Cripto-identidade: quando a identidade digital é portátil, privada e soberana

Está a emergir um novo paradigma: a cripto-identidade, também conhecida como Identidade Digital Soberana (Self-Sovereign Identity – SSI). Um modelo que inverte completamente a lógica dominante nas últimas décadas.

Durante anos, a identidade digital foi construída de forma fragmentada e frágil. Havia utilizadores diferentes para cada serviço, passwords reutilizadas, bases de dados dispersas e milhões de registos pessoais armazenados em sistemas centrais. Cada novo login passou a ser mais um ponto de falha. Cada base de dados centralizada, um alvo apetecível para ataques, fugas de informação e abuso de dados. Aceitámos este modelo como inevitável, mas ele está a chegar ao fim.

Está a emergir um novo paradigma: a cripto-identidade, também conhecida como Identidade Digital Soberana (Self-Sovereign Identity – SSI). Um modelo que inverte completamente a lógica dominante nas últimas décadas. Em vez de a identidade pertencer às plataformas, aos serviços ou às organizações, passa a pertencer ao próprio cidadão. Os dados pessoais deixam de estar “guardados” em dezenas de sistemas e passam a estar sob controlo direto do utilizador, que decide quando, como e com quem os partilha.

Neste novo modelo, a identidade torna-se portátil. A mesma identidade pode ser usada em serviços públicos e privados, e até em contextos transfronteiriços, sem necessidade de criar contas repetidas ou fornecer novamente a mesma informação. A privacidade deixa de ser um complemento e passa a ser o padrão. Em vez de partilhar dados completos, partilha-se apenas o estritamente necessário: provar que se é maior de idade sem revelar a data de nascimento, confirmar uma habilitação sem expor todo o histórico pessoal.

Outro ponto de rutura é o fim das passwords como as conhecemos. A autenticação passa a assentar em chaves criptográficas, muito mais robustas e resistentes a ataques de phishing e a roubo de credenciais. Isto não só aumenta drasticamente a segurança, como também simplifica a experiência do utilizador e reduz custos operacionais associados à gestão de identidades.

A cripto-identidade já está a ganhar tração em vários setores. Nos serviços públicos digitais, permite identidades únicas, seguras e interoperáveis. Na banca e nas fintechs, acelera processos de “KYC – Know your customer” e torna-os reutilizáveis. Na saúde, possibilita o acesso a dados clínicos com consentimento granular e controlado. Na educação, diplomas e certificações passam a ser verificáveis digitalmente. No trabalho, as credenciais profissionais tornam-se portáteis, acompanhando a pessoa ao longo da sua carreira.

Mas é importante sublinhar: a cripto-identidade não é apenas uma evolução tecnológica. É uma redistribuição de poder no mundo digital. Quem controla a identidade controla o acesso, a reputação e a participação económica e social. Num futuro próximo, quem não controlar a sua própria identidade digital será apenas um utilizador de plataformas, não um verdadeiro cidadão digital.

cripto-identidade
cripto-identidade

As organizações enfrentam agora uma escolha estratégica. Continuar a gerir identidades como nos anos 2000, com passwords frágeis e bases centralizadas, ou preparar-se para um mundo de identidades soberanas, interoperáveis e sem passwords. A cripto-identidade não é uma moda passageira. É a base de uma nova arquitetura de confiança para a economia digital. E quanto mais cedo for compreendida, mais preparada estará a sociedade para este novo equilíbrio entre segurança, privacidade e autonomia.

– Rui Ribeiro

Consultor Transformação Digital e Professor Universitário

link pessoal no Linkedin

Artigos de “Digital a Transformar”

- Pub -
Rui Ribeiro
Rui Ribeiro
Consultor Transformação Digital e Professor Universitário

Ler Mais

Últimas