrondo que ajudou a espetar o governo no chão, provando que em Portugal a realidade continua a escrever guiões que nem a melhor sátira arriscaria publicar sem medo de processos.

E se falamos de cerejas no topo do bolo, não podemos esquecer o Ronaldo. O Primeiro-Ministro decidiu que “temos de ser como ele”, o que deixou muitos a perguntar se estávamos a falar de ética de trabalho, talento, ou simplesmente do hábito de fazer manchetes. Como sempre, o país dividiu-se: uns aplaudiram, outros suspiraram, e nós aqui continuámos a escrever sobre tudo — incluindo quando exemplos de vida se transformam em tema nacional de debate, ainda que ninguém consiga explicar muito bem o quê.

Escrevemos muito. Escrevemos sempre. E, claro, escrevemos com ajuda — porque em 2025 até o mais tradicional dos textos teve uma mãozinha do ChatGPT, nem que fosse para sugerir títulos improváveis ou imagens que não lembram a ninguém e parecem ter sido geradas durante um curto-circuito criativo.
Mas não ficámos só pela escrita. Porque se há coisa que virou moda este ano foi falar. Muito. Para microfones. Os podcasts multiplicaram-se: políticos a explicar o inexplicável, comentadores a comentar comentadores, cidadãos comuns elevados a especialistas universais. O importante não era o conteúdo — era ter visualizações. Muitas. Porque em 2025, existir sem métricas passou a ser quase um ato de resistência.

No meio do ruído, a realidade continuou a acontecer, muitas vezes fora do radar, à espera de quem tivesse tempo — e paciência — para olhar para ela sem filtros nem slogans. Falou-se muito de futuro, inovação e transparência, quase sempre com palavras grandes e resultados pequenos.
No fim, 2025 deixa um saldo curioso. Não foi um ano particularmente bom nem particularmente mau. Foi um ano barulhento. Um ano em que toda a gente teve opinião, palco e canal. Um ano em que o essencial competiu constantemente com o viral — e perdeu demasiadas vezes.
Para 2026 fica o desafio de sempre: menos ruído, mais memória e, se possível, algum sentido de humor. Porque se há coisa que este ano nos ensinou é que, sem ele, a realidade torna-se difícil de distinguir da paródia.

2025 foi um ano generoso
2025 foi um ano generoso

– Lurdes Gonçalves

Gestora de Empresas | Especialista em Economia Social

A colunista Lurdes Gonçalves

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