O Tribunal dos Comentadores: Quando a Opinião Pública Atropela a Democracia
Nas anteriores eleições legislativas e agora, em plena campanha para as presidenciais, tem-se assistido a um fenómeno recorrente: a avaliação dos debates por jornalistas e comentadores que, em direto ou nos dias seguintes, se dedicam a atribuir notas e opiniões categóricas, pretensamente sábias e eruditas, sobre quem venceu ou perdeu determinado confronto televisivo.
Este comportamento, que se tornou um ritual das televisões portuguesas, merece uma reflexão crítica e fundamentada.
Aos jornalistas, no exercício da sua profissão, exige-se ética, imparcialidade e rigor informativo. Aos comentadores, muitas vezes com ligações partidárias claras ou assumidas, é permitido que falem e opinem a partir da sua própria perspetiva.
Contudo, é importante salientar que não existe qualquer certificação ou credenciação oficial que habilite jornalistas e comentadores a funcionarem como jurados de eleições políticas. Talvez esteja aqui uma oportunidade para as universidades portuguesas desenvolverem um curso, mestrado ou pós-graduação nesse domínio. Seria, certamente, uma formação com grande procura entre aspirantes a comentadores, sejam ou não jornalistas, interessados em conferir coerência às suas inclinações ideológicas.
As “notas” atribuídas aos candidatos são altamente subjetivas e sem qualquer base técnica e científica. Servem mais para reforçar narrativas pré-concebidas do que para informar de forma isenta. Essa subjetividade prejudica sistematicamente determinados candidatos.
Este desequilíbrio torna-se ainda mais evidente se analisarmos o caso de André Ventura, cuja prestação em debates é frequentemente considerada negativa ou derrotada por grande parte dos comentadores e jornalistas. Os resultados eleitorais de André Ventura têm vindo a crescer de forma expressiva, com um aumento progressivo do número de deputados: inicialmente um, depois 12; 50 e, atualmente, 60. Este crescimento sugere que o eleitorado não partilha da mesma avaliação de jornalistas e comentadores.
A prática de atribuir notas aos debates políticos tem vindo a ser usada como um instrumento de manipulação do eleitorado.
Por isso, é essencial questionar a forma como este tipo de avaliações está a ser feito durante o período das campanhas eleitorais. Não se trata de advogar a proibição do comentário ou do silenciamento das opiniões que são pilares indiscutíveis de qualquer democracia saudável. Trata-se, sim, de exigir uma clarificação ética e uma maior transparência de conteúdos.
A liberdade de expressão não deve servir de cobertura para a transformação do jornalismo informativo num tribunal de opiniões pré-fabricadas, onde o veredito precede o próprio debate. O que se questiona não é o direito à opinião, mas a sua apresentação como verdade técnica ou científica num período em que o eleitor carece, acima de tudo, de factos para formar o seu próprio juízo.
Durante as campanhas eleitorais, as sondagens feitas por empresas certificadas e com metodologias transparentes constituem, em teoria, a forma mais rigorosa de aferir tendências eleitorais. Baseiam-se em dados sólidos e em critérios técnicos validados.
Os jornalistas e comentadores não devem assumir o papel de adeptos de bancada que gritam e pressionam o árbitro no sentido de influenciar o resultado do jogo. Este comportamento contribui para o crescente descrédito de alguma comunicação social. Sentindo-se pouco representadas ou mal informadas, muitas pessoas refugiam-se nas redes sociais, onde procuram outras perspetivas.
Esta situação, embora compreensível, pode agravar a desinformação, mas é resultado da falta de confiança na comunicação social tradicional. Foge-se de comentadores “sábios” para se cair em algoritmos tendenciosos.
A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que deveria atuar como guardiã da independência e da pluralidade na informação, tem falhado em impor limites claros nestas situações. Era expectável que zelasse por um tratamento equitativo dos candidatos e promovesse regras mais rigorosas para comentários eleitorais, sobretudo em períodos de campanha.
A prática de avaliar debates eleitorais por jornalistas e comentadores, imediatamente a seguir aos debates televisivos, deve ser regulamentada. Não apenas pela falta de credenciação e pela subjetividade dos critérios utilizados, mas sobretudo porque tal comportamento pode distorcer a perceção dos eleitores e afetar a integridade do processo democrático.
O foco deve estar na informação rigorosa, na imparcialidade e na responsabilidade social dos meios de comunicação. Em tempo de eleições, mais do que nunca, é fundamental garantir que o voto dos portugueses seja livre, consciente e não condicionado por opiniões travestidas de análise política.
A democracia fortalece-se quando o debate político é conduzido com transparência, pluralismo e respeito pelo discernimento dos cidadãos.
– Fernando Pedroso, Vereador do CHEGA na CMO e Adjunto do Conselho Jurisdição do CHEGA

