Portugal registou mais emissões na eletricidade em 2025 após estagnação das renováveis

O consumo de eletricidade atingiu um novo máximo histórico em 2025, mas o crescimento das renováveis não acompanhou a procura, levando a um maior recurso ao gás natural e a um aumento estimado de um milhão de toneladas de CO₂ no sistema elétrico nacional.

Portugal produziu mais eletricidade a partir de gás natural em 2025 devido ao aumento do consumo e à estagnação das renováveis, segundo dados divulgados pela associação ambientalista ZERO, o que resultou num acréscimo significativo das emissões de dióxido de carbono no setor elétrico.

Consumo elétrico em máximos históricos

O ano de 2025 ficou marcado por um novo recorde no consumo de eletricidade em Portugal, que atingiu 53,1 terawatts-hora (TWh), mais 3,2% do que em 2024. Este aumento da procura não foi acompanhado por um crescimento equivalente da produção renovável, levando a um maior recurso a centrais termoelétricas a gás natural.

De acordo com a associação ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, esta evolução terá resultado num acréscimo estimado de cerca de um milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) face ao ano anterior. A organização alerta que esta inversão pode comprometer a tendência de redução das emissões totais do país, que nos últimos anos tinha sido impulsionada sobretudo pelo setor elétrico.

Renováveis cresceram menos do que a procura

Apesar de a produção de eletricidade renovável ter atingido um valor absoluto recorde de 37 TWh, o crescimento foi residual em comparação com 2024. Na prática, a produção renovável estagnou enquanto o consumo continuou a aumentar.

Como consequência, a percentagem de eletricidade de origem renovável no consumo total desceu de cerca de 70% em 2024 para 68% em 2025, interrompendo uma trajetória de reforço contínuo das fontes limpas no sistema elétrico nacional.

Apagão e maior dependência do gás natural

A ZERO aponta ainda o impacto do apagão de 28 de abril como um fator agravante. Após esse episódio, e por razões associadas à segurança do abastecimento e à redução das importações de eletricidade de Espanha, verificou-se um aumento significativo da produção elétrica a partir de gás natural.

Em 2025, a produção com base neste combustível fóssil totalizou 7,9 TWh, mais 54% do que no ano anterior, evidenciando, segundo a associação, a vulnerabilidade do sistema elétrico sempre que as renováveis não conseguem responder ao crescimento da procura ou a situações excecionais.

Entraves travam o solar e o eólico

No que respeita à instalação de nova capacidade, a ZERO identifica um abrandamento claro no crescimento do solar fotovoltaico, tanto em projetos centralizados como descentralizados, bem como uma relativa estagnação no reequipamento de parques eólicos.

Entre as razões apontadas estão entraves administrativos e dificuldades económicas. Apesar de existir um volume significativo de projetos licenciados, muitos não avançam devido à baixa remuneração da produção fotovoltaica, agravada pela falta de soluções de armazenamento e por limitações na rede ibérica que dificultam a exportação de excedentes de energia.

Armazenamento e redes como fatores críticos

A associação considera decisiva a conclusão da Avaliação Ambiental Estratégica das Áreas de Aceleração de Renováveis, atualmente em curso, para identificar zonas com menor risco de conflito ambiental e social. Defende também a necessidade de uma estratégia nacional para o armazenamento de eletricidade, com o objetivo de cumprir a meta de 2 gigawatts de baterias prevista no Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC).

Paralelamente, a ZERO sublinha a urgência de reforçar as redes elétricas e acelerar as interligações com Espanha, consideradas fundamentais para integrar maiores volumes de produção renovável, reduzir o recurso a combustíveis fósseis e limitar as emissões do sistema elétrico.

Eletrificação não garante, por si só, descarbonização

O crescimento do consumo elétrico reflete, em parte, a eletrificação de alguns setores da economia. Portugal conta atualmente com mais de 200 mil veículos elétricos, e o consumo de gás natural fóssil, butano e propano registou descidas nos setores industrial, residencial e de serviços ao longo de 2025.

No entanto, a ZERO alerta que a eletrificação só contribui para a descarbonização se for acompanhada por uma expansão mais rápida das renováveis, por investimentos em redes, mecanismos de flexibilidade, armazenamento de energia e uma gestão mais eficiente da procura. Caso contrário, o aumento do consumo elétrico continuará a ser parcialmente satisfeito por gás fóssil, colocando em risco os objetivos climáticos nacionais.

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