Determinação de Questionar | Cartas a Ana Carina Castanheira, Uma Pessoa Livre
Determinação de Questionar
Cara Ana Carina Castanheira,
Escrevo-lhe não para pedir contas, mas para celebrar uma qualidade que em política se tornou quase exótica: a liberdade. Dizem que é uma pessoa livre — e isso, em Odivelas, já é quase uma afronta.
Escrevo-lhe não para cobrar, mas para saudar. Dizem — e repete-se com alguma reverência — que é uma pessoa livre. E essa palavra, “livre”, tem hoje uma raridade quase arqueológica. Em política local, sobretudo, é mais fácil encontrar um regulamento de trânsito atualizado do que um espírito verdadeiramente independente.
Falo-lhe de liberdade, sim, mas não da retórica de campanha nem da liberdade de votar a favor “por disciplina de grupo”. Refiro-me à liberdade interior, àquela que incomoda, que pergunta, que levanta a mão quando todos baixam os olhos. Essa liberdade é a que faz falta em Odivelas, onde a transparência se tornou um conceito tão vaporoso quanto o nevoeiro que cobre o vale do Trancão nas manhãs de inverno.
Ao longo dos mandatos, multiplicaram-se votos de pesar, louvores e moções, mas faltou um pequeno gesto de transparência: saber quem apoia, quanto apoia e com que critérios apoia a comunicação local.
Num concelho onde o pluralismo deveria ser reflexo da cidadania, a política de comunicação é, paradoxalmente, um segredo bem guardado.
Determinação de Questionar
O que nunca se quis ver
Ao longo dos anos em que tem assento no órgão deliberativo do Município, houve tempo e ocasião para tudo: moções de saudade, votos de pesar, dias municipais de quase tudo. Faltou apenas um pequeno exercício de cidadania — perguntar, com a serenidade de quem serve o público:
Porque razão não há uma política transparente e pública de apoio à Comunicação Social local?
Não é pergunta inocente.
Os jornais, rádios e fóruns digitais de Odivelas vivem numa penumbra orçamental: ninguém sabe quem apoia, quanto apoia e com que critérios se apoia. É o oposto do que se exige a uma democracia que proclama pluralismo.
Sem imprensa livre, não há escrutínio. E sem escrutínio, o poder torna-se confortável — demasiado confortável.
Não se pede que denuncie, apenas que pergunte. E que o faça em público — onde a democracia vive e onde o silêncio mata. Porque a opacidade, cara Ana Carina Castanheira, é o veneno mais discreto da política: não tem cheiro, não faz barulho, mas corrói tudo o que toca.
O dever de questionar
Por isso, cara eleita, não se lhe pede uma denúncia, nem um grito — apenas uma pergunta. Uma pergunta pública, visível, registada em ata. O gesto simples de quem honra o mandato e não o cargo.
Porque questionar não é deslealdade: é o primeiro dever de quem acredita na democracia. O silêncio, esse sim, é que é traição.
Odivelas precisa de quem fale — não de quem consinta. Precisa de uma política ativa de apoio à comunicação social local, com regras claras, iguais para todos, e sem a sombra das conveniências partidárias.
E quem melhor para o exigir do que uma pessoa livre?

As plantas e a política
Permita-me terminar com uma metáfora: as plantas também são seres vivos, e reagem aos estímulos externos.
Pois bem, é verdade. Mas as plantas, coitadas, dependem do sol que lhes chega.
As pessoas livres — essas — criam o seu próprio sol.
E é essa luz que hoje se espera de si: a de quem faz crescer a transparência, mesmo quando o terreno é árido e o vento sopra de frente.
Com estima e esperança,
António de Queirós
Determinação de Questionar
Intervenção de Carina Castanheira, nova líder de bancada do PS na Assembleia Municipal de Odivelas de 31/10/2025. Apresentou uma lista de intenções que na prática motivaram esta primeira carta que António Queirós lhe dirige neste artigo.
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