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Presidenciais, 2026!

Presidenciais 2026
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Ontem, dia 18 de janeiro de 2026, tivemos, finalmente, o epílogo da primeira volta das eleições presidenciais, que mais não foram que o prelúdio da segunda volta, algo que já não acontecia desde 1986, há mais de 40 anos.

Já então, os “admitidos”, á segunda volta, personificavam campos políticos bem delimitados e opostos – por um lado Freitas do Amaral pela direita política, e Mário Soares pela esquerda política.

Quando assim é, o jogo eleitoral, assemelha-se a um processo de recursos humanos, tendo uma primeira fase – o recrutamento – com a admissão de várias candidaturas a jogo, chanceladas pelo tribunal constitucional, e uma segunda fase – a selecção – a escolha do vencedor, a cargo do povo, de entre os admitidos ao processo. Neste caso, como há 40 anos, a “selecção”, tem duas provas, a oral e a escrita.

Ontem os resultados foram surpreendentes, para quase todos os incumbentes, na medida em que alguns, sabia-se, estavam apenas a fazer o “frete” ao respectivo partido, e a missão era consolidar posições e quiçá aumentar a “quota” eleitoral, do respectivo partido, aproveitando a oportunidade que uma campanha sempre possibilita, qual “prova de vida”, tal foi o caso, de Catarina Martins, pelo Bloco, com 2,05%, António Filipe pelo PCP, com 1,65%, e Jorge Pinto, pelo Livre, com 0,68%.

Manuel Vieira, com 1,08%,e Humberto Correia, com 0,08%,tinham motivações meramente pessoais, e a André Pestana, com 0,19%, professor, certamente motivações de cariz sindical não lhe seriam estranhas.

Mas só havia lugar para um ou dois recipiendários, e a percentagem de votos angariados ditou que fossem dois – António José Seguro, com 31,21%, e André Ventura, com 23.29%.

Em bom rigor a surpresa não terá sido quem passou á segunda volta, mas sim quem ficou pelo caminho, e por esta ordem: Cotrim Figueiredo, co 16.01%, Gouveia e Melo, com 12,41%, e Marques Mendes, com 11,24%

De todos os resultados destacaram-se, pela sua preocupante e sistemática reincidência – a abstenção (47.35% – 5.250.099), sem esquecer os votos brancos (1.06% – 61.226) e os votos nulos (1.13% – 65.381).

É absolutamente incompreensível a razão que leva a que cinco milhões, duzentos e cinquenta mil, e noventa e nove portugueses, desprezem assim tanto o interesse nacional e se demitam do seu dever. Conta assim tão pouco, para esta metade de compatriotas, a Portugalidade?

E que dizer dos mais de 112 mil compatriotas (brancos somados aos nulos), que tendo-se dado ao trabalho de se dirigirem a uma secção de voto, para apenas dobrarem o boletim de voto em quatro (uns, os brancos) ou para fazerem uns desenhos, ou inscreverem uns palavrões, ou ainda para dar azo á sua capacidade criativa no desenho (outros, os nulos).

Isto reflete um País ”doente”. Isto tem de nos incomodar a todos.

Vamos então às grandes surpresas da noite de ontem, e a imagem que me suscitam essas surpresas são de natureza antropomórfica:

A Fénix – animal mitológico que renasce das cinzas, rejuvenescido e em todo o seu esplendor, tal se aplica a António José Seguro. Tendo sido um proeminente dirigente do Partido Socialista, deputado á Assembleia da República, e ao Parlamento Europeu, foi ministro de António Guterres, de quem se dizia ser um dos seus Delfins, e chegou a Secretário Geral do PS, perdendo no braço de ferro com António Costa, retirou-se da vida política para se dedicar ao empreendedorismo familiar, e dar aulas, durante uma década, afastado da ribalta político / partidária.

Os incautos, ou ingénuos, vaticinaram-lhe o enterro político, e surpreendentemente, provando a máxima de que “em política ninguém morre definitivamente”, surge, a anunciar a sua candidatura, suprapartidária, para desprezo de ódios viscerais que lhe votavam certas figuras socialistas, agoniadas com este “renascimento” de Seguro, que acabaria de se impor ás indecisões do seu antigo partido, e não só, qual Fénix. E acabou em primeiro lugar da primeira volta.

O Castor – não era por acaso que o símbolo da universidade independente era este animal, esta universidade tinha nas engenharias o seu “cuore”, porque ao Castor se lhe reconhece habilidades de construção ímpares no mundo animal, é um construtor, um fazedor por natureza, e quer se queira, quer se não queira, essa característica está indelevelmente colada a André Ventura. Não me ocorre exemplo semelhante ao líder do CHEGA, que tendo saído, em desacordo com o partido onde militava (PSD), cujos desencontros, enquanto vereador em Loures, com a direcção nacional do PSD, o levaram a sair e a fundar um partido político.

Não foi caso único no PSD, já Santana Lopes o fizera antes dele, quando criou o “Aliança”, mas com resultados pirricos.

Em seis anos, o CHEGA, de André Ventura, passa de uma representação parlamentar (ele próprio), para 60, e ontem regista, com estrondo, no seu curriculum, uma presença na segunda volta, marcada para dia 8 de fevereiro. É absolutamente assinalável. Nenhum dos seus detratores, internos ou externos, alguma vez fez, ou se aproximou, ainda que ao de leve, dos resultados que alcançou.

Melga – este animal é conhecido por ser um incómodo para toda a gente, e Cotrim Figueiredo, um dos fundadores da Iniciativa Liberal, um novel partido na nossa cena política, também seu antigo Presidente, resolveu largar, temporariamente, o conforto do Parlamento Europeu, e adentrar na “briga” presidencial. Foi visto pela restante direita, área política onde se insere o IL, como um incómodo, uma espécie de intruso no xadrez nacional. Foi vítima da comunicação social, em especial das televisões, que o afastaram dos palcos dos debates, convencidos que estavam da insignificância de Cotrim. Isto demonstrou à saciedade, e á sociedade, como se catequisa o eleitorado, ou não fossem as Tv’s as campeãs dasnovelas de faca e alguidar, e do entretenimento anestesiante das massas. A ironia é que Cotrim, ele próprio, fora Director Geral de uma dessas televisões, e sentiu na pele o “monstro” que ajudou a alimentar.

Mas nem tudo são cardos, Cotrim teve o entusiástico apoio de alguns opinadores, daqueles que gostam de dizer aos políticos o que devem fazer.

Ficou pelo caminho. O terceiro lugar dá-lhe a consolação de pelo menos ir receber uma subvenção suficiente para pagar as despesas de campanha.

Mas sempre pode seguir o exemplo do Castor (André Ventura), que nas últimas presidenciais também teve a medalha de bronze, e hoje é o que se vê.

O Tubarão – este animal é um peixe que nos mares está no topo da cadeia alimentar, nas águas é um animal excecional, uma arma letal, qual torpedo assim que “fixa” o seu alvo.

Assim é o Almirante Gouveia e Melo, conhecido por alguns feitos militares na marinha de guerra portuguesa (quando num célebre exercício militar da NATO, aos comandos do submarino português, obsoleto e antigo, “afundou” o navio almirante, para espanto do comandante americano, que quase se engasgou com o seu donuts, tal a surpresa, ou o record de dias de submersão, ou o trânsito sob a calota polar, etc). Como submarinista pode-se dizer que era letal. Um Tubarão, nas águas.

O sucesso granjeado no combate ao Covid, graças á capacidade e génio no planeamento, algo tantas vezes, apontado como lacuna aos portugueses, injustamente, porque foi precisamente nesse plano que Portugal deu novos mundos ao mundo, na pena de Camões, o senhor Almirante arrumou o camuflado, e entregou o uniforme de gala branco á naftalina, e apresentou-se, sem guia de marcha, ás presidenciais. Tudo indicava que iria ser um passeio pelo tejo, cabelos ao vento e maresia inchando as narinas.

Seguro vaticinou que assim que começasse a campanha o Almirante afundar-se-ia. Seguro. E foi o que se viu. O Tubarão morre de duas maneiras: quando se deita de barriga para cima, afoga, ou quando está fora das águas. Foi o que aconteceu ao Almirante – veio para terra e deitou-se á sombra da bananeira. Que saudades do mar … ouviu-se ontem num determinado hotel.

O Dinossáurio – Este animal pertence a uma espécie extinta, tem demasiada idade para andar nestas correrias, mas a política é o “demo”, e fia sempre bem fechar com chave de ouro uma carreira política, por isso Marques Mendes, lá avançou para o que seria a sua última corrida, para o apetecido lugar cimeiro da república.

Também ele foi tudo na política, deputado, ministro, Presidente do PSD, e nos últimos anos, num mimetismo inspirado em Marcelo Rebelo de Sousa, que nos entrava pelos olhos dentro, na catequese semanal do espaço de opinião nas Tv’s, achou que isto eram favas contadas. As sondagens chegaram a darem-no em primeiro lugar, e quase todas o punham na segunda volta.

O erro que mais o dilacerou mortalmente, foi quando ainda o Almirante não tinha oficializado a sua candidatura e já Marques Mendes sentenciava que o Almirante era um risco para a democracia. O Tubarão “fixou” o alvo instantaneamente. O submarinista fez o “targeting”, deu ordem de disparo e o torpedo “caçou” Marques Mendes no debate mano a mano, chapando-lhe o labéu de “facilitador de negócios”, apodo que não mais o largou.

O prémio “cebola” foi claramente para o dinossauro. O espanto pelo resultado é incomensurável. Nem nos piores pesadelos se adivinharia tal coisa. A política, como futuro, mostra-se agora sombria, falhou com estrondo a candidatura, e vai ser escorraçado do Conselho de Estado, e com isso lá se vai um dos meios que melhor sustentava a condição de “facilitador”. A vida é uma soda, já dizia o Fócrates, terá ele pensado.

Tirando o que se expôs sobre o dia de ontem, resta uma última nota, cuja semelhança com o desinteresse de quase metade dos portugueses nas presidenciais, é inegável, é a circunstância das queixas de um espectro ao outro da sociedade baterem na mesma tecla: A campanha no geral, mas muito em especial os debates televisivos, não forma nada esclarecedores.

E isto é a mais singela das verdades, quem é que ficou esclarecido com os debates que as Tv’s, todas, nos proporcionaram? Ninguém.

E de quem é a culpa? Não é dos portugueses, mas sim dos iluminados jornalistas, arvorados em pivots, cujas perguntas eram materialmente de uma confrangedora mediocridade, demonstrando a impreparação, mas pior, a ignorância em razão de matéria por parte de profissionais da comunicação, mais preocupados em “dar nas vistas” numa espécie de campeonato “vamos lá ver quem é mais eficaz em anular o candidato”, do que em esclarecer os projetos dos candidatos para a Presidência da República.

As Tv’ deviam separar o trigo do joio, e assumir que o cometário político é para especialistas em política ou comunicação política, e o jornalismo é para profissionais de comunicação.

Confundir a estrada da beira com a beira da estrada, é o erro grosseiro em que os iluminados das nossas TV’s estão a fazer, assim como podem os portugueses ficar esclarecidos?

Oliveira Dias, Politólogo

Resultados 1ª Volta Presidenciais 2026

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