Depois da vitória: ocupação, resistência e diplomacia falhada (1967–1973)

A Guerra dos Seis Dias terminou com uma vitória militar inequívoca de Israel, mas abriu um período muito mais complexo e prolongado. A partir de junho de 1967, o conflito deixou de ser apenas uma disputa entre Estados para se tornar, de forma crescente, uma questão de ocupação territorial, autodeterminação palestiniana e impasse diplomático. O pós-guerra não trouxe estabilidade; trouxe uma nova normalidade feita de controlo militar, resistência armada e tentativas diplomáticas inconclusivas.

A ocupação como realidade permanente

Com o fim da guerra, Israel passou a controlar a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Gaza, o Sinai e os Montes Golã. O que inicialmente foi apresentado como uma situação transitória rapidamente ganhou contornos de permanência.

Na Cisjordânia e em Gaza, instaurou-se uma administração militar, com:

  • controlo de fronteiras, recursos hídricos e circulação de pessoas;
  • imposição de ordens militares sobre a população civil;
  • expropriação de terras por razões de “segurança”.

Em Jerusalém Oriental, Israel avançou com a anexação unilateral, expandindo os limites municipais da cidade e aplicando legislação israelita — uma decisão não reconhecida pela comunidade internacional, mas central para a política israelita nas décadas seguintes.


O início da política de colonatos

Ainda no final dos anos 1960 surgem os primeiros colonatos israelitas nos territórios ocupados, inicialmente apresentados como medidas de segurança ou iniciativas ideológicas isoladas. Com o tempo, tornam-se uma política estruturante.

Os colonatos tinham várias funções:

  • criar “factos consumados” no terreno;
  • garantir profundidade estratégica;
  • afirmar uma ligação histórica e religiosa à “Judeia e Samaria”, designação bíblica usada por setores israelitas para a Cisjordânia.

Este processo complicaria qualquer futura negociação, ao fragmentar o território palestiniano e criar uma população civil israelita sob proteção militar em áreas ocupadas.


Do choque árabe à reorganização palestiniana

A derrota de 1967 teve um impacto psicológico profundo no mundo árabe. A ideia de uma vitória militar conjunta sobre Israel revelou-se ilusória, levando a uma mudança estratégica.

É neste contexto que a OLP se transforma. Em 1969, Yasser Arafat assume a liderança, marcando uma viragem decisiva:

  • a causa palestiniana passa a ser conduzida por palestinianos, e não apenas instrumentalizada por Estados árabes;
  • a luta armada ganha centralidade;
  • a OLP procura reconhecimento internacional como representante legítima do povo palestiniano.

O foco desloca-se progressivamente dos exércitos regulares para a guerrilha, sabotagem e ações transfronteiriças.


Setembro Negro: a Jordânia como campo de batalha

A Jordânia tornou-se, após 1967, o principal palco das operações palestinianas contra Israel. A presença crescente da OLP e de grupos armados começou, porém, a desafiar a autoridade do rei Hussein.

Em 1970, o conflito latente explode no episódio conhecido como Setembro Negro. O exército jordano confronta diretamente as forças palestinianas, resultando em milhares de mortos e na expulsão da OLP para o Líbano.

Este momento marcou:

  • o fim da Jordânia como base principal da resistência palestiniana;
  • o início do envolvimento profundo do Líbano no conflito;
  • e uma nova dispersão da luta palestiniana pela região.

A Guerra de Atrito: conflito sem vitória (1967–1970)

Entre Israel e o Egito, o pós-1967 foi marcado pela chamada Guerra de Atrito, sobretudo ao longo do Canal de Suez. O objetivo egípcio era simples: desgastar Israel militar e psicologicamente, forçando concessões territoriais.

Bombardeamentos, escaramuças e ataques aéreos tornaram-se rotina. Embora Israel mantivesse superioridade militar, o custo humano e económico aumentava. O conflito terminou em 1970 com um cessar-fogo frágil, sem resolver a questão central: a devolução do Sinai.


Diplomacia bloqueada e a ambiguidade da Resolução 242

Apesar da Resolução 242 da ONU, os anos seguintes foram marcados por negociações indiretas, iniciativas falhadas e desconfiança mútua.

Os países árabes exigiam retirada total dos territórios ocupados; Israel insistia em fronteiras seguras e reconhecimento prévio. Nenhuma das partes estava disposta a dar o primeiro passo sem garantias concretas.

A comunidade internacional, dividida pela Guerra Fria, limitava-se a gerir crises, não a resolvê-las. O conflito congelava-se, mas não desaparecia.


O Líbano: novo palco da instabilidade

Após a expulsão da OLP da Jordânia, o Líbano tornou-se o novo centro das operações palestinianas. A fragilidade do Estado libanês e o equilíbrio delicado entre comunidades religiosas criaram um ambiente propício à instabilidade.

A presença armada palestiniana no sul do país gerou:

  • ataques contra Israel;
  • represálias israelitas em território libanês;
  • tensões internas que contribuiriam para a futura guerra civil libanesa.

O conflito israelo-palestiniano passava, assim, a entrelaçar-se cada vez mais com crises regionais.

Depois da vitória: ocupação resistência e diplomacia falhada
Depois da vitória: Ocupação resistência e diplomacia falhada

O caminho para uma nova guerra

No início da década de 1970, tornava-se claro que o statu quo era insustentável. Para o Egito e a Síria, a ocupação prolongada era politicamente intolerável; para Israel, a manutenção dos territórios parecia garantir segurança, mas ao custo de isolamento diplomático crescente.

As peças voltavam a mover-se no tabuleiro regional. Sob a superfície de cessar-fogos e negociações discretas, preparava-se um novo confronto — desta vez planeado com mais cuidado, menos retórica e objetivos militares limitados.

Esse confronto chegaria em outubro de 1973.


Referências

(seleção histórica e bibliográfica)

  • Rashid Khalidi, The Iron Cage: The Story of the Palestinian Struggle for Statehood.
  • Avi Shlaim, The Iron Wall: Israel and the Arab World.
  • Benny Morris, Righteous Victims.
  • Yezid Sayigh, Armed Struggle and the Search for State.
  • Documentos das Nações Unidas, Resolução 242 e relatórios do pós-1967.
  • Arquivos históricos sobre o Setembro Negro e a Guerra de Atrito.

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