Portugal sob o Azul Celeste
O pais da costumeira calhandrice e maledicência dá-se mal com o azul celeste.
A cidadã Margarida Maldonado Freitas, uma senhora, não é “apenas” a atual esposa do Presidente da República e mãe dos seus dois filhos. Margarida é a mulher empresária, formada em Farmácia, herdeira e gestora de várias farmácias, filha de uma excelsa família republicana das Caldas da Rainha.
Margarida teve a “ousadia” de vestir na tomada de posse do seu marido, no mais alto cargo da Nação, um vestido com a assinatura de um estilista e, alegadamente, de um valor a ronda os 5 mil euros. Um ato “escandaloso” que obrigou a imprensa especializada dos opinadores da desgraça especializados em decotes, pulseiras, mini saias e cabeleireiros, a mobilizarem-se.
Incomoda. Sim uma mulher adulta, com carreira própria, que mais do que “provavelmente” ganha o suficiente para comprar quantos vestidos quiser por vontade própria e sem “ter de pedir autorizações” ao país machista, convenhamos, é chato!…
E, provavelmente, é isso que incomoda. Uma Mulher ter vida, voz e opinião própria!
Assim continuamos a caminhar, num país parolo, onde o preço de um vestido provoca mais indignação mediática do que os escândalos financeiros, a corrupção, as falências de Bancos, as imparidades alienadas a pataco entre amigos e de cujas consequências, ainda, TODOS continuamos a pagar, ou – ainda – onde se ganham eleições com a promessa de que se vai resolver as urgências médicas no país em 60 dias e – passados mais de 2 anos – o problema não só não está resolvido com se tem agravado.
E seria falta de atenção não ter reparado que esta calhandrice se passou – apenas um dia depois – das comemorações e discursos inflamados sobre o justo Dia da Mulher, com os costumados milhares de clichês sobre a sua emancipação e sem consequências na sociedade Portuguesa sem que se deslumbre um caminho com vista à igualdade de oportunidades, salários e respeito entre Homens e Mulheres. Exemplos? Apenas “pego” no seguinte: segundo dados da PRODATA de 2024 existe um universo de 191.519 Professores (excetos os do ensino privado) a prestarem ensino nas nossas escolas oficiais. Destes 28,3% são homens e 71,7% são mulheres, ou seja, há um rácio de 1 homem para 2,5 mulheres. Pois bem atentos estes números a maior federação sindical de professores a FENPROF – Federação Nacional dos Professores que integra sete grandes organizações sindicais de professores, de norte a sul do país, ao fim de 18 anos consecutivos, com o mesmo secretário-geral Mário Nogueira elegeu em 2025 o seu novo Secretariado Nacional, composto por 29 professores entre os quais 18 são homens e 11 são mulheres, com a particularidade de o cargo de secretário-geral ser agora bicéfalo e quando se podia esperar que, no mínimo representa-se a igualdade de oportunidades eis que são eleitos dois homens Francisco Gonçalves e José Feliciano Costa. Nada contra os senhores eleitos, que nem os conheço, mas ….os exemplo diz muito.
E voltando à saga azul celestial o que muito certamente tem vindo a incomodar a pacatez saloia é o facto de passar a haver uma mulher com vida e carreira própria e republicana que “ousa” denunciar a inexistência de um enquadramento jurídico no ordenamento constitucional, para o estatuto de “primeira-dama” recusando, por isso, ser objeto decorativo na sua assunção.
Num mundo cheio de guerras, crises e desigualdades, há pedradas no charco que são reconfortantes.
Já agora e antes que me esqueça: Tal como já havia sido usado por outras figuras de primeira linha como Melania Trump, Brigitte Macron, Kate Middleton, Carolina do Mónaco, assim como a Rainha Isabel II na visita oficial a Portugal em 1985 a cor usada foi a do azul celeste (nada de confundir com aproximações clubísticas). O azul é tradicionalmente associado a valores como estabilidade, confiança e serenidade e isso sentiu-se nesta tomada de posse e, espero, se mantenha ao longo do mandato que agora se iniciou.
Houve um casaco sem adornos permitindo o destaque dos seus 3 botões da magnifica e única filigrana que são a marca d’água dos corações de Viana e, permitam-me, de Portugal. Gostei.
Margarida Maldonado Freitas, farmacêutica, empresária merece e honra uma família que foi referência democrática na zona Oeste durante a ditadura quando o seu avô Custódio cedeu o casarão na Foz do Arelho para filhos dos presos políticos de Peniche gozarem alguns dias de descanso, naquilo que ficou conhecido como as “férias da liberdade”, tendo vindo a sofrer a perseguição da ditadura fascista. Aquela ditadura que agora parece estar na moda quer ser branqueada.
Este episódio diz menos sobre o vestido, o preço ou a cor, mas muito mais sobre um problema profundo da sociedade atual: a falta de verdadeiro espírito crítico. Não aquele que analisa, questiona e contribui para melhorar a sociedade mas a crítica fácil, mesquinha e superficial, que apenas berra e alimenta o ruído.
Como escreveu António Lobo Antunes (1942-2026) “…muitas vezes a sociedade prefere a mediocridade confortável à exigência do pensamento. Em vez de valorizar o trabalho, a independência e o percurso de quem constrói a sua vida com esforço próprio, cultiva-se a suspeita e a crítica pequena. E quando isso acontece, instala-se uma cultura de desconfiança e de nivelamento por baixo.”

E assim caminhamos, num país pacóvio, onde o preço de um vestido provoca mais indignação mediática do que o encerramento da Pediatria nos Hospitais, os recorrentes nascimentos nas ambulâncias, o aumento de cidadãos sem médico de família, o caos instalado no SNS parecendo quer que há uma conduta propositada para a sua privatização, os escândalos financeiros e corruptivos que já se assumem como o novo-normal, o anátema sobre a população emigrante sem a sua mão de obra grande parte do nosso sistema produtivo na agricultura e nos serviços de hotelaria, nas entregas de comida/serviços em casa (este comodismo dos novos dias) colapsava.
José Manuel Graça
Ex-Vereador na Câmara Municipal de Mafra,
Membro efetivo do CES – Conselho Económico e Social
Presidente da Direção de uma IPSS
Ex-Membro da Comissão Nacional do PS
Técnico de Contabilidade e Finanças

