A República às Sextas — Manual de Primeiros Socorros para um Mundo sem árbitros
Quando um presidente decide que o direito internacional é um adereço dispensável e as fronteiras são um mero exercício de cartografia criativa, a política transforma-se em faroeste diplomático e nós em plateia cúmplice, entretida e inquieta.
A crónica começou com um sussurro: “precisamos da Gronelândia”. E continuou com um estrondo: a captura do Presidente venezuelano, transferido como encomenda urgente para Nova Iorque, enquanto os mercados – essa congregação de nervos – sobem e descem como se a moral tivesse cotação própria. A cada gesto, Donald Trump revisa o manual de regras do mundo e vai riscando capítulos: primeiro a Ucrânia, depois a Venezuela, amanhã (quem sabe) uma ilha coberta de gelo que, ao que parece, é apenas demasiado grande para caber na imaginação.
O discurso oficial surge embrulhado em léxico de tutela: “colocar a Venezuela a dar lucro”, como se um país fosse empresa em reestruturação e os seus cidadãos, linhas de Excel. O petróleo desvaloriza, o sector da defesa valoriza, e nós, cá deste lado, fingimos surpresa, como se a contabilidade geopolítica não fosse sempre feita com as colunas do costume. Até Delcy Rodríguez, elevada à condição de interina, tenta um tom conciliatório, enquanto toma posse perante um silêncio que cheira a pólvora diplomática.
Portugal, fiel ao seu artesanato de prudência, comenta de lado. Multiplicam-se apelos ao respeito pelo direito internacional, cuidadosamente redigidos para não melindrar o aliado maior, e invoca-se a “comunidade internacional” – essa entidade vaporosa que aparece sempre depois do facto consumado, como a brigada de limpeza à porta de um baile que correu mal. No Parlamento, umas vozes pedem libertações, outras pedem comedimento; todas parecem muito ocupadas em escolher a frase que sobreviverá às manchetes.
Entretanto, chegam notícias sombrias: mortos denuncia Cuba, ameaças sobre a Colômbia, um filho que promete resistência para que “não nos vejam fracos”. É a retórica das trincheiras – e também o teatro necessário para que ninguém se esqueça de onde está a câmara. A história do petróleo venezuelano, que já conheceu tempos áureos, é recitada como parábola de soberba e declínio, enquanto juristas recordam que as linhas vermelhas existem… até alguém decidir que eram apenas sugestões.
E nós, espectadores europeus, fazemos figura ridícula: denunciamos a ultrapassagem dos limites, mas continuamos a depender do mesmo guarda-chuva, esperando que a chuva caia sempre nas casas dos outros. Talvez seja por isso que, semana após semana, regressamos a esta crónica: para confirmar que a ironia ainda é um último gesto de lucidez num mundo que se habitua à força como a uma notícia de rodapé.
No final, fica a pergunta que ninguém gosta de ouvir: quando o direito se torna opcional e os mapas são rabiscados ao sabor da ocasião, quem resta para tocar a campainha do recreio? A resposta, temo, é tão desoladora quanto breve — e não vem nas Farpas.
— António de Queirós







