Uma ‘carrinha’ Aston Martin para recordar
Passaram doze anos quando o atelier Zagato surpreendeu os apaixonados pelo automobilismo ao idealizar a versão Shooting Brake do Aston Martin Vanquish para completar a sua série – de modelos Zagato, entenda-se – da marca inglesa. Conceito que surgiu em 2014, depois de se ver o tecto dupla-bolha, numa versão do Aston Martin Virage, apresentado no Chantilly Arts & Élégance Richard Mille, uma espécie de concurso dedicado à celebração do design e arte automobilística que tem a virtude de coincidir veículos clássicos com novos projectos de conceito, naturalmente dedicados aos entusiastas da inovação e do luxo, mesmo que não signifique uma panóplia de tecnologias de entretenimento e comunicação. Esta “carrinha” – em bom português – fez parte de uma encomenda da Aston Martin de quatro versões especiais do célebre modelo Vanquish. Se é verdade que poucos são os que conduziram e conduzem este modelo, nós tivemos a oportunidade de guiar um Aston Martin DB9 em 2016, modelo que reúne características em todas semelhantes: Motor, tablier e chassis, embora o atelier Zagato tenha anunciado melhoras significativas no conjunto dinâmico. Seja como for, o mais impressionante é o desempenho do propulsor, “filho” de mestres engenheiros que, mais do que inventarem, criaram um V12 atmosférico digno de um verdadeiro super motor Ford. Faz-nos lembrar o V8 do modelo Mustang: ronca, responde e aguenta tudo. O chassis comporta-se bem. Em estrada é confortável, mesmo rodando depressa e responde à travagem forte, porque a abordagem às curvas só se pode fazer: primeiro, travando vigorosamente; segundo, reduzindo as marchas… Nada de forçar o motor porque conduzimos um Aston Martin emprestado. Só encontramos dois pequenos defeitos no DB9: Painel de instrumentos demasiado espartano e alguma vibração na carroçaria, muito próprias dos superdesportivos ingleses. Hoje, podemos encontrar pelo menos um exemplar do Aston Martin DB9 5.9 V12 Coupé Touchtronic 2 de 2007, com apenas 43 mil quilómetros por 59.000 euros. E também podemos encontrar um DBS Superleggera 5.2 V12, de 2021, com apenas 13.384 Km por 239 mil euros.

Este modelo é acima de tudo a união de um desenho quase primoroso, elegante, com a exclusividade e tecnologia automobilística: carroçaria de carbono encerrando o tecto e difusores, que esconde um motor V12, com 5,9 litros, atmosférico, que gera entre os 580 e 604 CV, de origem Ford porque era a marca que detinha a Aston Martin à data da apresentação deste modelo do estúdio italiano que anunciou o fabrico de apenas 99 exemplares.
De qualquer modo, este modelo – que ostenta o símbolo do grupo independente Aston Martin Lagonda Global Holdings que é presidida pelo seu maior accionista, o canadense Lawrence Stroll – escondeu a clara intenção de concorrer o modelo ‘FF’, da Ferrari, apresentado em 2011 e que se produziu até 2016, também só disponível com um motor V12, de 6.262 cc, com uma potência anunciada de 660 cavalos e uma inovadora tracção às quatro rodas. A diferença maior está nos 4 lugares espaçosos do Ferrari contra os apenas 2 desta ‘carrinha’ de Zagato que deixava o demais espaço para bagagem, já que a construção se baseia na multifacetada arquitetura “VH” da Aston Martin, utilizando a estrutura traseira do modelo Rapide (apresentado em 2010), para proporcionar uma área de carga plana.

Cabe aqui um parêntesis para fazer história: A Ferrari substituiria o modelo ‘FF’ pelo GTC4Lusso exibido oficialmente ao público, no Salão Internacional do Automóvel de Genebra, em março de 2016. Mantinha a arquitectura, o espaço para quatro adultos, a tração integral, desta vez associada a um sistema de direcção também às 4 rodas (conhecido por 4RM-S), mas passou a ser comercializado com duas motorizações: o motor atmosférico V12 de 6.262 cc, melhorado e mais eficiente, já com 680 cavalos e um par motor (binário) de 697 Nm a 5.750 rpm; e o motor V8, de 3.855 cc, sobrealimentado por 2 turbos, com 602 ou 610 cavalos, binário de 760 Nm. No entanto, a versão V8 – lançada quatro meses mais tarde, em setembro de 2016 depois de apresentada no salão de Paris – apenas foi disponibilizada com tração traseira. Recordar que então, o preço no mercado Norte-americano oscilava entre os 264 mil e 304.000 dólares.
Há marcas automóveis de excepção voltadas para um nicho de mercado estritamente composto por apaixonados pela coisa do automóvel e também com maior capacidade financeira. Mas neste clube exclusivista, encontramos cada vez mais outsideres que fazem enorme esforço para poder adquirir alguns dos ícones da indústria automóvel, menos ou mais contemporâneos, sendo mesmo capazes de fazer uma vida modesta com algumas privações que o cidadão comum não estaria disposto a fazer a troco de um automóvel distinto e quase único.
A Aston Martin, em 2011, encomendou ao estudio italiano Zagato, 325 unidades muito especiais do modelo Vanquish, e divididos em quatro categorias: 99 Coupés, 99 Volantes, 28 Speedster e 99 Shooting Brake, a última versão que foi apresentada em dezembro de 2014, em modo definitivo.
A marca britânica e o atelier Zagato não se livraram da controvérsia: O perfil e a traseira do Shooting Brake são demasiado semelhantes ao emblemático Ferrari ‘FF’, da autoria do Centro de Desing da marca italiana e da responsabilidade de Flavio Manzoni. Só que no interior, o Aston Martim apenas dispõe de dois lugares, substituindo a ideia dos confortáveis bancos traseiros que o Ferrari possui, por uma extravagante bagageira em carbono e pele. De qualquer modo, a Aston Martin aceitou maior ousadia no novo modelo Vanquish. Se é certo que se mantêm características intrínsecas à marca, não será menos verdade que estamos perante superdesportivos, onde o estúdio Zagato – e muito bem – conseguiu cruzar o vanguardismo com a linhagem do construtor inglês. E neste caso há um detalhe que Zagato poderia reclamar à Alfa Romeo meia fotocópia das suas ópticas traseiras deveras idênticas às que vemos no original modelo ’33 Stradale’ de 2023.

De qualquer modo, também encontramos semelhanças entre modelos singulares, exclusivos de produção limitada. Se a Ferrari poderia reclamar à Zagato meia cópia do estilo do seu modelo ‘FF’ – substituído em 2016 pelo ‘GTC4Lusso’ – não é menos verdade que o Estúdio Zagato poderia reivindicar à Alfa Romeo a autoria das suas ópticas traseiras deveras idênticas às que vemos no original modelo ’33 Stradale’ de 2023
As versões do novo modelo Vanquish, têm como base o ‘S’, o primeiro desta geração de Zagato’s com o símbolo da marca de Gaydon, a ser mostrado e já com unidades a circular. Utilizam um propulsor de 12 cilindros em V, de 5,9 litros, que debita entre os 580 e 604 cavalos de potência, agrupado uma caixa Touchtronic III – automática electro-mecânica – de oito velocidades. Anunciavam-se as prestações de 3,5 segundos para acelerar dos 0 aos 100 Km/h.
A associação entre a Aston Martin e o estúdio italiano data da década de 60 do século passado, com a construção do célebre modelo DB4 GT Zagato, que se assinala nos novos Vanquish como por exemplo a ’dupla-bolha’ no tejadilho.

A engenharia do modelo é Ford já que o construtor estadunidense deteve a marca britânica até 2020. O motor deste modelo Zagato era conhecido internamente como AML V12 e publicamente exposto de modo simplista como a “união de 2 motores Ford Duratec de 6 cilindros em V. Realmente foi um exercício de engenharia complexo: utilizou componentes da família Duratec, nomeadamente os pistões e trens de válvulas. Contudo, está construído com um bloco e cabeças de cilindro fundidos pela Cosworth Technology. Resultou do trabalho conjunto da divisão de motorizações avançadas da Ford e da Cosworth na década de 90, e também de um estudo prévio – à produção, entenda-se – realizado pela Porsche a pedido da Ford. Os motores foram construídos numa instalação integrada no universo industrial da Ford, em Niehl, perto da cidade alemã de Colónia, inaugurado em 2004 e chamado Aston Martin Engine Plant (AMEP).
– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico) Fotos do Atelier / Estúdio Zagato

